AUTOR: Lexi Narovatkin

DATA: 29.09.2025

DURAÇÃO: ...

Num momento de antevisão da 21ª primeira edição do festival com raízes e local no Barreiro, Out.Fest, Rui Dâmaso, diretor do festival desde a sua conceção, falou à Rádio Universidade de Coimbra acerca de algumas linhas basilares desta edição, bem como da contínua trajetória que o evento tem percorrido e do trabalho que tem desenvolvido no concelho.

A entrevista segue transcrita, bem como disponível em formato áudio. A programação do Out.Fest 2025 pode ser encontrada aqui.


Em linha com o Rui Pedro Dâmaso, diretor do festival do Barreiro, Outfest. Obrigado, Rui, por aceitares o convite da RUC, uma vez mais, para um momento de antevisão [do Outfest].

Entusiasmado para esta edição?

Sim, claro, como sempre. A entusiasmo não tem faltado, ano após ano. Acho que este ano não é exceção também.

A premissa de um festival de músicas que não cabem em gavetas fixas de género mantém-se para este ano?

Sim, sim, sim. Do nosso ponto de vista, sim. Não sei qual é que será a perceção exterior, nunca sabemos.

Esse é sempre um dos fatores de entusiasmo também, ver o que é que o público pensa, reage, e o que é que tira das nossas propostas. Mas a proposta é sempre essa, é tentar cada vez mais englobar toda a música, toda a música que nós achamos que é interessante sobre diversos pontos de vista. Como qualquer pessoa, nós conseguimos ter, ou tentamos ter, vários pontos de vista, cada um de nós, não é? Dentro daquilo que é possível.

E manter-nos o mais abertos possível à música, seja ela qual for. Tendencialmente, no caso do Outfest, e também no nosso caso pessoal, acabamos sempre por gravitar para coisas que são de difícil categorização, daí a conversa das gavetas, algumas talvez mais fáceis de arrumar do que outras, como sempre. São 30 artistas, nem todos estão assim fora de caber eventualmente em alguma gaveta que possa existir, mas a intenção é sempre não programar um género, isto não é um festival de um estilo só, nem de dois estilos só, nem de três estilos só, e é um festival de preferência sem estilos mesmo. E acho que toda essa premissa se mantém inalterada.

No ano passado, referias em entrevista à RUC que uma certa falta de homogeneidade entre acts era um ponto quase fulcral no decorrer do festival. Apesar da diversidade de géneros musicais, como é que encontram um fio condutor deste alinhamento?

Nós debatemos muitas vezes a questão do fio condutor, ou é óbvio que há uma preocupação dentro dos agrupamentos que são feitos, por exemplo, à noite ou à tarde, ou numa mesma sala, que possa haver de alguma maneira uma narrativa, ou seja, que os diferentes artistas e que a sequência de concertos possa de alguma forma fazer sentido, mas o fazer sentido é completamente vago também. Mais uma vez, de acordo com o nosso ponto de vista, a nossa perspetiva, tentamos programar de maneira que, para nós, de alguma maneira, e nós debatemos isso também, possa fazer sentido que este concerto siga ao anterior, etc.

Mas também temos a plena noção, e isso é assumido, que às vezes vão haver momentos de quase quebra, de quebra de narrativa, ou de quebra de história, ou quebra de fio condutor. E isso não é um problema, isso também é assumido. Às vezes é importante assumir, que ainda por cima de um festival, que não é só de um estilo ou dois, que há um carácter fragmentar e fragmentado também de alguma maneira, às vezes na sequência das noites ou das tardes.

Não acho que isso seja um problema necessariamente. E também é aquilo que é a nossa narrativa, ou o sentido que nós achamos que tem, e pode ser depois interpretado de maneiras muito diferentes pelas diferentes pessoas. Há uma preocupação, mas também há uma preocupação em não nos preocuparmos demasiado com isso, de certa forma.

No ano passado, também em entrevista à RUC, falavas um bocado acerca do percurso da Out.Ra, enquanto um trabalho em que tu e o Vitório Lopes descobriram “o que estavam a fazer enquanto o faziam”, até ao ponto de encontrar uma identidade. Sentes que este momento contribui para a descrição do festival enquanto um evento efetivamente exploratório? Mais pela arte de o fazer do que propriamente pelo carácter experimental da música em si.

