
Especialistas alertam para falta de prevenção e defendem soluções para eventos climáticos extremos
Do encontro promovido pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Ordem dos Economistas e Ordem dos Engenheiros sobre “Eventos Climáticos Extremos” na última terça-feira, dia 18 de março, na FEUC, ressalta a importância de dispor de dados fiáveis que sirvam de base à tomada de decisões em momentos de crise climática.
No encontro da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) foi também destacada a necessidade de novos modelos de seguros, num país onde apenas cerca de 50% das habitações estão seguradas e menos de 70% das empresas protegidas.
Outro dos problemas identificados prende-se com a vulnerabilidade de serviços essenciais. A falha prolongada de eletricidade e comunicações, como aconteceu após as tempestades na região de Leiria, evidenciou a necessidade de dispor de equipamentos de substituição nas infraestruturas críticas. Alguns participantes questionaram ainda o facto de serviços básicos estarem entregues a empresas cujo principal objetivo é o lucro, levantando também dúvidas sobre o papel dos reguladores de setores fundamentais.
Ainda assim, o ex-reitor da Universidade de Coimbra, Seabra Santos, alertou para o uso excessivo dos “Eventos Climáticos Extremos” como justificação para falhas estruturais, como a ausência de medidas de prevenção e falta de manutenção.
Decisão mais próxima do terreno e melhor coordenação
A presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, esclareceu algumas decisões que permitiram contribuir para uma resposta mais eficaz, no caso da bacia do Mondego, ao aproximar a decisão do terreno e permitir uma melhor coordenação de meios.
A autarca sublinhou também a falta de dados fiáveis em contexto de crise, defendendo a necessidade de rever e melhorar os modelos preditivos.
Abordagens territoriais ganham força
Já o coordenador da Estrutura de Missão para a Reconstrução do Centro do País, Paulo Fernandes, assumiu-se como regionalista, defendendo abordagens territoriais integradas para responder a catástrofes.
Impacto das tempestades exige resposta diferente
O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, destacou que as recentes tempestades tiveram impactos distintos, afetando tanto zonas urbanas como florestais, ao contrário de fenómenos anteriores como o Leslie. Para o autarca, é urgente impedir o efeito de cascata que se verificou na região centro.
Gonçalo Lopes defendeu ainda que o apoio às empresas não deve assentar em empréstimos, mas sim em apoios a fundo perdido.
Transição climática e reforma do Estado em debate
A especialista em biodiversidade Helena Freitas destacou a importância da transição para uma economia descarbonizada, sublinhando que a estratégia de mitigação dos efeitos de fenómenos extremos deve ser nacional, mas articulada com os territórios.
Antes do painel de debate, António Mendonça, o bastonário da Ordem dos Economistas, apontou a urgência de reformar a Administração Pública, defendendo que não basta reduzir burocracia, sendo essencial reforçar a competência dos recursos humanos e recuperar a capacidade de planeamento estratégico.
António Mendonça defendeu ainda que o novo PTRR — Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência — deve ser uma oportunidade de transformação estrutural, alertando para a necessidade de evitar construções em leitos de cheia e a instalação de empresas em zonas inadequadas.
Do planeamento à ação no terreno
Também Isabel Lança, da Ordem dos Engenheiros da Região Centro, sublinhou a necessidade de passar dos planos à ação concreta, defendendo uma abordagem integrada do território e alertando para a importância de não privilegiar apenas o preço nos critérios de adjudicação de obras. Isabel Lança fala da importância de aproximar os planos à realidade no terreno.
Desastres revelam fragilidades sociais
Por sua vez, José Manuel Mendes, diretor da Faculdade de Economia e especialista em risco e vulnerabilidade social, destacou que os desastres expõem fragilidades sociais e reforçou a importância da confiança nas instituições em contextos de emergência.
Relativamente ao PTRR, o especialista considerou tratar-se de um modelo com características elitistas, sublinhando que, embora o Estado responda quando pressionado, a comunicação social tende a reproduzir os modelos do poder político. O especialista em risco fala do modelo Francês.
Risco ambiental permanece uma ameaça
Por fim, o reitor da Universidade de Coimbra, Amílcar Falcão, alertou para o risco ambiental associado às lamas das Minas da Urgeiriça, que poderão contaminar o rio Mondego com materiais radioativos caso haja um rompimento. Afinal, “as alterações climáticas não podem servir de desculpa para tudo”, concluiu.
Um desafio coletivo e urgente
Em síntese, o encontro deixou claro que os eventos climáticos extremos não são apenas fenómenos naturais inevitáveis, mas também o reflexo de fragilidades estruturais que o país ainda não conseguiu resolver. Entre a falta de prevenção, a escassez de dados fiáveis e modelos de resposta desajustados, especialistas convergem na necessidade de uma mudança profunda.
A resposta passa por mais do que reagir à emergência: exige planeamento estratégico, políticas territorializadas, reforço da confiança nas instituições e investimento em soluções sustentáveis — desde novos modelos de seguros até à dotação das infraestruturas críticas de meios de energia e comunicações. O desafio é coletivo e urgente. É necessário transformar a vulnerabilidade em resiliência e preparar o país para um futuro onde estes fenómenos serão cada vez mais frequentes.
O encontro na FEUC foi moderado por Daniela Santiago, jornalista da RTP.
Fotografia: Município de Coimbra
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