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Sonic Blast 2025 – Quando a electrónica se infiltra pelo rock adentro

Uma neblina marítima trouxe à Praia da Duna dos Caldeirões uma sensação semelhante àquela que o número 13 evoca, o mesmo desta edição de Sonic Blast, a inquietude sensível de algo que abruptamente poderá mudar. Pela primeira vez, a direção do festival colocou à prova quem segue a música amplificada pelo Norte.

Há uma corrente invisível que começa no mar, atravessa o pinhal e se espraia sobre a areia antes de se condensar em som. O Sonic Blast 2025 não foi apenas um festival – foi um mapa sensível de geografia sonora. Entre os dias 6 e 9 de agosto, A praia das Dunas dos Caldeirões vibrou com uma liturgia de riffs que se entranharam na pele, naquela paisagem onde mar, campo, rio se tornaram um só.

Dia 0: O prólogo sob as árvores

Há festivais que se visitam e há festivais que se atravessam. O Sonic Blast pertence à segunda categoria: não se entra apenas pela porta, atravessa-se o vento carregado de sal, o pinhal que filtra o sol e o rumor grave que já treme antes de se ver o palco. Quatro dias em Vila Praia de Âncora, quatro variações do mesmo feitiço: a fusão de mar, campo, rio e distorção.

O warm-up não é apenas uma preparação, é o ritual de passagem. O caminho até à tenda, escondida sob os pinheiros, é feito de passos que soam como se entrássemos numa zona protegida do tempo.

O festival começou antes do que muitos esperavam, numa véspera quase furtiva, quando o sol se escondia ainda tímido no horizonte e o pinhal circundante já retinha os primeiros acordes. Overcrooks subiram ao palco com a urgência do skate-punk, as suas guitarras ásperas e bateria acelerada fazendo vibrar a areia sob os pés, como se a praia despertasse de um sono profundo. O público, ainda espalhado entre barracas e pinheiros, foi conquistado pela irreverência crua, um convite a saltar e a deixar o cansaço do dia para trás.

Seguiram-se os nevoeiros sonoros dos Daily Thompson, que cobriram o espaço com uma camada espessa de fuzz, quase como se a névoa natural se tivesse transformado em som. A textura densa das suas músicas envolveu tudo e todos, criando uma atmosfera de bruxaria. Os acordes sujos de Nerve Agent impuseram um ritmo frenético, carregado de thrash e punk-hardcore, acelerando o pulso colectivo e levando a multidão a um estado arrebatado de energia, os ingleses começavam o concerto com a sua versão da Symptom of the Universe, tema original de Black Sabbath, que arrancava com as palavras: “This is for Ozzy fucking Osbourne!”, relembrando a importância titânica que o grupo lendário tem para o festival e ainda a dívida que quase todas as bandas dentro do género têm para soldar com o mesmo.

Já noite cerrada, Castle Rat trouxeram a sua teatralidade dark e stoner, com riffs profundos que pareciam brotar da terra como raízes de uma árvore ancestral, criando um cenário de fábula nas sombras do pinhal. Quando os The Heavy Brothers fecharam o dia, prolongaram a vibração até às primeiras horas, como se a noite nunca quisesse cair por completo neste território mágico.

 

Dia 1 – Marés de Fogo

Com o amanhecer, a praia encheu-se de um movimento vibrante.

O primeiro dia oficial do Sonic Blast Fest trouxe uma maré crescente de intensidade, como ondas sucessivas que não cedem. Capela Mortuária iniciou as hostilidades com thrash bracarense do fundo do poço, e de lâmina afiada, a sua música cortava o ar quente da tarde e preparando o terreno para o impacto seguinte.

BØW subiram depois, com o seu punk-hardcore enérgico, quase abrasador, que incendiou os primeiros espaços abertos entre as árvores, chamando os mais resistentes a unirem-se num só corpo colectivo. Hoover III fez-se notar ao desdobrar uma viagem psicadélica retro, fazendo com que o tempo parecesse fluir em ritmos dilatados, onde cada acorde era um sopro antigo de outra era.

Spoon Benders seguiram-se com uma tempestade de distorção refinada, criando um nevoeiro sonoro que se misturava com a brisa salgada, fazendo com que a cabeça balançasse involuntariamente. Em contraste, os riffs de Slomosa arrastavam-se pesados e lentos, quase como o passo cadenciado de um animal antigo a percorrer a areia húmida.

Quando DITZ chegaram, a energia subiu de tom; urgência britânica cortante, uma explosão de pós-hardcore que fez vibrar o chão e o coração de quem assistia. Cal Francis, vocalista do grupo, liderou um dos momentos mais cárdio-ginásticos em palco, subindo às vigas de suporte e realizando viagens para dentro da crowd, que regava com a sua garrafa de espumante, vincando sempre a energia queer que nunca pode ser descartada quando falamos de rock’n’roll. Este momento foi o prelúdio perfeito para o transe expandido de Earthless, cuja música, uma viagem sem fim de psicadelismo instrumental, levou a audiência a perder-se entre as estrelas e o mar.