Eu acho que o carácter experimental da música está presente em muita da música que vem ao Out.fest sempre, de diferentes formas, mas acho que sim, acho que do ponto de vista organizativo, isso que eu disse, ou que nós dissemos, de “aprender fazendo”, no fundo, isso mantém-se também, porque nós também temos que responder àquilo que é a realidade à nossa volta, quer do ponto de vista político e sociopolítico, quer do ponto de vista urbano e da cidade em que estamos, que é uma cidade que também tem opções limitadas do ponto de vista das venues, do ponto de vista da localização em que elas estão e como é que elas podem relacionar umas com as outras, porque não é um festival que ocorre só num sítio, portanto tem que haver também um fio condutor geográfico, de alguma forma, entre as diferentes salas que usamos.

Os atores da cidade, as pessoas e entidades com as quais podemos ir fazendo parcerias e trabalhar em conjunto, também vão evoluindo, vão mudando, algumas desaparecem, outras aparecem, portanto, mesmo que nós quiséssemos ter um modelo muito fixo para trabalhar, o próprio princípio daquilo que é o Out.fest é a forma como ele se relaciona com a cidade, tem que estar sempre em mudança, porque a cidade está sempre em mudança também.

E é possível que haja venues, por exemplo, que já vão sendo um bocado familiares, mas isso também tem a ver com a natureza da cidade, não quer dizer que nós não tenhamos a visão, às vezes, de fazer as coisas de forma diferente, mas é sempre preciso que haja uma cidade aí para dar resposta também a esses desejos. E sim, mas é um processo de aprendizagem contínuo, mesmo que de fora às vezes pareça que há um modelo, ele está sempre a ser posto em causa por nós, de alguma forma. E às vezes há alterações mais subtis, outras mais visíveis, de ano para ano, mas é isso, é sempre a resposta também àquilo que nos rodeia a vários níveis.

Falavas também de uma necessidade enquanto programador de encontrar desafios quase como autopropostos. Para este ano, seguiram esse caminho? E se sim, de que forma?

Desse ponto de vista, nós este ano decidimos, ou necessitamos, por um lado, também por razões económicas, de reduzir um bocadinho o número de venues que o festival tem, nós chegámos a ter um absurdo. De 14 ou 15 salas diferentes numa só edição, o que é espetacular sob uma série de pontos de vista, mas também levanta grandes dificuldades sob uma série de outros pontos de vista.

Portanto, se calhar, houve aqui também um limite autoimposto, que é importante para tentar crescer e aprimorar e fazer as coisas de outra forma. O que não quer dizer que não haja espaços novos. Há aqui uma sala que vai aparecer pela primeira vez no Out.fest, porque também é nova necessidade, onde vamos ter o programa Talks este ano.

Esse programa também é o mais extenso que fizemos até hoje. Esse é um caminho que nós queremos trilhar cada vez mais, agora e no futuro, que é ter mais momentos de partilha, mais momentos também de interação direta entre artistas e público. Para além disso, temos também uma peça final no domingo, no dia 5, que é extremamente ambiciosa e que também coloca aqui uma nova perspetiva na forma de fazermos as coisas, no tipo de obras que podemos apresentar no festival. E ela se aprecia um grande desafio também. Também depende do bom tempo. Temos sido abençoados.

Na verdade, há sempre, por um lado, um movimento de nos facilitar a vida, mas dificultando sempre a nossa vida também. Nunca há uma sensação de conforto na construção de cada festival. Há sempre uma sensação de que há algo novo que está a ser construído, mesmo que seja em bases que já podiam existir, mas esse autoconfronto está sempre presente.

Como é que encontras um certo equilíbrio entre o experimental e o que possamos chamar de acessível, no sentido de continuar a trazer e a fixar público novo ao festival?

Quando às vezes se diz que é um festival sem cabeças de cartaz, é preciso perceber o que é também a realidade possível ou qual é o leque possível de cabeças de cartaz para um festival como o Out.fest. Eu acho que nós temos tido, sobretudo desde a pandemia, nós temos falado sobre isto em quase todas as antevisões, mas continua a ser notório.

