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OE 2026 deixa deficiência intelectual no fim da fila dos apoios

Orçamento do Estado para 2026, tal como foi apresentado pelo Governo, representa um sério retrocesso nas políticas de apoio às pessoas com deficiência intelectual. Esta é a leitura crítica de Helena Albuquerque, presidente da APPACDM de Coimbra e da Federação Humanitas, que denuncia um conjunto de medidas que revelam desconhecimento do terreno e colocam em risco tanto a autonomia das pessoas com deficiência como a sobrevivência das instituições.

Uma das críticas mais duras incide sobre a área da vida independente, um dos pilares das políticas de inclusão modernas. Embora o Orçamento do Estado para 2026 (OE 2026) mantenha formalmente os Centros de Apoio à Vida Independente (CAVI), aos microfones da RUC, Helena Albuquerque alerta para duas alterações graves.

Em primeiro lugar, uma orientação estatal que recomenda que a assistência pessoal privilegie pessoas que estudam ou trabalham. Esta lógica exclui muitas pessoas com deficiência intelectual, para quem a autonomia não se mede pela integração no mercado de trabalho, mas pela capacidade de gerir a sua vida quotidiana. Ir a serviços públicos, participar em atividades culturais ou simplesmente conviver com amigos faz parte dessa autonomia.

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Em segundo lugar, o orçamento introduz o pagamento da assistência pessoal, até agora gratuita. A medida é considerada profundamente penalizadora, uma vez que a maioria das pessoas com deficiência intelectual vive de pensões muito baixas. O resultado previsível é simples, menos acesso à assistência pessoal e, consequentemente, menos autonomia e mais exclusão.

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Discriminação entre famílias vulneráveis

Outra fragilidade estrutural do OE 2026 está na forma como trata o subsídio parental para filhos com deficiência, doença crónica ou cancro. O aumento aprovado estabelece 100% do rendimento para filhos com cancro, mas apenas 80% para filhos com deficiência ou doença crónica.

Helena Albuquerque considera esta diferenciação incompreensível e injusta. Reconhecendo a legitimidade do reforço para situações de cancro, questiona por que razão as famílias com filhos com multi-deficiência, frequentemente confrontadas com cuidados permanentes, múltiplas terapias e abandono forçado do emprego, sobretudo por parte das mães, recebem um apoio inferior. O orçamento, afirma, institucionaliza uma discriminação entre sofrimentos que não são comparáveis nem hierarquizáveis.

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Prestação Social para a Inclusão: aumento insuficiente

O OE 2026 prevê um aumento de 105 euros na Prestação Social para a Inclusão (PSI). Embora Helena Albuquerque reconheça a medida como positiva, sublinha que é manifestamente insuficiente. Um aumento marginal não altera essa realidade, funcionando mais como um sinal político do que como uma resposta eficaz às necessidades reais.

Instituições sociais subfinanciadas e em risco

O orçamento falha também no apoio às instituições que trabalham no terreno. Segundo Helena Albuquerque, o setor social continua de forma habitual subfinanciado. Os acordos com o Estado não cobrem os custos reais de um atendimento de qualidade, obrigando as instituições a recorrer a projetos, concursos e atividades empresariais para sobreviver.

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As consequências já são previsíveis. Instituições pequenas podem vir a encerrar. Apenas as grandes resistem, graças à economia de escala. O OE 2026, ao não reforçar seriamente o financiamento da Segurança Social para este setor, contribui para o enfraquecimento da rede de apoio às pessoas com deficiência intelectual.

Políticas desenhadas longe do terreno

No fundo, Helena Albuquerque identifica um problema transversal –  o desfasamento entre as políticas públicas e a realidade concreta da deficiência intelectual. O OE 2026 é visto como o reflexo de decisões tomadas sem conhecimento direto do terreno, sem escuta efetiva das instituições e sem sensibilidade para uma área que continua invisível no debate político.

A deficiência intelectual, afirma, permanece “no fim da fila”, menos compreendida, menos mediática e menos prioritária. O orçamento não só falha em corrigir esta desigualdade histórica, como a aprofunda, colocando em causa direitos fundamentais, autonomia pessoal e a própria sustentabilidade do setor social.

Pode ouvir a entrevista na íntegra realizada no programa Mata-Bixo no início do artigo.

Nota: O artigo foi escrito com recurso a ferramentas de transcrição e de IA com posterior edição e correção pela editora que realizou a entrevista.

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