
Agricultores temem que demora na reparação do dique dos Casais comprometa sementeiras
As recentes tempestades que assolaram a região Centro deixaram um rasto de destruição no Baixo Mondego e mergulharam agricultores num cenário de profunda incerteza. Habituados a conviver com cheias, os produtores dizem não estar preparados para episódios como os que se verificaram a partir de 11 de fevereiro deste ano, com o rebentamento do dique nos Casais.
Ao longo das últimas décadas, o sistema hidroagrícola do Mondego foi concebido para lidar com cheias sazonais. Nas tempestades recentes, a gestão da barragem da Aguieira permitiu, até determinado momento, manter o controlo dos caudais. Contudo, o rebentamento de um dique na margem direita, junto à autoestrada, alterou o cenário.
A massa de água que escapou percorreu campos agrícolas, destruiu canais de rega, abriu crateras nos terrenos, arrastou árvores, lixo e sedimentos, danificou estufas e comprometeu caminhos rurais. Em alguns pontos, a água voltou a entrar no leito principal do rio, agravando os estragos a jusante.
O resultado é descrito por Pedro Pimenta, presidente da Cooperativa Agrícola de Coimbra (CAC), como “um grau de destruição brutal”.
O coração agrícola da Região Centro
O Baixo Mondego não é apenas uma zona agrícola — é, nas palavras do presidente da Cooperativa Agrícola de Coimbra, “o coração agrícola da Região Centro”. São cerca de 12 mil hectares de terrenos de aluvião altamente férteis, divididos entre aproximadamente 6 mil hectares de arroz e 6 mil hectares de milho.
Existem cerca de duas mil famílias de agricultores na região do baixo Mondego. De acordo com Pedro Pimenta, a exploração média ronda os seis hectares, o que evidencia uma estrutura predominantemente familiar. Longe da ideia de grandes latifundiários, trata-se de uma agricultura profissionalizada, tecnicamente avançada e altamente dependente do sistema de regadio.
O canal de rega que parte do açude de Coimbra e percorre o dique direito até à Figueira da Foz é peça-chave de todo o sistema. É esse canal que garante água no verão, permitindo regas por gravidade, eficientes e de baixo custo. O problema é que esse mesmo dique onde o canal está implantado foi severamente afetado, lembra o responsável da CAC.
Investir sem saber se haverá água
Estamos à porta da campanha primavera-verão. Em abril e maio inicia-se a instalação das culturas de milho e arroz. Um investimento inicial na ordem dos dois mil euros — sementes, fertilização, proteção fitossanitária e preparação do solo. O dilema está em investir agora sem garantia de que o canal de rega estará operacional no verão é, para os agricultores, um risco elevado demais.
Até ao momento, segundo Pedro Pimenta, não existe uma garantia política firme de que o canal estará plenamente funcional a tempo da campanha.
Estão em causa cerca de duas mil famílias diretamente dependentes do Mondego, além de toda a economia envolvente: cooperativas, oficinas, fornecedores de equipamentos, empresas de fatores de produção e serviços técnicos.
Estragos estruturais e ambientais
Embora muitos agricultores tenham conseguido proteger máquinas e animais, fruto da experiência acumulada e da profissionalização do setor, os danos mais graves são estruturais. Assoreamento dos terrenos, deposição de pedras, troncos e resíduos urbanos, danos no sistema de rega, destruição de caminhos rurais, prejuízos em estufas e armazéns, são alguns dos danos apontados pelo convidado da RUC.
O trabalho de recuperação exigirá tempo, mão de obra e recursos financeiros significativos. “Lamber as feridas” é a expressão usada por quem sabe que terá de recomeçar praticamente do zero em algumas parcelas.
Apoios insuficientes?
As medidas de apoio anunciadas são vistas por Pedro Pimenta como manifestamente insuficientes face à dimensão dos prejuízos. O orçamento disponível para restabelecimento do potencial produtivo é limitado, com tetos máximos que poderão não cobrir casos de maior dimensão, alerta.
Os seguros agrícolas também não oferecem resposta total. No momento da catástrofe não existiam culturas instaladas em muitos campos, o que limita a cobertura. Estruturas como estufas poderão estar protegidas apenas se houver apólices adequadas.
Há casos particularmente sensíveis, como jovens agricultores dedicados à produção de plantas ornamentais e flores para exportação. Para estes, está em causa não apenas uma campanha agrícola, mas um projeto de vida e uma contribuição relevante para a balança comercial nacional.
Alterações climáticas e adaptação institucional
Os agricultores reconhecem que os fenómenos extremos estão a tornar-se mais frequentes. E sublinham que o setor agrícola tem sabido adaptar-se: escolha de variedades mais resilientes, ajustamento de calendários de sementeira, investimento em tecnologia.
O que exigem é que as instituições façam o mesmo.
Repensar a obra hidroagrícola do Mondego, reforçar estruturas, melhorar manutenção e antecipar cenários climáticos mais severos são, como defendem, imperativos inadiáveis.
Pequenos, médios… todos vulneráveis
No Mondego, a distinção entre grandes e pequenos agricultores dilui-se. A média de seis hectares por exploração revela um tecido essencialmente familiar. Mesmo os produtores com 50 ou 60 hectares continuam a ser empresas familiares.
O setor enfrenta ainda outro desafio estrutural: envelhecimento acentuado e fraca renovação geracional. Agricultores com menos de 40 anos representam apenas uma pequena fração do total. A instabilidade e a imprevisibilidade apenas agravam a dificuldade de atrair jovens.
Um apelo à firmeza política
Existe, segundo os produtores, sensibilidade política. O que falta é firmeza nas respostas e prazos concretos.
A garantia de que o canal de rega estará operacional até maio é vista como a linha que separa um ano agrícola difícil de um ano perdido. Mais do que subsídios pontuais, o setor pede condições para trabalhar.
O Baixo Mondego sempre foi resiliente. Mas a resiliência tem limites quando a incerteza se instala. Se este território é, de facto, um dos principais polos de produção alimentar do país, então a resposta institucional terá de estar à altura da sua importância estratégica.
Em jogo não está apenas uma campanha agrícola — está a segurança alimentar regional, a vitalidade económica rural e o futuro de duas mil famílias que dependem da terra e da água do Mondego para viver.
Fotografias: Délio Nunes
Nota: artigo construído a partir da transcrição da entrevista usando ferramentas de IA com edição e revisão pela editora
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