AUTOR: Isabel Simões E Luís Pereira

DATA: 18.03.2026

DURAÇÃO: ...

A freguesia de Brasfemes, no concelho de Coimbra, destaca-se pelo forte espírito comunitário, dinamismo associativo e capacidade de resposta em situações de emergência. A realidade local esteve em destaque no programa Mata-Bixo da Rádio Universidade de Coimbra, no âmbito dos 40 anos da RUC. O programa reuniu representantes da autarquia, dos bombeiros e do movimento associativo.

Com cerca de dois mil habitantes e uma identidade marcadamente rural, mas próxima da cidade de Coimbra, Brasfemes afirma-se como um exemplo de coesão comunitária.

Espírito associativo como marca da freguesia

O presidente da Junta de Brasfemes, Paulo Roberto Santos, sublinha que o principal traço distintivo da freguesia é o envolvimento da população. “O que nos distingue é o espírito de comunidade e o associativismo. Temos várias associações muito dinâmicas, que mantêm a freguesia ativa”, afirmou.

Apesar da vitalidade associativa, a autarquia enfrenta limitações financeiras. O orçamento da Junta é inferior ao de algumas instituições locais, como os bombeiros ou o centro social.

Ainda assim, o autarca destaca o trabalho realizado ao longo dos anos com poucos recursos, incluindo iniciativas pioneiras como a gestão de faixas de combustível.

Bombeiros com intervenção local e nacional

Também em destaque esteve o trabalho da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Brasfemes, uma corporação com cerca de 75 elementos, entre profissionais e voluntários. O comandante, Horácio da Silva Ferreira, destacou o papel alargado dos bombeiros, que vai além do socorro. “Não atuamos só na emergência. Trabalhamos também na sensibilização, na formação e na promoção de uma cultura de segurança junto da população”, explicou.

A corporação tem atuação em várias frentes, desde incêndios rurais a tempestades e cheias, integrando o dispositivo nacional de proteção civil. No entanto, o responsável alertou para as dificuldades no recrutamento de voluntários.

“O voluntariado não está fácil. Há cada vez mais exigência e poucos incentivos, quer para os bombeiros, quer para as entidades patronais que os dispensam”, referiu.

Educação para a segurança começa nas crianças

Uma das apostas da corporação passa pela formação das camadas mais jovens, através de uma academia de bombeiros. O projeto envolve crianças e jovens entre os 6 e os 17 anos, promovendo competências como primeiros socorros, suporte básico de vida e utilização de extintores.

O objetivo é não só formar futuros bombeiros, mas também cidadãos mais preparados. “Mesmo que não sigam esta área, ficam com conhecimentos que podem salvar vidas”, destacou o comandante.

Freguesia exposta ao risco de incêndio

A localização e a envolvente florestal colocam Brasfemes entre as freguesias mais expostas ao risco de incêndio. Segundo o presidente da Junta, a prevenção passa por uma estreita colaboração com os bombeiros, nomeadamente na abertura e manutenção de acessos às zonas florestais.

O autarca alertou ainda para a degradação de caminhos causada por atividades florestais, que pode dificultar o combate a incêndios. “Investimos na abertura de caminhos e pouco tempo depois estão destruídos. Isso pode comprometer a resposta em caso de emergência”, afirmou.

Apesar disso, considera que a maioria da população cumpre as regras de limpeza de terrenos, ainda que persistam situações de risco junto a habitações.

Resposta às tempestades e cheias

A atuação dos bombeiros de Brasfemes foi particularmente relevante durante as recentes tempestades e cheias associadas ao Rio Mondego.

Segundo o comandante, a corporação esteve envolvida desde o primeiro momento, respondendo a centenas de ocorrências, sobretudo relacionadas com queda de árvores, postes e obstrução de vias. Durante o período mais crítico, chegaram a estar no terreno cerca de 30 operacionais em permanência.

A corporação teve também um papel direto na monitorização do rio, tendo assistido ao colapso de um dique na margem direita. Apesar da gravidade da situação, não houve vítimas, sendo a maioria das áreas afetadas terrenos agrícolas.

Movimento associativo também no desporto

O associativismo local estende-se também ao desporto, com destaque para o Real Clube de Brasfemes. O clube conta com cerca de 70 a 80 atletas, distribuídos por vários escalões, desde a formação até à equipa sénior, que compete nas provas distritais.

