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08.09.2026POR Laura Rosário

Inferno das Febras 2026 – Potencial e excelência

  A Rádio Universidade de Coimbra voltou a marcar presença no Inferno das Febras, nos dias 28 e 29 do passado mês de agosto. O festival consolida-se como uma peça basilar na descentralização cultural na zona norte, tendo vindo a verificar um crescimento exponencial e algo enternecedor ao longo dos últimos anos. Com uma curadoria […]

 

A Rádio Universidade de Coimbra voltou a marcar presença no Inferno das Febras, nos dias 28 e 29 do passado mês de agosto. O festival consolida-se como uma peça basilar na descentralização cultural na zona norte, tendo vindo a verificar um crescimento exponencial e algo enternecedor ao longo dos últimos anos. Com uma curadoria muito consistente em ambos os panoramas nacionais e internacionais, a edição deste ano do Inferno demonstrou o comprometimento da organização para com um excelente epílogo do verão. 

 

Regressar ao Parque de Lazer de Casais pode ser agridoce para alguns festivaleiros–o cenário místico conserva os seus traços, mas a intempérie teimosa torna-se um sinal indissociável do fim do verão. Um ano depois do salto para a bilhética paga, um marco de consagração, esta edição serviu para assentar arraiais com outra solidez. Não deixa de ser interessante observar o crescimento de um festival destes: o contraste entre o conservar da sensação de convívio entre amigos e um palco que recebe bandas demolidoras do circuito alternativo é quase sagrado. O ambiente deixa-nos saudosos de um tempo que estamos a viver porque existe a consciência coletiva de que este momento anual de comunhão é demasiado agradável para não apelar a um público que ultrapassa os presentes, consequentemente colocando em causa a continuidade do festival no mesmo formato.

 

Independentemente, o festival continua a ser ideal de muitas formas: circulação desafogada, uma digna pausa para jantar e um espaço, no mínimo, invejável. Uma prova de que o crescimento é possível e bem-vindo. O cartaz deste ano voltou a provar que a curadoria tem pontaria cirúrgica. Existe um cuidado com a narrativa sónica construída ao longo do dia e a preocupação com a proporção do cartaz nacional e internacional é de aplaudir, irrepreensível. O público mostrou-se à altura num meio sem vedetismos–músicos e festivaleiros cruzam-se nos mesmos caminhos e partilham as mesas do parque de merendas com a mais desarmante naturalidade.

 

dia 1

 

O primeiro espaço do alinhamento coube à banda portuense Cat Soup, um quinteto de rock instrumental. Poderá parecer uma escolha desenquadrada no contexto de um festival de música predominantemente pesada, mesmo com a noção de escalada de energia presente. O som de Cat Soup dispensa o amparo narrativo de um vocalista e deixa brilhar a eloquência dos próprios instrumentos, com uma arquitetura composicional robusta e visceral, assumidamente ruidosa, mas acalentada por uma ambiance sonora hipnótica e sonhadora por vezes. Esta malha sonora é mais que suficiente para cobrir o espaço de forma confortável, algo evidente no público. Apresentaram temas do novo álbum, com data de lançamento marcada para dia 9 de outubro. A RUC teve oportunidade de aprofundar este tema com o quinteto durante o festival.

 

https://www.ruc.pt/podcast/coberturas-ruc/entrevista-com-cat-soup-inferno-das-febras

 

Seguiu-se o concerto dos NoPath. Os lisboetas, praticantes de um hardcore mais moderno e corrosivo, entregaram uma performance muito expectável no Inferno, que reserva sempre parte do alinhamento para este género de peso. Foi um concerto coeso, aperitivo para os adeptos dos rodeios à frente do palco.

Divergindo para outra modalidade, surgem os Lord of Confusion, banda de Leiria com uma sonoridade assente num doom clássico e adornado por um trabalho de teclas dramático, a par do que é um concerto da banda. Muito ritualístico, um lado mais contemplativo e cerimonial do peso. Em destaque, esteve o segundo longa-duração da banda, lançado este ano–o álbum “Weight of Life”. Notável contraposição com o concerto anterior, prova de que o cativar do público do Inferno não depende da velocidade. Após o concerto, os Lord of Confusion cederam um pouco do seu tempo à antena da Rádio Universidade de Coimbra.

 

https://www.ruc.pt/podcast/coberturas-ruc/entrevista-com-lord-of-confusion-inferno-das-febras

 

Antes da Pausa P’a Febra, subiram ao palco os Vaneno. Vindos da capital, montaram um satisfatório cenário com a cadência penosa típica do sludge e vocais cáusticos e mordazes, alicerçados num instrumental expectavelmente lamacento. O público mostrou-se fã, ávido para o que aí vinha. 

