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31.07.2025POR Pedro Nora

A palavra enquanto arma – Aja Monet @ Musicbox

No passado dia 16 de Julho, Portugal recebeu Aja Monet, uma das vozes mais sonantes do sub-género musical que mescla poesia com jazz. Foi o Musicbox que teve a honra de acolher a estreia da artista norte-americana, cuja prestação transformou o palcos lisboeta numa tertúlia que uniu dialética à pauta. Oriunda de Brooklyn, Aja Monet […]

No passado dia 16 de Julho, Portugal recebeu Aja Monet, uma das vozes mais sonantes do sub-género musical que mescla poesia com jazz. Foi o Musicbox que teve a honra de acolher a estreia da artista norte-americana, cuja prestação transformou o palcos lisboeta numa tertúlia que uniu dialética à pauta.

Oriunda de Brooklyn, Aja Monet Bacquie envereda o dom da palavra desde a infância, com uma urgência rebelde que se torna cada vez mais relevante com o passar das décadas, marcando passo com os tempos crescentemente conturbados. À destreza da sua escrita prendem-se a cordas vocais aquecidas ora pela brandura, ora pela mordacidade. Uma irreverência ternurenta que evidenciou de imediato, ao pedir desculpa ao público do Musicbox por não saber muitas expressões em português, pois já lhe bastava conhecer uma linguagem de colonização. Tal comentário pontuou o bom humor após “Why My Love?”, poema que intitula a sua tour atual, onde se inseriu esta sessão de poesia.

A interrogação tornou-se um elemento constante, com Monet a pôr em dúvida as controvérsias e conflitos actualmente imiscuídos enquanto erratas do contrato social actualmente em vigor. Colonialismo, racismo e fascismo foram abordados numa abordagem que não deixou ninguém indiferente. De linhagem afro-caribenha, Monet afirmou vir dos Estados Divididos da América, não se rendendo perante tabus impeditivos, de um espírito de coragem que igualmente demarcou os seus trabalhos editoriais, seja através de livros como “My Mother Was a Freedom Fighter” ou discos como “When the Poems Do What They Do”, o álbum que serviu de base para o espectáculo no Musicbox que, uns dias mais tarde, reverberou para o festival Mimo.

Deste longa-duração construiu-se um alinhamento mais íntimo, com a aura do local a servir de confessionário da artista com o público, com as estrofes encadeadas de “Unhurt” ou “The Devil You Know” a serem respetivamente consagradas a amizades longínquas e perigos presentes. Monet assumia assim o pódio com uma voz confiante e calmante, mesmo ao abordar temas incómodos do mundo de hoje. Cada frase figurava-se como declamação, mesmo quando demarcada por reticências, porventura transfiguradas em pontos exclamativos. Sinalização inusitada mas marcante, tal qual a emoção pura que reverberava pelas quatro paredes daquele espaço da capital portuguesa, fazendo sobressair o calor humano que se fazia sentir.

Nesse ambiente íntimo, o léxico de Monet manteve o público transfixado nas morais permeadas das suas coplas. Com uma magniloquência melódica ritmada pela sua batuta vocabular, fazia questão de classificar cada um dos temas enquanto poemas (ou cantos ao invés de canções), apesar da rima nunca ofuscar a emoção e empatia, à qual o público respondia com silêncios solenemente pautados por aplausos. Igualmente parte da equação era o panorama instrumental, a cargo das teclas de Javier Santiago, do contrabaixo de Ben Williams e da bateria de Justin Brown. De entre os cenógrafos musicais, este último sobressaía enquanto apoio fulcral, não só na cadência rítmica mas também no diálogo que perpassava entre palco e plateia.

Tendo já colaborado com nomes sonantes da indústria como Thundercat e Esperanza Spalding, Brown desenvolve a sua criatividade na parceria, dando seguimento à sua função na produção discográfica de Monet nos espetáculos ao vivo e vice-versa. Antevendo as estrofes iniciais de “Castaway”, vindouros trabalhos lírico-musicais da dupla foram anunciados ao de leve, pois enquanto houver páginas branqueadas pela injustiça social, Monet presta-se a preenchê-las catarticamente com palavras que tanto ardem quanto curam. Uma voz presente que visa não chorar pelo passado mas perdurar no futuro, onde esta sessão certamente figurará enquanto estreia auspiciosa da norte-americana em solo português.

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