
Coberturas RUC
Todas as coberturas de festivais realizadas pelas equipas da RUC.
UM PROGRAMA DE:
Programação RUC
Nick Cash dos 999 sentou-se à mesa com a RUC e enquanto se bebiam cervejas falou sobre o regresso a Portugal para atuar no Jardim da Sereia no Rocketmen, falou também sobre o concerto histórico que deram na praça de touros de Cascais no início da história da banda, o novo álbum que lançaram de um concerto ao vivo gravado no longínquo ano de 1987, e a longevidade de uma banda formada há quase 50 anos que está agora a filmar um documentário para celebrar a data. Falou ainda sobre a forte relação com o público que continua inabalável por muitas décadas que passem. Os 999 atuaram no festival Rocketmen às 19 horas de sexta-feira dia 1 de agosto.
TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA EM PORTUGUÊS:
RUC: Os 999 vão atuar mais logo, no primeiro dia do Festival Rocketman. O concerto está marcado para às 19h de hoje. A entrada é livre no Jardim da Sereia. Eu sou o Luís Pereira e estou aqui com o Nick. Obrigado por estares connosco na Rádio Universidade de Coimbra.
Nick: Olá, olá Luís. É ótimo estar aqui no teu programa.
RUC: Está muito calor hoje. Como estás a lidar com isso?
Nick: Bem, em Inglaterra está mais fresco, mas amanhã já voltamos para lá. Vir só por um dia é um pouco difícil, mas estamos habituados a estar em palco, por isso vamos dar o nosso melhor hoje à noite em Coimbra.
RUC: És o primeiro convidado que me oferece uma cerveja, obrigado. E acabei de saber que estão a fazer um documentário sobre a banda, certo?
Nick: Sim, é verdade. Estamos a fazer um documentário sobre os 999, realizado pelo Danny Garcia. Ele já fez vários projetos incríveis, sobre o Chelsea Hotel, os Dole, o Johnny Thunders. Ele é mesmo bom. E também tem contactos na América do Sul, o que é ótimo, porque os 999 são muito conhecidos por lá. Hoje mesmo, aqui em Coimbra, encontrámos um homem que tínhamos visto no Rio, e ele conhecia a banda de lá.
RUC: Hoje atuam num jardim. Achas que é um bom local para um concerto punk rock?
Nick: É ótimo tocar aqui. Não é um sítio onde se vá normalmente, e os 999 não gostam do normal. Gostamos de ir a sítios onde fazemos novos amigos e damos novos concertos. Tocamos punk rock de 1977, New Wave. Já passaram quase 50 anos e muita gente continua a gostar. É algo cultural: pelas músicas, pela roupa, pelas ideias, pelas pessoas. E o melhor é que não são só os fãs antigos, temos miúdos de 11 e 12 anos que também nos seguem. Isso deixa-me muito feliz.
RUC: Já entrevistei bandas que dizem que a música é só uma desculpa para estarem juntos como amigos. Parece que isso também acontece entre vocês e os fãs, certo?
Nick: Sim. Não diria que os 999 são os melhores amigos. Mas temos uma grande amizade com o público. Trabalhar juntos durante 50 anos é difícil, discutimos, discordamos. Mas conseguimos manter-nos juntos. Hoje temos o Stuart Meadows na bateria, está connosco há 10 anos e tocou com os Conflict. O Arturo Bassick que está na banda há 38 anos de banda. Guy Days é um membro fundador de 1977.
RUC: Disseste que às vezes as coisas não correm bem. Mas como é que conseguem manter-se juntos?
Nick: Fazemos boa música. Vamos fazer um novo disco. Estamos a fazer este documentário. As pessoas continuam a querer, continuam a querer ver-nos. E esta noite, espero que aqui em Coimbra, Portugal, tenhamos um concerto muito bom. É uma sensação calorosa, maravilhosa, fantástica ver um público a divertir-se com aquilo que fazemos. E conseguimos chegar às pessoas e aceder a uma parte da sua cabeça que talvez não esteja aberta muitas vezes, sabes? E juntos fazemos algo, que é a música, que é grande e poderosa. E é isso. Esse é o segredo.
RUC: O concerto vai ser num jardim. Mas preferes grandes palcos ou concertos mais íntimos, como este no jardim?
Nick: Não me importo. Não me faz diferença. Já toquei para 25 mil pessoas. Tocámos no Punk Rock Bowling em Las Vegas, nos EUA. Tivemos 15 mil pessoas a aparecer. Mas não me importo se forem 15 mil ou não. Aprendi isso logo no início. Estávamos a tocar um concerto na América e só estavam lá 12 pessoas. E eu pensei: “Meu Deus, só estão 12.” Mas foram fantásticos. Sabiam todas as músicas. Diziam: “Sim! Bora! Toca mais uma!” Por isso, não julgo a música pelo número de pessoas no público. Julgo pelo que acontece com essas pessoas. Sabes o que quero dizer? Se tiver uma pessoa na plateia, vou continuar a tocar com tudo.
RUC: A próxima pergunta é precisamente sobre isso. Já deste tantos concertos. O que torna um espetáculo realmente memorável para ti?
Nick: O público. Sempre. As pessoas. Sabes, às vezes as pessoas não falam inglês. Mas hoje em dia o inglês é mais falado. Mas aqui em Coimbra, às vezes sinto-me envergonhado. Não falo português. Só sei dizer “obrigada”. É tudo o que sei. Mas o que acontece é que sinto que sou muito bem recebido. Quando tocas a música que nós tocamos, és muito, muito bem recebido, percebes? E isso é o mais bonito. A música quebra barreiras. Junta as pessoas. E é isso que o mundo precisa. Pessoas juntas. Paz. Música. Essas são as coisas que duram para sempre, sabes? Guerras, políticos, isso vai e vem. Mas no topo está sempre a música. A arte. Pintura. Livros. Isso é o que importa.
RUC: Vi nas redes sociais que alguns fãs se lembram de vos ter visto em Cascais há 45 anos.
Nick: Ah, Cascais! Sim, foi na praça de touros. E o que aconteceu foi que houve uma tourada à tarde. E meteram-nos nos balneários da tourada, percebes? Depois o público entrou na arena. E em vez de se sentarem nas bancadas, desceram para a arena também. Ficaram todos em pé no chão da praça. E era muito poeirento. E estava vento. Então, a saltar no chão de areia, o pó levantava-se. E à medida que as bandas tocavam, ficavam todas cobertas de pó, da cabeça aos pés. Estavam lá os Tourists, que depois se tornaram os Eurythmics, com a Annie Lennox. Estavam lá os Skids. Os Stranglers. Foi um concerto fantástico, sabes? Nunca o esqueceremos por causa daquele pó. Mas o público não quis saber da poeira. E nós também não. Era pela música. Estavas lá?
RUC: Não, não. Vi pessoas nas redes sociais a dizerem que estão muito entusiasmadas por vos rever. E falavam como se fossem amigos da banda. Quando reencontrares esses fãs de há 45 anos, é como voltar a ver um velho amigo?
Nick: É verdade, é mesmo assim. Volta tudo rapidamente à memória. E é isso que a música faz. E claro, eles sabem as músicas. Cantam as letras connosco. Posso até parar de cantar, e eles continuam. Tipo: “I believe in homicide. I rest my case. Don’t cast aside…”. E eles gritam: “Homicide, homicide, homicide!” Ontem jantámos na cidade. Uma refeição portuguesa muito boa. Comida fresca, muito boa. O empregado que nos serviu disse: “Acho que vos conheço, fizeram uma música chamada Suicide?” E eu: “Não, fizemos uma chamada Homicide.” E ele: “Ah, 999!” Foi muito bom. E cá estamos. Sabes… Para nós o mundo é pequeno. Pequeno porque já fomos a todo o lado. Japão, América do Sul, Buenos Aires, percebes?
RUC: Lembras-te de alguns concertos que foram incríveis. Acabaram de lançar um álbum ao vivo de 1987, certo? Sobre um concerto que a banda deu no Basin’s Nightclub. O que tornou esse concerto tão bom ou especial ao ponto de decidirem lançar um álbum sobre ele?
Nick: Bem, foi a editora que sugeriu. Tinham filmado algumas bandas lá. Gravaram os The Jam, os Dr. Feelgood, o Wilko Johnson e o Desmond Dekker, o grande Desmond Dekker. E era um clube muito bom, onde as pessoas realmente tocavam. E eles disseram: “Vamos fazer uma série. Temos os 999. Podemos gravar os 999?”. E eu disse: “Claro!” Porque é bom fazer parte de uma edição ao lado do Desmond Dekker, que eu adoro. Eu adoro reggae, sabes? Os 999 não estariam aqui se não fosse pela música reggae e tudo o resto. Fizemos os primeiros concertos do Rock Against Racism em Londres, onde tocávamos com bandas como Black Slate, Steel Pulse, tudo junto para combater o racismo em Inglaterra, que era bastante mau na altura. Por isso, fazer parte dessas coisas é algo que eu adoro. É isso que eu amo. Toda a música… toda a música quebra barreiras. Não há, sabes o que quero dizer? Não há barreiras. É a música. A música faz as coisas acontecerem entre as pessoas. Eu acredito que é a música que faz o mundo girar, mesmo.
RUC: Muitos músicos vêm de escolas de arte. Acredito que também é o teu caso.
Nick: Sim, eu estive numa escola de artes em Canterbury. Formámos uma banda para atuar na festa de final de ano da escola. E isso foi ótimo, sabes? A partir daí fomos em frente. Tocámos em muitos clubes. E depois os The Who convidaram-nos para nos juntarmos a eles na digressão Quadrophenia, por toda a Inglaterra. Foi absolutamente fantástico. Crescemos rapidamente, lançámos um disco e um álbum. Depois isso não correu bem e eu comecei os 999. E cá estou eu, 50 anos depois, com os 999. As pessoas dizem: “Nick, já são 50 anos. E agora?” Bem, fazemos os 50 e depois vamos em busca dos próximos 50 anos!
RUC: Acho que os próximos 50 anos vão ser incríveis, Nick. Foi um prazer falar contigo. És uma das pessoas mais simpáticas que já entrevistei.
Nick: Vamos brindar! Estamos a brindar juntos aqui. Um grande olá para toda a gente que ouve a vossa rádio, da parte dos 999. Estou aqui em Coimbra… e espero ver muitos de vocês no concerto logo à noite, aqui no Jardim da Sereia. É uma honra estarmos aqui em Portugal. A última vez foi em Cascais, há tempo demais, tempo demais! Mas cá estamos esta noite. E espero que possamos voltar muitas vezes mais. Um brinde à música punk rock new wave.
RUC: Um brinde! Obrigado, Nick. Está um dia muito quente. Os 999 vão atuam hoje em Coimbra, no Jardim da Sereia, no Rocketmen às 19 horas. Muito obrigado Nick.
Nick: Muito obrigado. Aproveitem o concerto!