 

Após o jantar, inaugurando o segundo quarto do festival e a primeira leva de artistas internacionais, chega-nos Five The Hierophant, numa nota semelhante a Cat Soup–não só porque partilham a presença do saxofone, mas também porque ambas as bandas evidenciam as diferentes formas de ocupar o espaço sónico do Inferno. Os britânicos mergulham-nos num espaço meditativo com recurso a uma fusão moderada de jazz com algum grau de psicadelismo, envolto nas paletes sónicas mais pesadas e entregando um som geralmente melancólico e monolítico. Voltamos a aperceber-nos de uma componente ritualística em palco devido aos mantos com capuz que os membros da banda envergavam. Caso para dizer que houve coerência estética e sonora.

 

Os polacos Belzebong tomaram proveito da inclinação psicadélica do público. Outro ato que dispensa o aparato vocal–uma autêntica missa de stoner, debitada a um ritmo por vezes previsível, por vezes não. Grooves colossais, mas alguma inconsistência na própria textura do som. Antítese das dinâmicas composicionais em destaque no primeiro dia do festival, no entanto, poderá deixar a desejar quem esperou algo mais no âmbito do doom. Não obstante, um concerto muito aceitável.

 

Logo após esta investida, o Inferno ficou entregue à debatível melhor atuação desta edição: chegam-nos dos Estados Unidos os Whores–uma banda que recebeu há mais de uma década a atenção da crítica de forma inesperada e que se prova continuamente merecedora dela. A primeira impressão deixa claro que Whores se distingue dos típicos grupos inspirados em Crowbar e Melvins, ao instrumentalizar uma explosiva junção de noise rock (uma sonoridade que conquistou novamente nos últimos anos um lugar no pódio das sonoridades alternativas da moda) e um sludge com doses generosas de feedback dilacerante, evocando uma fúria e uma distorção raramente vistas na maioria das restantes bandas de metal. Absoluto lamaçal. Ver este som concretizado na voz e presença exuberante de Christian Lembach, Donnie Adkinson a castigar a bateria como um pugilista e o baixista igualmente carismático e prodigioso Douglas Jennings Barrett é, francamente, espetacular. O trio aceitou dar uma entrevista, cujos excertos transcritos e traduzidos estarão disponíveis em breve.

 

O penúltimo concerto da noite ficou a cargo de Arkangel, banda cujo som se encaixa numa velha-guarda do metalcore no seu sentido mais puro–uma banda de hardcore com riffs de metal. Os belgas produziram um som maléfico, sem muitos floreados e algo militar, muito pouco polido num bom sentido. O movimento junto à barreira, ainda quente do concerto de Whores, adensou-se, claro. Estimulante, porém cansativo, em determinados momentos. Muito boa recepção dos festivaleiros, de qualquer modo. 

 

Os Equaleft remataram a primeira noite de concertos em Casais. Banda nacional, vinda de Vila Nova de Gaia, o som assenta numa secção rítmica sólida e em riffs mecânicos, elásticos e sincopados. Foi uma atuação com fôlego de veterano e garra de principiante, com uma presença em palco à altura. Receita infalível do groove.

 

A noite terminou com o ato do DJ Edwise no palco Mesio. A linguagem do DJ passa pelo soul, funk, dub e jungle, apresentando-se num ponto de encontro singular entre os apreciadores da música pesada e da música mais orgânica e dita “de raiz”.

 

dia 2

 

No segundo dia do festival, as portas abriram mais cedo, convidando os festivaleiros para se juntarem à associação Verde, que oferece uma sessão de esclarecimento em controlo de espécies invasoras e gestão de habitats. Reiterando: “aprender para proteger o febraíso”. 

 

O convite é ainda endereçado pelos bracarenses Navegantes da Rua, que sobem . A abrir mais uma vez espaço para outras linguagens do underground, a passagem da banda pelo festival foi um lembrete contundente de que, mais uma vez, não só de guitarradas se fazem festivais. O saxofone volta a roubar as atenções, desta vez com dois saxofonistas em palco. Imprevisível e sem amarras, uma fusão viciante de rock, jazz e música de dança, evidente no estado de espírito do público. Um acolhimento muito agradável.

 

De volta ao palco principal do Inferno, seguimos com o alinhamento nacional–desta vez com os Summer of Hate. Banda radicada no norte e nome recorrente nos cartazes nacionais ao longo do último ano, exploram as interseções entre o pop e o shoegaze, com melodias vagamente reminiscentes de um sonho psicadélico. O que mais sobressai é o revivalismo da década do 80, talvez por vir embrulhado numa atuação visualmente teatral. O público pareceu algo inquieto.

 

Como que para avisar que ainda estamos no Inferno, chegam-nos os 98 Axe, banda radicada entre o Porto e São Paulo, trazendo consigo o hardcore mais tradicionalmente punk do ponto de vista dos cânones composicionais (se é que isto é um conceito aplicável ao punk) que ouvimos até agora no festival. A tendência para esta família musical por parte da curadoria é óbvia, contudo resulta porque procura trazer um pouco do leque inteiro.

