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02.12.2025POR Tomás Cunha

Porque sou da Académica? A culpa é do senhor Costa

Numa altura em que Cotrim Figueiredo escreveu Porque sou Liberal? e Pedro Tadeu publicou Porque sou Comunista?, Tomás Cunha explica porque é da Académica (texto que talvez devesse enviar para a Zigurate, para publicação).

Como academista a viver há já alguns anos em Lisboa, ouço muitas vezes a mesma pergunta: “Como é que aguentas ver a Liga 3?”. Costumo responder que o futebol praticado na Liga 3 não é tão mau como as pessoas imaginam, que os jogadores, embora desconhecidos, são talentosos e que a competição, apesar de não ter o carimbo de Liga Profissional, consegue em muitos aspetos estar ao nível da sua irmã mais velha, a velhinha II Liga.

Tudo isto é verdade (ainda que a Liga 3 esteja a ser lentamente abandonada pela Federação, como se percebe pelo menor número de jogos transmitidos em direto esta época). Mas a verdade verdadeira é outra: eu gosto de ver a Liga 3 porque é lá que está a Académica. O resto não me interessa.

Perante esta resposta, surge inevitavelmente uma segunda pergunta: então porque raio continuo a ver e a acompanhar a Académica? A resposta é simples e, admito, totalmente circular: porque sou da Académica. E é precisamente esta resposta, que não explica nada e explica tudo, que obriga a uma terceira (e derradeira) pergunta, que nos devolve ao ponto de partida: afinal, porque sou da Académica?

A resposta está longe de ser linear.

A minha mãe é sportinguista (embora, por dever afetivo, acabe por torcer pela Briosa) e o meu pai nunca nutriu grande paixão pelo futebol. Os meus irmãos são benfiquistas, ainda que durante anos tenham subido as bancadas do Calhabé para ver a Académica.

Também não é apenas uma questão de geografia. Ser de um lugar ajuda a criar simpatia pelo clube da “terra”, mas, como bem sabemos, não é condição necessária para se ser da Académica. Basta recordar que Mário Wilson, uma das maiores lendas desta casa, nasceu em Maputo, ou pensar nos irmãos Campos, naturais de Torres Vedras.

Arrisco-me a dizer que sou da Académica por causa das suas gentes: pelos amigos que, na adolescência, me convenceram a subir para os autocarros da Mancha e a atravessar o país; pelos amigos que fui encontrando nessas viagens e nas bancadas do Estádio Cidade de Coimbra; e, claro, pelos relatos da RUC. Desde miúdo que me habituei a ouvi-los, até ao dia em que passei eu próprio a dar-lhes voz (e já lá vão sete longos anos a gritar golos da Briosa em 107.9 FM e em www.ruc.pt!)

No sábado, na deslocação a Santarém, percebi mais do que nunca porque gosto tanto de ser da Académica. Eu e um grupo de amigos juntámos 10 pessoas para ir ver o jogo frente ao União de Santarém. Neste grupo, as idades variavam entre 1993 e 2007, e eu conhecia-os precisamente desses mundos acima: da escola, da Mancha, das bancadas e da RUC. Umas vieram de Coimbra, outras de Lisboa e houve ainda um herói solitário que veio de terras algarvias, tudo para ver a Académica.

O jogo acabou 1-1. Pouco futebol (o habitual), poucos golos e uma chuvada para todos (exceto para mim e para o Bernardo, o jovem de 2007, que estávamos a salvo na bancada de imprensa).

No final de contas, apesar do resultado, saímos vencedores. Viemos juntos e almoçámos na Taberna do Quinzena, um local sagrado da gastronomia ribatejana, onde bebemos, petiscámos, comemos e voltámos a beber. À mesa discutiu-se António Barbosa, a formação, o futebol feminino e as opções para o ataque com a intensidade e a seriedade de um debate presidencial.

Pode ser uma imagem de cerveja e a texto

A Taberna do Quinzena tinha casa cheia e muitos academistas. O mítico “vinho da pipa” não defraudou as expectativas.

Mais tarde, já na antecâmara do jogo, conhecemos o senhor Costa que, ao reparar nos cachecóis da Académica, rapidamente nos abraçou, revelando, cheio de orgulho, que tinha estudado Economia (e sobrevivido à praxe de Coimbra, questão que fez logo questão de sublinhar). Depois de meia hora de conversa, alguém perguntou:

“Senhor Costa, a Faculdade de Economia já era na Dias da Silva?”

“Dias da Silva? Não estou a perceber”, responde o senhor Costa, com ar sincero de quem nunca ouviu tal nome.

“A Faculdade era onde? Na Cabra?”

“Na Cabra?”, devolve. “A Torre da Universidade… no Pólo I”, esclarecemos.

“Pólo I?”, estranha o senhor Costa.

Faz-se silêncio por breves instantes. Ninguém estava a perceber aquele pingue-pongue de perguntas e respostas… até que, de repente, se faz luz. O senhor Costa pára e diz, em voz alta e clara:

“Eu estudei na Faculdade de Economia… (pausa)… do Porto.”

Caímos os 10 para o chão a chorar a rir. Uma finta digna de Garrincha, com um toque de humor à Cândido Costa (a fazer lembrar a história do cortador da relva do grande Belenenses).

O leitor pode perguntar-se qual é o propósito de contar esta história. É simples: daqui a 10 anos dificilmente me lembrarei de Idrissa Nanco, autor do primeiro golo da tarde-noite no Campo da Chã das Padeiras, ou do penálti marcado pelo nosso carequinha Leandro Silva. Mas lembrar-me-ei, certamente, do senhor Costa e das gargalhadas dos meus amigos vestidos de preto e branco.

E uma coisa garanto, caro leitor: é pelos senhores Costa desta vida que eu sou da Académica, e isso, acredite, engradece-me.

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