Acho que nós continuamos a ter muito público novo no Out.fest. Novo no sentido de ser a primeira ou só a segunda vez que vêm, e também no sentido de ser uma faixa etária claramente mais jovem do que aquilo que estávamos habituados até à altura da pandemia…

Há sempre a tentação de ver este ou aquele nome que pode dizer mais alguma coisa às pessoas, mas eu acho que a melhor parte do nosso trabalho é que conseguimos afirmar este festival como um espaço em que as pessoas sabem que vêm ver um conjunto de propostas. Vêm ver uma e depois ficam para ver outra. Acho que toda a gente tem um bocado a noção daquilo a que vem, sabendo que não sabe muito bem aquilo a que vem, de certa forma. Parecem tudo contradições, mas eu acho que é um bocado isto também que tem sido o Out.fest, e que temos feito bem e que tem chegado às pessoas.

Dito isto, é evidente que dentro de um universo tão largado de música, mesmo aquela que se pode dizer que é experimental ou exploratória de alguma forma, vão sempre haver coisas que acabam por ter um raio de audiência maior ou um potencial de chegar a mais pessoas que não são assim tão hardcore de certo tipo de música, mais das franjas, e outras menos, pela própria natureza dessa música e pela natureza dos nossos hábitos de consumo cultural. É um bocadinho isto. Continua a ser um bocado também… Para nós [programadores], não nos fecharmos muito só num tipo de coisas e percebermos que a nossa atenção e o nosso gosto por descobrir música nova tem de continuar a estar aberto à música que venha de todos os sítios possíveis.

Pegando aqui pela parte do público jovem e recente do Out.fest, o que é que gostarias que uma pessoa, pela sua primeira vez no festival, levasse enquanto experiência?

Acho que é importante gostar dos concertos, obviamente que temos que sentir alguma coisa quando estamos a ver música ao vivo. Podemos senti-la de uma forma mais visceral, podemos senti-la de uma forma mais analítica também, mais cerebral, mas que se tenha a noção de que se veio ver concertos que se calhar não se poderia ver noutro sítio no país, ou noutro festival no país, que se calhar se ouviu música que não se sabia que era feita, ou que se sentiram coisas com música que não se tinham sentido ainda, e também de preferência que levem consigo o terem estado num festival e num espaço, não só físico, mas num espaço também emocional e social em que ainda se pode ter uma convivuição e uma relação sã entre pessoas e arte, entre pessoas e espaços e cidades.

Eu iria dizer que isto sejam oásis no meio de tanto caos, mas não que sejam oásis de uma exceção, mas que também possam ser de alguma maneira um modelo de convivência e de abertura que possamos transportar para outras coisas da vida, não só para o ato de ser espectadores de concertos, por exemplo.

Num ângulo mais institucional, a relação com o município continua a manter-se forte e positiva?

Sim, é positiva, tão positiva quanto é possível para um festival que nunca será de massas, pode não responder a certas ambições às vezes do município. Não estou a dizer que é o caso, estou a dizer do ponto de vista puramente académico, mas que acho que tem uma importância grande para o Barreiro no sentido de estar a fazer um festival destes há 20 anos numa cidade que, apesar de ter uma história muito específica e uma identidade particular, é na prática uma cidade satélite da capital, não é? E é vista e vivida assim por muita gente, quer de fora, quer de dentro. Acho que também mostrar que há aqui espaço para se pensar em coisas que não são fáceis, para se trabalhar algum cosmopolitismo fora do contexto de uma capital e naquilo que é um contexto a vários níveis práticos, mais suburbano. Portanto, acho que sim, acho que é bastante positivo.

O festival vive o local onde nasceu há 21 anos também pela própria parte sonora do concelho através do arquivo Cidade de Som. Podes falar mais acerca de como é que este projeto surgiu e como é que vai integrar a parte programática desta edição?

Sim, a Cidade de Som é o nome do site onde nós temos o arquivo sonoro do Barreiro que é um trabalho que nós começámos em 2011 ou 2012, portanto já há mais de 10 anos que nós temos andado a construir esse arquivo sonoro, geralmente associado a outros projetos da Out.Ra e também continuadamente e esporadicamente vão-se fazendo gravações novas.

