AUTOR: Isabel Simões

DATA: 18.07.2026

DURAÇÃO: ...

18O festival Dar a Ouvir volta a afirmar-se como um espaço de experimentação artística onde o som é ponto de partida para novas formas de pensar, sentir e interagir. A edição deste ano apresenta um programa que cruza videoarte, instalações interativas, performance e investigação científica, convidando o público a assumir um papel ativo na experiência.

Entre as propostas em destaque está “Até ao Fim do Mundo”, de Fernando Mota, uma criação que existe em diferentes formatos ao longo da programação. Para além do espetáculo homónimo, apresentado a 26 de julho, às 18h, no Grande Auditório, o artista apresenta também uma instalação de videoarte inspirada em Child of Tree (1975), de John Cage.

O acaso como matéria artística

Na obra de Fernando Mota, o acaso deixa de ser um acidente para se tornar um elemento criativo. Seguindo rigorosamente a partitura de John Cage, o artista interpreta materiais orgânicos sem ensaios nem edições, permitindo que sejam os próprios objetos a revelar as suas possibilidades sonoras.

A influência do I Ching, antigo oráculo chinês baseado na imprevisibilidade e na interpretação do acaso, atravessa igualmente o trabalho de Mota. O resultado é uma criação onde o artista se funde com os materiais da natureza, explorando sons inesperados e paisagens acústicas profundamente imersivas.

Essa relação entre natureza, som e espiritualidade prolonga-se no espetáculo “Até ao Fim do Mundo”, que utiliza elementos naturais como instrumentos cénicos e sonoros, construindo uma experiência simultaneamente visual e auditiva.

RHÎZA é uma instalação onde o público faz parte da obra

Outra das grandes novidades do festival é RHÎZA, uma instalação interativa criada pelo coletivo Unloop, dirigido artisticamente por Sara Montalvão e David Negrão. A obra convida os visitantes a tocar em cordas de sisal e numa estrutura em arame. Conforme o tempo, a intensidade e a forma como cada pessoa interage com estes elementos, diferentes combinações de luz e som são ativadas.

Não existe uma única forma de experienciar a instalação. Pode ser explorada individualmente, em grupo ou até por desconhecidos que se encontram no espaço e acabam por construir, em conjunto, uma composição sonora única. “A instalação é, acima de tudo, um jogo”, esumem os próprios criadores.

Entre fungos, cérebro e redes

RHÎZA nasceu de uma colaboração entre artistas e investigadoras da Universidade de Coimbra, envolvendo especialistas em neurociência, micologia, microscopia e estudos da empatia.

A inspiração surgiu das surpreendentes semelhanças entre o funcionamento das redes de fungos e das redes neuronais do cérebro humano.

Tal como o micélio estabelece ligações subterrâneas capazes de comunicar e partilhar recursos, também o cérebro constrói constantemente novas sinapses, reorganizando-se através da aprendizagem, da adaptação e da plasticidade neuronal.

Os artistas transformaram estes conceitos científicos numa experiência sensorial onde luz, som e movimento representam visualmente essas ligações invisíveis.

Mais do que ilustrar conceitos científicos, a instalação procura criar uma metáfora sobre a forma como todos os seres vivos constroem relações, cooperam e evoluem coletivamente.

A arte como espaço de encontro

Desde 2020, o coletivo Unloop desenvolve projetos que cruzam dança, artes visuais, programação criativa, performance e ciência. O percurso começou durante a pandemia com o projeto Loop Mental, evoluindo posteriormente para um trabalho cada vez mais centrado na interação, no jogo e na participação do público.

Para Sara Montalvão e David Negrão, brincar continua a ser um gesto essencial. As suas instalações procuram manter viva a curiosidade, estimular a descoberta e transformar o visitante num participante ativo da criação artística.

Ao longo dos últimos anos desenvolveram ainda projetos de investigação envolvendo biossensores, dispositivos performativos e sistemas interativos, sempre com o objetivo de aproximar arte, tecnologia e conhecimento científico.

Residências artísticas que transformam o festival

A programação deste ano distingue-se também pela presença prolongada do coletivo formado por Inês Tartaruga Água e Xavier Paes.

Ao contrário das edições anteriores, os artistas permanecem em residência durante várias semanas, criando instalações que vão sendo construídas perante o público.

Depois de uma performance inicial, seguem-se novas ativações, entre elas Puro Espírito, bem como uma criação inédita que será apresentada mais tarde durante o festival.

Esta residência inclui ainda oficinas abertas ao público, permitindo que os participantes contribuam diretamente para os materiais que integrarão as instalações finais.

Um diálogo permanente entre arte e ciência

Questionados sobre a colaboração com investigadores, os artistas do Unloop recusam a ideia de que arte e ciência pertençam a mundos separados.

Pelo contrário, defendem que ambos os campos começam exatamente da mesma forma: através de perguntas.

Se o método científico procura respostas sustentadas pela experimentação, a arte mantém muitas vezes essas perguntas em aberto, convidando o público a continuar a refletir.

Foi precisamente essa liberdade que permitiu transformar conceitos complexos da neurociência e da micologia numa experiência artística acessível, sensorial e profundamente participativa.

Escutar de outra forma

Quem percorre as instalações fala de verdadeiras viagens sonoras, capazes de revelar sons que normalmente passam despercebidos e de despertar uma escuta mais atenta, tanto do espaço como do próprio corpo.

Mais do que um conjunto de exposições, o Dar a Ouvir propõe uma nova forma de estar perante o som, menos contemplativa e mais participativa, menos centrada no objeto artístico e mais focada na experiência.

Num tempo em que a ciência e a arte são frequentemente apresentadas como disciplinas separadas, a programação demonstra precisamente o contrário: que ambas partem da curiosidade, da experimentação e do desejo de compreender o mundo, ainda que por caminhos diferentes.