
Coberturas RUC
Todas as coberturas de festivais realizadas pelas equipas da RUC.
UM PROGRAMA DE:
Programação RUC
Uma entrevista conduzida por Lexi Narovatkin a Pedro Cosme, elemento da Casa das Artes Bissaya Barreto, em jeito de antevisão de mais uma edição do festival de música experimental Les Siestes, a ter lugar no Jardim da Sereia nos dias 29 e 30 de Agosto e um segmento em formato after no Teatrão.
L: Bom dia, Pedro, e obrigado por dares algum do teu tempo à antena da RUC, neste que é um momento de antevisão da edição 2025 do Les Siestes de Coimbra. Mais um ano, e pelo terceiro ano consecutivo, em Coimbra, temos uma mudança de local do evento, este ano no Jardim da Sereia. Como é que nós chegámos aqui?
P: Olá, obrigado também à RUC por nos acompanhar nesta aventura que é o Les Siestes de já há muitos anos. A mudança de local prende-se com a procura de um espaço que esteja cada vez mais próximo, e mais parecido com o festival em Toulouse, que se realiza num jardim lindíssimo no centro da cidade, com lagos, com vários espaços, e cá em Coimbra, um dos espaços que é muito parecido com esse é o Jardim da Sereia, mesmo no centro da cidade, e que é um espaço também lindíssimo e que permite às pessoas estarem relaxadas e confortáveis a ver os concertos.
L: Sentes, portanto, que o Jardim da Sereia é o mais apropriado até agora das edições que houveram em Coimbra?
P: Nada se compara ao Jardim da Casa das Artes, onde se realizaram as primeiras três edições, mas de facto o Jardim da Sereia tem um espaço central que permite às pessoas deslocarem-se a pé, transportes públicos, e sim, depois também tem toda a vertente do jardim, que é incomparável aos outros espaços onde estivemos agora.
L: Podes falar um bocadinho da programação por dia, do que têm planeado então para este ano?
P: Sim. O festival começa na sexta-feira, às 18 horas, com um DJ set de Son Objet, que é uma DJ do Porto que faz um trabalho de pesquisa muito intenso, de arquivo de psychedelia, spoken word, a sua técnica de DJing passa um pouco pelo sound collage. Depois seguimos com Vanessa Bedoret, que é uma artista com formação clássica em violino, mas que tem usado muito a experimentação eletrónica, e que lançou no ano passado um álbum chamado Eyes, cheio de melodias hipnóticas, field recordings, e uma lírica bastante íntima. Depois temos os Amuleto Apotropaico, que é um duo de Santa Maria da Feira, que explora o noise, lançaram este ano, há poucos meses, o seu álbum de estreia, homónimo, e que surgiu depois de quatro anos de concertos, fizeram uma amálgama dos concertos e lançaram um álbum muito, muito, muito bom.
Depois temos Takkak Takkak, que junta dois artistas, um artista japonês e um artista indonésio, e que se centra muito na polirritmia explosiva, uma espécie de hardcore, muito intenso, que penso que vai levantar toda a gente no Jardim da Sereia, e depois a fechar o festival, no Jardim da Sereia temos Beatrice M, selector que tem encabeçado o renascimento do dubstep, que tinha sido anteriormente quase dado como morto devido à emergência da comercialização do género, mas que agora surge com um novo ênfase, também focado muito entre o sound design e as raízes mais minimalistas também do Dubstep.
No sábado temos I’A’V, que é um novo projeto de Inês Malheiro, Arianna Casellas e Violeta Azevedo, um trio, foi um dos concertos preferidos que eu vi no ano passado, muito, muito bonitos, têm os trejeitos de Inês Malheiro completamente almofadados pelo violoncelo da Arianna e pela flauta da Violeta, é um concerto mesmo muito bom e imperdível.
Depois temos Harry Górski-Brown, que é um artista escocês que trabalha com música gaélica, transformando-a para um mundo novo. Rat Section, um duo que tem uma mitologia muito própria, que não se sabe se é verdade ou não, localizada nos anos 80, mas que na verdade parecem um pouco mais novos para terem estado ativos nessa altura, mas pronto, é todo um backstory muito interessante que aconselho a pesquisarem junto com o seu lançamento no ano passado um álbum pela Halcyon Veil, [Rat Section] aborda muito a performance com base no espaço onde estão a atuar, recentemente enfrentaram-se num concerto num ring de boxe, tiveram também uma performance numa piscina esvaziada em que a piscina estava a ser progressivamente enchida, pronto, não vamos desvendar o que é que vem aí para o Jardim da Sereia.