King Woman, no seu primeiro concerto em território nacional, trouxe um mergulho gótico, quase litúrgico, nas emoções, cada canção uma oração profunda e intensa, apresentando temas do aclamado Celestial Blues, outros ainda por sair e ainda uma versão da I wanna be adored dos The Stone Roses.

Amenra assumiram o palco com uma força esmagadora, espiritual e catártica, como um exorcismo coletivo, onde cada riff parecia arrancar as dores e transformá-las em força, e a estética de “um concerto a preto de branco”, como a RUC escrevia em 2023, depois de ver os belgas no Amplifest portuense, funcionava como um catalisador de descarga das emoções mais pessoais ao som de temas como Razoreater ou A Solitary Reign. Em palco, sentimos a falta de Tim De Gieter, previamente baixista do grupo, estando em seu lugar Amy Tung Barrysmith, a mais recente adição no alinhamento ao vivo.

A noite foi levada ao rubro por Fu Manchu, mestres incontestados do stoner, que inundaram o espaço com groove e psicadelismo, num maremoto de som quente e vibrante. Para fechar, MAQUINA., Heavy Trip e Inhuman Nature mantiveram o motor em alta rotação, entrelaçando peso, velocidade e riffs que pareciam fundir o suor do público com o sal do mar.

Dia 2 – O Ritual do Som

Pelas 15:30, o palco mais pequeno, o Stage 3, acolheu To Yo, banda japonesa que no ano passado passou por Coimbra numa das datas da sua tour, trazendo uma combinação de psicadelismo e acidez, onde as texturas vibravam pelo recinto arenoso como manda o lema do festival. O seu som alargava-se pela praia, como ondas que se quebram suavemente contra a areia, envolvendo quem ouvia numa atmosfera quase meditativa.

No Main Stage 2, subiram os nacionais Nagasaki Sunrise, que começaram por preencher o espaço com uma sonoridade crua e carregada de energia bruta do heavy metal e do d-beat, como se cada nota fosse um grito lançado para o mar. A sua música, carregada de emoções intensas, estabeleceu a primeira ligação entre o público e o espírito do dia, onde tudo poderia acontecer. Os lisboetas tiveram a sua merecida oportunidade de subir ao palco principal depois de terem tocado no warm-up do festival há dois anos

Sunflowers tomaram conta do palco às 17:20, oferecendo uma mistura vibrante de noise rock e garage, com riffs luminosos e melodias que despertavam os sentidos e faziam balançar corpos e almas ao ritmo de um verão que parecia inesgotável.

Mais tarde, Gnome subiram ao Main Stage 2, mergulhando o público num universo de riffs densos e pesados, uma ode ao stoner rock que se encaixava na paisagem natural com a mesma força das pedras e das árvores que ali vivem. A sua música parecia esculpida na própria rocha da duna e o público vestia pequenos chapéus vermelhos, iguais ou similares aos da indumentária da banda.

A voz distinta de Emma Ruth Rundle tomou conta do Main Stage 1, trazendo uma atmosfera introspectiva e intensa. As suas canções são como confidências sussurradas, cada palavra carregada de sentimento e a sua guitarra a tecer paisagens sonoras que se encaixavam na melancolia e na beleza do entardecer junto ao mar, numa das partilhas mais geniais do evento, confirmada pela receção calorosa do público à artista americana que transpunha o folk da cordilheira de Appalachia para o norte português, e de relembrar ainda alguns dos momentos mais icónicos da sua atuação, passando por um apelo na frase “maybe someone here will marry me”, a sair do palco antes da hora estipulada para o fim do concerto, regressando com uma frágil mas agradável frontalidade de conversa para com o público e um tema final que não foi por enquanto editado e que reverte os temas patriarcais presentes no folk tradicional americano.

Chalk continuaram a elevar o nível, oferecendo um post-rock electrónico onde cada nota parecia pintar o céu com cores invisíveis, criando momentos de dança não habituais do que se espera no Sonic Blast.

Quando o relógio marcou as 22:00, My Sleeping Karma entraram no Main Stage 1 com o seu stoner psicadélico instrumental, onde a repetição hipnótica e os riffs coloridos se fundiam numa experiência quase ritualística. O público foi levado numa viagem cósmica, entre a terra e o espaço, com a energia do festival a atingir um pico emocionante.

Witchcraft trouxe ao palco principal uma dose de rock clássico com uma aura sombria e mística. O seu som vintage e carregado de sentimento encaixou-se perfeitamente na noite que começava a cair, como uma aura de mistério a envolver toda a praia.

A queda da 1 da manhã no Main Stage 2 com Dame Area trouxe uma cisão ao público, a dupla de synth-punk e EBM regressou ao festival depois da sua primeira aparição em 2022 no último palco do circuito, e apesar de já se terem lacrado enquanto um dos nomes mais incisivos quando vêm a território nacional, como aconteceu em festivais como o Tremor, Les Siestes ou o Extramuralhas, uma camada significativa do público voltou a estranhar a preferência na manipulação electrónica, e não obstante a um certo êxodo humano, uma vasta porção dos espectadores deram oportunidade à música de dança, que passava por temas extraídos do seu mais recente Toda a verdade sobre Dame Area e de trabalhos anteriores, que já colocaram outras salas do país em dança intensa.