 

Num concerto de um som talvez não tão tradicionalmente punk, mas de atitude impiedosamente punk, apresentam-se, vindos de Lisboa, os OkA. Mais uma banda presente nas salas um pouco por todo o país, oferecem uma performance intensa e, num momento final, politicamente carregada. Sinceros, barulhentos, criam uma massa sonora muito explosiva e simultaneamente melódica–um equilíbrio aparentemente muito caótico. A RUC falou com os OkA, numa entrevista que também estará brevemente disponível.

 

No último espaço da primeira metade do cartaz para este segundo dia, sobem ao palco os algarvios Prayers of Sanity. Trouxeram com eles um thrash metal muito direto, mas não é que alguma vez tenham prometido variedade. A maior parte de nós contenta-se com isto. Alguns momentos de guitarra divertidos, trabalho de bateria muito consistente–essencial no género–e rugidos potentes.

 

Depois de uma ou outra febra, o público reúne-se novamente para Rotor. Rock progressivo, sem nenhuma característica que se destaque, além de alguns innuendos de stoner. Isto não invalida reconhecer a mestria da banda alemã, que já pisa palcos há quase 30 anos. Há que, ainda assim, se encaixaram no alinhamento na forma de um concerto sofrível e digno para voltar a tomar o ritmo. Um pouco antes do concerto de Rotor, a RUC sentou-se um pouco com Carlos Sousa, para a maior parte apenas Cafi, que nos falou um pouco em nome da organização do festival.

 

https://www.ruc.pt/podcast/coberturas-ruc/entrevista-com-cafi-inferno-das-febras

 

Voltando ao registo hardcore, seguiu-se o grupo dinamarquês EYES. Distinguem-se por uma mescla algo desafiadora do género anteriormente mencionado com algum noise rock–contrariando as recentes inclinações para tornar o som o mais límpido possível–e ritmos mais frequentemente ouvidos no metal do que em outros géneros. A performance propriamente dita foi muito dinâmica, com momentos de intermissão de algum humor e geralmente muito cativante.

 

O concerto subsequente foi o clímax da noite. Os pioneiros do death metal Master mostraram-se ainda relevantes. É incompreensível como não são colocados no mesmo patamar que todos os seus conterrâneos estadunidenses–arrisco dizer que se deve a alguns elementos de agressividade menos técnica. Essa mesma agressividade funciona muito bem num público como o do Inferno. Tendo sido o último álbum lançado em 2024, a setlist foi bastante inclusiva, tendo passado por todos os sucessos de uma carreira já longa e naturalmente com os seus altos e baixos. Genericamente, um concerto que agradou a todos e que, como noutros momentos ao longo do festival, evidenciou o know-how de quem já cá anda há muito tempo–nomeadamente o vocalista e baixista Paul Speckmann.

 

Para fechar o alinhamento internacional, uma banda drasticamente mais contemporânea, mas também vinda dos EUA–os Fugitive, do estado do Texas diretamente para Casais. É um projeto formado pelo guitarrista dos reconhecidos Power Trip, Blake Ibanez, sendo um som mais cru e uma extensão mais agressiva da fusão pré-estabelecida dos anteriores. É um som igualmente bem estabelecido ao vivo. Nas palavras do próprio Ibanez, “thrash n’ roll”. Do início ao fim, uma fricção quase asfixiante de tão magnética. Uma excelente escolha na curadoria este ano.

 

Por fim, concluindo a programação de bandas ao vivo, um nome familiar na cena portuguesa de grind–Grog. Os lisboetas, no ativo desde 1991, provaram-se muito hábeis no que toca a impedir a habitual monotonia que por vezes os apreciadores da música pesada criticam em géneros como o grind e o brutal death metal. O vocalista faz um uso muito interessante da voz, com um espectro vocal admirável. Do mesmo modo, nada a apontar nos restantes instrumentos. De muito nível. Até fez esquecer a chuva que teimava em persistir.

 

De volta ao palco Mesio, como no início deste segundo dia, o Inferno das Febras encerra-se sobre o DJ set de Gaiteiro. Mais uma vez, um ato virado para a música mais marcadamente folclórica, correndo um pouco por todo o mundo–desde cumbia até à música celta, com direito a acompanhamento instrumental em forma de gaita de foles. Foi um final de festival muito caloroso.

 

Fechar mais uma época festivaleira em Casais deixa a confirmação de que 2025 não foi um golpe de sorte. A edição de 2026 confirma o início de uma maturidade merecida. Um festival modelo–apenas nos resta preservá-lo e cuidá-lo. O tempo frio agora pode vir e fechar-nos nas salas de concertos de inverno. O Inferno das Febras cumpriu a sua missão de nos manter aquecidos até para o ano.

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