Ainda temos Loto Retina, vinda de França, com música muito veloz, meio hyperpopish, meio bassy, é um mundo muito próprio, cheio de samples, muito explosivo, seguido temos Zohar, que é uma DJ que também vai muito para o lado bassy, mas com uma escolha muito acutilante, que também de repente pode estar a passar punk no meio de DJ sets mais bassy, penso que é um final apoteótico para o festival no Jardim da Sereia.
L: A curadoria para a escolha dos artistas continua a ser feita em comunicação direta com a parte francesa, correto?
P: Sim, nós no início de cada ano reunimos em videochamada com a parte francesa do festival, em particular com a pessoa Marie Desseauves, que é quem programa agora o festival em França, e partilhamos artistas que lançaram álbuns no ano anterior que achamos muito relevantes, artistas que estão a fazer performances mais fora da caixa que ouvimos falar ou que nos recomendam, ou que vemos na internet, e trabalhos que temos vindo a acompanhar também que achamos interessantes e juntamos muitas hipóteses, vemos o que é que funciona no bolo geral e depois é montar o festival.
L: Parte dos nomes internacionais saem também através do catálogo da Shape+ Platform, ou seja, as recomendações do lado francês acabam por também vir daí, qual é que é a relação que existe entre as Siestes e a Shape?
P: A Shape é um projeto financiado pela União Europeia que se vai extinguir este ano e que pelo qual nós este ano nas Siestes portuguesas não tivemos nenhum artista apoiado pela Shape, mas do lado francês o festival que aconteceu em junho ainda teve. Basicamente nos outros anos tinham um catálogo de artistas que estavam a desenvolver o seu trabalho na União Europeia e que eram escolhidos pelo seu percurso e pelo seu trabalho e que depois eram apoiados em tour pela União Europeia e nos outros anos de facto tivemos artistas que se inseriam nesse projeto mas este ano, pelo menos nas [Siestes] portuguesas, lá está, já não teremos.
L: Este ano temos também uma particularidade diferente que é um segmento em formato after no Teatrão, já longe do Jardim da Sereia. Pedia-te então para que falasses também acerca do momento de bilheteira para a entrada neste sub-evento do evento principal, digamos desta forma, e também acerca do alinhamento que consta com três DJs portugueses.
P: Sim, o festival no Jardim da Sereia de entrada é gratuita e depois escolhemos organizar um evento a seguir ao festival no final dos concertos de sábado no Teatrão, que nos acolhe de braços abertos e a quem agradecemos muito nesta experiência um pouco diferente na cidade. E a parte do clubbing prende-se também com um pouco da sustentabilidade financeira do festival para apoiar o festival gratuito. Temos este evento que é pago, cada bilhete são seis euros e podem ser adquiridos na plataforma online Blue Ticket, vamos transformar o Teatrão num espaço de clubbing e vamos trazer David Rodrigues para abrir a noite, uma lenda local da Cosa Nostra com um percurso incomparável com qualquer um e que dá as cartas nas outras cidades e até mesmo lá fora. Depois temos Dawn Dani, uma artista emergente vinda de Braga que está cada vez mais a demonstrar um trabalho mais complexo e sedimentado na área das sonoridades mais quebradas e graves. E para fechar a noite temos XCI que explora a música mais visceral do punk, do electro, do industrial, não descurando também a música mais bassy.
L: Chegamos até ao fim, só uma última questão. Entusiasmado para esta edição? Tu e o resto da equipa da casa?
P: Sim, estamos muito entusiasmados. É um trabalho de muitos meses, estamos muito contentes com o cartaz, temos ouvido coisas muito boas sobre o cartaz, o que também nos deixa contentes e da parte dos artistas também. É sempre muito interessante ver a sua resposta e temos muitos deles que vão ficar o festival todo cá em Coimbra. Nós gostamos de receber bem os artistas e penso que o público também se vai sentir assim. Estamos muito contentes e queremos ver toda a gente no Jardim da Sereia.