Daevar emergiu com um som poderoso e instrumental, uma parede sonora construída sobre psicadelismo espacial e drone, que pareceu suspender o tempo e o espaço, enquanto as estrelas começavam a dominar o céu. Para fechar, Witchthroat Serpent lançou um manto pesado e envolvente de doom e sludge, uma despedida épica para um dia que foi uma celebração do peso, da textura e da emoção crua. A sua música, carregada de fúria e melancolia, fez vibrar as últimas areias da duna antes do silêncio regressar, deixando todos com a certeza de que a magia do Sonic Blast é uma chama que não se apaga facilmente.

Dia 3 – O Último Eco

No terceiro dia, o Sonic Blast Fest pareceu desacelerar para um ritmo mais ritualístico, quase meditativo, como se a própria natureza se tivesse conjurado em volta do palco. Messa abriu com um doom litúrgico, onde cada nota parecia cair como orvalho gélido numa rocha quente, criando uma aura de solenidade que invocava o silêncio entre a multidão.

Os riffs secos e abrasadores dos The Atomic Bitchwax romperam este silêncio com um groove seco, quase brutal, que fez o público sacudir-se como se despertasse de um transe profundo. Seguiram-se os King Buffalo, cuja música se expandiu como um rio cósmico, arrastando todos numa viagem sideral que atravessou céus, estrelas e rios invisíveis.

Dead Ghosts trouxeram um sol revivalista com surf-punk vibrante, devolvendo a leveza e a alegria momentânea ao festival, antes de Monolord baixar o ritmo a um peso quase tectónico, riffs que pareciam deslizamentos de terra num deserto de areia escaldante.

Com Patriarchy, o ambiente mudou para um desconforto industrial, paredes sonoras espessas e opressivas que criaram um muro invisível entre palco e público. Essa barreira foi destruída pela explosão punk dos lendários Circle Jerks, cujo fervor frenético reacendeu os corações e corpos, num mosh que parecia não ter fim, acompanhado pelas pausas feitas nas diatribes de Keith Morris, que pareciam intermináveis num palco que se transformara no seu lugar de fala.

Os Molchat Doma vieram depois com uma melancolia fria e hipnótica, evocando um cenário pós-soviético onde a tristeza se mistura com a beleza, deixando a audiência num estado quase onírico, com poucas palavras entre temas, os bielorrussos trouxeram mais um elemento ao festival que há alguns anos seria impensável de imaginar em palco: o new-wave e o pós-punk sintetizado.

A noite prolongou-se com o regresso teatral dos Castle Rat, a sua música profunda e cheia de mistério para envolver a multidão mais uma vez.

Os últimos acordes do dia foram entregues a Dopethrone, cujo sludge sufocante arrastou o público para um abismo de peso e fúria. Por fim, Vinnum Sabbathi fechou com um mergulho sideral, uma viagem sonora que parecia levar os presentes para as fronteiras do cosmos, encerrando o ritual do som numa espécie de êxtase coletivo.

Com o fim da 13º edição de Sonic Blast e com o festival a tomar dimensões cada vez maiores, poderá ser tempo de colocar a seguinte questão: haverá controvérsia na escolha de grupos com ênfase electrónico num festival que tradicionalmente focou nas variações do rock, stoner e do doom, em prol de alargar a demografia e culturas de gosto dentro do público?

Certamente podemos afirmar que um grau de desconforto e alienação foi sentido em determinados momentos, a decisão de trazer nomes como Dame Area, Patriarchy e Molchat Doma poderá não ter caído da melhor forma a alguns festivaleiros. Será portanto o caminho para a direção electrónica uma inevitabilidade? Ou será arriscar a fidelidade de um público que vê no festival um refúgio? O diálogo entre a preservação do que nos já é conhecido e colocar um passo no que é incógnito é sempre um tópico de debate, quando os eventos que nos são familiares se alargam, quase que como um sistema de válvulas hidráulicas, aumentando um peso em função de outro. Ficando para o ano como tarefa da RUC, enquanto olho atento do panorama nacional, extender estas considerações e observar cuidadosamente o que o futuro guarda para o monólito em transformação que anualmente se corporifica em Vila Praia de Âncora.

Contudo, os ecos do evento permanecem: vivos, intensos, indeléveis. Foi um festival onde cada riff contou uma história, cada acorde incendiou a noite, e onde a música se afirmou, sem artifícios, como linguagem universal. Até ao próximo encontro, que seja tão marcante quanto este, na companhia da Rádio Universidade de Coimbra.

Uma cobertura a cargo de Inês Cruz, Lexi Narovaktin, Diogo Rivers e Maria Carrilho.

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