Segundo o dirigente Pedro Carvalho, o clube enfrenta desafios relacionados com a diminuição do número de jovens e a captação de atletas por clubes maiores. Ainda assim, defende que os clubes locais desempenham um papel essencial no desenvolvimento dos jovens.

“Nestas idades, o mais importante é aprender e divertir-se. Nem sempre ir para clubes maiores é a melhor opção”, afirmou.

Um clube com história e identidade

O nome Real Clube de Brasfemes não surgiu por acaso. Como explicou Pedro Carvalho, ligado à direção do clube, a designação tem raízes numa antiga identificação com o Real Madrid, que influenciou inclusive as cores da equipa. Antes disso, o clube passou por várias designações — desde Sporting Clube de Brasfemes a Recreativo — refletindo diferentes fases e sensibilidades locais, até chegar ao atual nome, mais consensual.

Hoje, o clube dedica-se exclusivamente ao futebol, com formação desde os 4 anos até à equipa sénior, que compete na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Coimbra. No total, reúne cerca de 70 a 80 atletas.

Formação: mais do que competir, formar pessoas

Num contexto em que muitos jovens são aliciados por clubes de maior dimensão, Pedro Carvalho alerta para os riscos de uma competitividade excessiva. Defende que, sobretudo nas idades mais jovens, o essencial é garantir que as crianças jogam, aprendem e se divertem.

A realidade, segundo o dirigente, nem sempre corresponde às expectativas: há casos em que atletas integram plantéis demasiado grandes, jogando pouco ou quase nada. Isso pode levar à frustração e até ao abandono da prática desportiva.

Outro desafio prende-se com o comportamento dos pais. A pressão para que os filhos tenham sucesso — muitas vezes comparando-os a figuras como Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi — contribui para um ambiente menos saudável no desporto juvenil, com episódios de conflito e falta de ‘fair play’.

No Real Clube de Brasfemes, a prioridade passa por incutir valores: saber ganhar, saber perder e, acima de tudo, desfrutar do jogo.

Sobreviver com poucos recursos

A sustentabilidade financeira continua a ser uma preocupação. O clube depende sobretudo das contribuições dos pais e de apoios locais, enfrentando dificuldades acrescidas em períodos de menor atividade, como aconteceu recentemente com o mau tempo.

Ainda assim, há uma aposta clara na qualidade da formação, nomeadamente na escolha de treinadores com preparação adequada — alguns com formação académica na área do desporto.

Mais do que resultados desportivos, o maior objetivo é simples: garantir que o clube continua a existir. Depois de já ter passado por um período de inatividade, a missão da direção é evitar que o futebol desapareça da freguesia.

Um pilar social para todas as idades

Paralelamente, o Centro de Bem-Estar Social de Brasfemes assume um papel central no apoio à população. Fundado em 1996, oferece atualmente serviços de centro de dia, apoio domiciliário e atividades para crianças em tempos livres.

Em expansão, a instituição está a finalizar a construção de uma creche e planeia também uma estrutura residencial para idosos com capacidade para 32 utentes.

O financiamento destes projetos resulta de candidaturas a programas públicos, como o PRR, complementadas com recurso à banca.

Combater a solidão e apoiar famílias

O apoio domiciliário, que abrange cerca de 30 utentes, inclui cuidados de higiene e alimentação, permitindo que muitos idosos permaneçam nas suas casas com dignidade. Já o centro de dia promove o convívio e a integração, combatendo o isolamento — um dos maiores desafios das populações envelhecidas.

Do lado das crianças, a futura creche surge como resposta a uma necessidade crescente, podendo mesmo contribuir para fixar novas famílias na freguesia.

Uma freguesia que se constrói em conjunto

Para o presidente da Junta de Freguesia, o trabalho das associações é essencial para garantir qualidade de vida à população. Com recursos limitados, a estratégia passa por apoiar estas estruturas e fomentar a colaboração entre elas.

Brasfemes destaca-se, assim, pelo seu espírito comunitário e pela capacidade de mobilização. Um exemplo disso é a feira gastronómica anual, que reúne associações e habitantes num esforço conjunto que espelha o dinamismo local.

Se há algo que une as diferentes entidades da freguesia é o equilíbrio entre ambição e realismo. Seja no desporto ou na área social, o foco está em fazer o melhor possível com os meios disponíveis, sem perder de vista aquilo que realmente importa: o bem-estar da comunidade.

Nota: texto escrito usando ferramenta de transcrição e de IA com posterior edição de editora