É um arquivo que já tem, mais uma vez, talvez quase 15 anos de história sonora do Barreiro. Tem para aí 200 e tal entradas, 200 e tal sons de várias realidades do concelho e esse é um trabalho que serve por si próprio, na nossa perspetiva. É um arquivo que já começa a ser histórico e continuará a ser alimentado.

Nós, ligados a esse trabalho fazemos todos os anos muitos workshops de gravação sonora de filmes de gravação aqui em Escolas da Cidade, já há alguns anos que fazemos isso. Mas uma ambição que tínhamos também é começar depois a trabalhar esse arquivo como material sonoro, como material artístico não só como material histórico e puramente arquivístico, mas como fonte para novos trabalhos musicais.

E este é o primeiro ano em que nós realmente decidimos encomendar uma peça a um artista com base no arquivo de sons do Barreiro que vai ser apresentada agora no festival. Neste caso, será a Matilde Meireles a primeira artista a responder este desafio e contamos fazer mais no futuro porque já é natural, nós já trazemos historicamente muitos artistas e parece que há cada vez mais artistas que incorporam gravações de som e field recordings nos seus trabalhos. Nós temos aqui, no fundo, uma base de dados de sons que podem ser usados e manipulados a belo prazer por quem quiser e achamos também que é uma inconveniência em nossa mostrar esse lado potencial artístico dos sons da cidade.

Por fim, desta edição, gostavas de destacar alguma secção de alinhamento tendo noção que é uma pergunta ingrata de fazer. [risos]

O festival está compacto este ano, está curto. Eu acho que mais do que estar a destacar os concertos, é evidente que há aqui obras que vão ser ouvidas pela primeira vez e colaborações que vão ser ouvidas pela primeira vez com o DJ Nigga Fox [com Wolf Eyes], por exemplo, esta peça da Matilde [Meirelles] com base no arquivo da Cidade de Som, a peça depois que vai fechar o festival que é talvez a maior… não é talvez, é a maior produção em que nós já nos envolvemos, é sim uma coisa meio louca mas que nos vai dar muito prazer e é uma peça também totalmente ligada à história do Barreiro, neste caso pelo prisma de um artista norueguês que esteve cá de visita há uns anos e se interessou e nos propôs a criar algo sobre essa história industrial do Barreiro, no coração da Antiga Zona Industrial do Barreiro, junto a um monumento que é meio desconhecido mas que é uma peça de arquitetura e de história muito forte, que é o Mausoléu de Alfredo Silva, que foi o industrial que fundou e geriu a indústria no Barreiro durante parte do século XX.

Acabei por falar em alguns concertos, mas acho que esta parte das talks, das conversas com artistas é algo que eu gostava de destacar, é mais uma vez um caminho que nós queremos começar a fazer cada vez mais e também o primeiro momento do dia 5, da tarde do dia 5 do domingo, que serão breves apresentações de vários artistas que estão em micro-residência no Barreiro, ao abrigo de um projeto europeu que nós temos esse caminho de trazer artistas muito jovens até cá à cidade e também fazê-los um bocadinho proporcionar uma imersão no nosso trabalho e no festival, e também recolher depois as impressões, os apontamentos artísticos que eles possam tirar ao longo desse tempo, é algo que provavelmente também vamos querer explorar no futuro portanto acho que esses blocos também que extravasam os concertos são algo que eu dou destaque a este ano porque foi importante para nós e foi uma coisa assumida que é um caminho que nós queremos trilhar cada vez mais também.

Tu aqui estás-te a referir à Shape Platform?

Não, ao tekhnē, o projeto tekhnē. Nós da Shape este ano temos só um concerto, que é o do funcionário que é o artista português que este ano integra a Shape, mas estou a falar do projeto tekhnē, essa micro-residência, mas também todas as talks são realizadas sobre a égide desse projeto, e todas as peças de domingo, estas novas peças também são realizadas ao abrigo desse projeto, que é no fundo sobre a tecnologia na música e sobre os diferentes entendimentos que pode haver de tecnologia na música e de que forma é que se podem subverter também as tecnologias pré-dadas, pré-feitas e usá-las de outra forma, que são no fundo matérias muito latas mas que permitem uma série de dimensões de abordagem a fazer música e este ano concentramos esse programa todo também de conversas um bocado à volta destes conceitos.