AUTOR: Isabel Simões

DATA: 06.05.2026

DURAÇÃO: ...

As cheias de fevereiro voltaram a colocar no centro do debate a relação entre o rio Mondego e a cidade de Coimbra. Mais do que um episódio pontual, estes eventos extremos expõem fragilidades estruturais no ordenamento do território, na perceção do risco e na forma como decisões políticas e urbanísticas continuam, em muitos casos, a ignorar o conhecimento científico acumulado ao longo de séculos.

Em entrevista à Rádio Universidade de Coimbra, o geólogo Pedro Proença Cunha traça um retrato em que o risco de inundação não é apenas um fenómeno natural, é, também, uma consequência direta da ocupação humana das planícies de inundação. Estas áreas fazem parte da dinâmica natural dos rios e existem precisamente para acomodar cheias periódicas. Quando são ocupadas com habitação ou infraestruturas permanentes, o perigo transforma-se em prejuízo.

Historicamente, Coimbra nasceu na “Alta”, zona segura e elevada, longe das oscilações do Mondego. No entanto, com o crescimento populacional e o desenvolvimento económico, a cidade foi descendo em direção à “Baixa” e às margens do rio. Atividades comerciais e industriais, como a olaria e o transporte fluvial, incentivaram essa aproximação. Mesmo sabendo que as cheias eram frequentes, a população adaptava-se: construía comércio no rés-do-chão, vivia nos pisos superiores e preparava-se para subir bens sempre que a água subia.

Mas a história mostra que essa convivência tinha limites. Mosteiros como Santa-Clara-a-Velha ou São Domingos foram repetidamente afetados, soterrados por sedimentos ou destruídos pela força das águas. Já na Idade Média havia sinais claros de que construir em zonas inundáveis implicava riscos elevados. Ainda assim, esses ensinamentos parecem não ter sido plenamente assimilados.

Um dos pontos mais críticos destacados por Pedro Proença Cunha prende-se com a falsa sensação de segurança criada pelas infraestruturas hidráulicas modernas. A construção de barragens na década de 1980 reduziu drasticamente a ocorrência de cheias durante cerca de duas décadas. Esse período relativamente tranquilo levou à ideia generalizada de que o problema estava resolvido, uma perceção que influenciou tanto a população como o planeamento urbano.

O resultado foi a expansão urbana para áreas de risco, muitas vezes com base em estimativas inadequadas. Os cálculos de cheias centenárias, fundamentais para definir zonas inundáveis, foram feitos com base em séries de dados relativamente curtas (cerca de 100 anos). No entanto, ao analisar registos históricos mais extensos, até 860 anos, o investigador conclui que as grandes cheias são muito mais frequentes do que se pensava. Em alguns casos, cinco vezes mais frequentes.

Essa subestimação tem consequências diretas nas delimitações erradas das zonas de risco, permissões de construção inadequadas e uma vulnerabilidade crescente da cidade. Em episódios recentes, como a cheia de 2001 ou a deste ano, verificaram-se roturas de diques e níveis de água próximos de cenários críticos que, no caso da cheia de 2026, poderiam ter levado à inundação de vastas áreas da Baixa.

Outro problema relevante é o aumento do nível freático associado às alterações hidráulicas do rio, como a construção de açudes. Em zonas urbanizadas sobre a planície de inundação, isso traduz-se em fenómenos recorrentes de infiltração, garagens e pisos térreos frequentemente inundados, mesmo sem transbordo direto do rio.

Apesar destes alertas, continuam a existir propostas de intensificação da construção nessas áreas, nomeadamente através da edificação em altura. Embora se argumente que não há aumento da impermeabilização do solo, o problema de fundo mantém-se e passa por mais pessoas e bens expostos a um risco que não desapareceu, apenas esteve temporariamente disfarçado.

Para Pedro Proença Cunha, a solução passa por uma mudança de paradigma. Em vez de insistir na ocupação intensiva das planícies de inundação, estas devem ser utilizadas de forma compatível com a sua natureza ou seja, agricultura, espaços verdes, zonas de lazer. Usos que aceitem a possibilidade de inundação sem causar danos significativos.

Ao mesmo tempo, defende-se uma abordagem integrada na gestão da bacia hidrográfica, que vá além da engenharia hidráulica e incorpore fatores ambientais, sociais e económicos. Esse modelo exige a participação ativa de cientistas, decisores políticos e comunidade, numa lógica de prevenção e não apenas de reação.

A recente criação de uma comissão de especialistas para estudar as cheias e propor novas estratégias pode ser um passo importante. No entanto, permanece uma questão essencial que deixa a pergunta – será que desta vez, ao suspender o PDM na zona entre a Ponte de Santa Clara e Coimbra-B (em especial na margem direita) Coimbra vai aprender com o seu passado — ou continuará a repetir erros com séculos de história?