[object Object]
25.11.2025POR Maria Primitivo

Black Bass 2025 — Rock, suor e amizade no Alentejo

Depois do fim de semana em Odeceixe e Portalegre, a 10.ª edição do Black Bass regressa a Évora para mais uma dose de rock e camaradagem. Assim se comemoram os 11 anos da sua produtora, a Pointlist.

O dia está chuvoso e fresco e passeamos debaixo das arcadas. Ao chegar à Praça do Giraldo, as portas abertas na sacada sugerem que descobrimos o ponto de encontro da tarde: o Bota Rasa. A Associação Cultural e Recreativa acolhe as tatuadoras Cara Trancada e Cristina Viana. Junta-se o coletivo Mosca Estúdio, na serigrafia, encarregados também de estampar o merch do Black Bass. Os visitantes podem escolher o design e ver o processo de impressão acontecer. Assim, não há desperdício e ganha-se o ver fazer.

Pelas 18 horas, Hugo Geada apresenta o livro Fora de Horas, numa conversa com Pedro Feio, moderada por Afonso Mateus. Discutem-se as questões do costume: a precariedade do meio musical, a dificuldade em estabelecer preços justos, sindicalizar os músicos ou aceder a apoios e ainda os desafios impostos pelo género, raça ou orientação sexual.

À noite, o festival continua na SHE (Sociedade Harmonia Eborense), com concertos de Oka e do Colectivo Pointlist. Já passavam das 23 horas quando se ouve um som que lembra o sinal de aviso de que o espectáculo vai começar. Os Oka saltam para o palco e o som continua, o concerto já estava a acontecer. O baterista põe uma máscara com orelhas de coelho, o vocalista grita palavras em português que não se percebem, mas também não importa: fica a textura. De vez em quando, distingue-se um “PUXA!” e lá vai mais uma descarga de energia. Este que foi o segundo concerto da banda (depois de um primeiro no Barracuda, no Porto) deixa vontade de mais e a curiosidade de continuar a acompanhar o projecto.

O outro concerto da noite é pelo Colectivo Pointlist. Em 2019, a Pointist sugeriu a alguns membros da produtora uma residência artística em Évora, com apresentação no final. Na altura, resultou em mais meia dúzia de concertos pelo país. Conta também Vítor Silva, dos El Señor,  “a ideia é ir juntando diferentes músicos da Pointlist”, mas, este ano, depois de nova residência em Arouca, reuniu-se a mesma formação que conta com Carlos de Jesus (Sunflowers), Frederico Ferreira (Sunflowers e 800 Gondomar), Pedro Feio (Fugly) e Vítor Silva. Passando pelo Maus Hábitos, Casa do Capitão, Bar do Toy e Black Bass (claro) este coletivo já vai na segunda vaga de concertos e, quem sabe, ainda tem cartas para dar. Diverso, dançável e divertido, nem quando as luzes se desligaram parou o moche ou a música. 

No intervalo dos concertos, e noite adentro, as pessoas espalham-se pelo 1.º piso da Harmonia. Entre as várias salas e por entre sofás, mesas e  matraquilhos – e também no terraço para os fumadores sem medo da chuva e do frio – há um cantinho para todos. Mais ainda, para encontros e novas amizades. Depois dos concertos, o Dj set Pointlist anima a sala para os que querem bailar.

Sábado começa de forma mais ou menos similar: das 15 horas às 19 horas, há feira da tattoo e da serigrafia pela Bota Rasa e Dj set, a cargo de Lava Gull e Turbo Tudor. Curiosos folheiam as pastas de micas recheadas de desenhos para tatuar. Alguns bebem uma mini, dão uma olhadela aos prints, fumam à varanda.

Desta vez os concertos começam mais cedo, pelas 21 horas, na SOIR JAA (Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António de Aguiar). Numa maratona de rock, os Yung Xalana abrem as hostilidades, seguidos dos Offtides que aquecem a sala, ainda a meio gás. 

Por volta das 23 horas, as Lesma sobem a palco e os espectadores regressam do jantar, compondo o espaço. Com as suas letras divertidas e energia adolescente, sem medo ou vergonha, as Lesma conquistam corações e deixam melodias a ecoar noite fora pela boca do público. Desde “eu sou uma colher/ não tenho garfo”, “larga o telemóvel e fuma um cigarro” ou gritos “Oh maria” e “Eu sou do barreiro” (ou, o mais ousado, “Mafra é uma merda”) ficam cravados na memória.

Entre os concertos, desce-se ao pátio para fumar cigarros e refrescar. Entretanto, abre a discoteca ao lado da SOIR e cria-se uma nova mistura de pessoas, ao fundo das escadas de entrada. Fãs de funk brasileiro, estudantes trajados e o público do festival cruzam-se no Pátio do Salema. No andar do meio, antes de chegar ao piso dos concertos, há um bar com karaoke que também atrai alguns entusiastas.

Monch Monch continua a jornada. Como habitual, um bicho delirante toma o palco. Abrindo com Merda, toca guitarra com os dentes e, de braços abertos, deixa-se cair na plateia, que o carrega pela sala abobadada. Tão rapidamente se atira para o meio do público e começa um moche, como está de novo no palco a saltar. É assim, ágil e imprevisível, uma mordidela que deixa a marca dos dentes na pele. O concerto termina com Jeff Bezos paga um pão de queijo (que mais do que nome de música é um lema-grito) e muito suor.

Depois de mais uns dedos de conversa, uns cigarros, e alguns pingos de chuva, é a vez de bbb hairdryer. Como de costume, a banda toca de costas para o público, à exceção do baterista, que fica de frente ao centro, formando um círculo no palco. Em HATE, Elisa bate com a guitarra e o microfone na testa. Apesar de ser parte da performance regular, há uma tensão que se impõe: alguém à nossa frente magoa-se. Ainda de costas, repete: “esta violência não é gratuita, esta violência não é gratuita, esta violência não é gratuita”. Também recomenda: “Divirtam-se com cautela”, e depois mais um pedaço de noise e distorção.

Já depois das 2 horas da manhã, os Sunflowers ocupam o palco. E que bela maneira de fechar a noite. Com a já conhecida loucura tocada nas horas, dão uma última oportunidade de queimar a cerveja ou a sobremesa do jantar. Primeiro concerto de apresentação do último disco, You Have Fallen… Congratulations!, o universo de cowboys e espaço intersideral mantém-se. Também não falta a energia visceral dos corpos irrequietos e ávidos de soltura, sem medo de cair e esfolar o cotovelo. Despedindo-se com uma versão aparentemente infinita de Oscillations, sugam-nos para o seu universo antes de nos deixarem por nossa conta. Mas já não estamos sozinhos.

A noite ainda tinha planos para resistentes e inimigos do fim, um Dj set do Colectivo Pointlist, mas a polícia não deixou. Assim, o público foi dissipando, alguns apostaram na discoteca ao lado, outros aceitaram a cama. 

Ninguém escapou aos grossos pingos que caem dos beirais, toldos e guarda-sois, mas quem apareceu, encontrou uma combinação preciosa: camaradagem, música, dança, suor, copos. Foi bom. Para o ano há mais (esperamos), venham.

Fotografias: Gonçalo Nogueira

PARTILHAR: