
Coberturas RUC
Todas as coberturas de festivais realizadas pelas equipas da RUC.
UM PROGRAMA DE:
Programação RUC
Músicos com dedos a sangrar durante concertos, avarias na carrinha e público a entoar cantigas antifascistas. A tour europeia dos Dr Sure’s Unusual Practice teve tudo isto. E também teve o Jardim da Sereia e o Rocketmen. Antes do concerto em Coimbra, o líder da banda Dougal Shaw esteve com a RUC e da conversa fizeram parte histórias da digressão, o método composição reacionária, viver cada momento, aproveitar as oportunidades para aprender coisas novas e arte como ferramenta política. O concerto aconteceu às 19 horas de sábado, dia 2 de agosto, no festival Rocketmen.
TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA EM PORTUGUÊS:
RUC: Dr Sure’s Unusual Practice vão atuar hoje, sábado, 2 de agosto, no Rocketman, aqui em Coimbra. O concerto está marcado para as 19 horas, no Jardim da Sereia, com entrada gratuita. Eu sou o Luís Pereira e estou aqui com o Dougal. É um nome difícil de dizer. Acabei de ouvir-te dizer que estavam a…
Dougal: Bem, estávamos a tentar encontrar um sítio para nadar, porque está mesmo muito calor depois do soundcheck, e estivemos o dia todo a conduzir. Normalmente temos uma regra: se virmos um corpo de água, temos de entrar.
RUC: Aqui em Coimbra só tens o rio. Não mau, podes tentar.
Dougal: É permitido nadar no rio?
RUC: Sim.
Dougal: O rio está limpo?
RUC: Sim.
Dougal: A última coisa que precisamos na digressão é alguém com uma dor de barriga.
RUC: Mas o rio não é como as paisagens lindíssimas da Austrália.
Dougal: Eu aceito qualquer coisa nesta altura.
RUC: Já andam em digressão pela Europa há algum tempo. Vi que tiveram problemas mecânicos na carrinha. Ouvi dizer que alguns de vocês estavam preocupados por eventualmente teres posto o líquido de refrigeração no buraco errado do motor.
Dougal: Acho que foi no buraco certo! Pelo menos conseguimos chegar até aqui! É sempre um pouco arriscado quando se aluga uma carrinha. Tens de confiar que ela foi bem mantida, porque vamos conduzir milhares de quilómetros ao longo do mês. Temos de ter esperança no melhor.
RUC: Onde alugaram a carrinha?
Dougal: Começámos em Paris, mas a carrinha é de Amesterdão. Já tínhamos usado esta empresa na última digressão, que começou em Amesterdão, e temos uma boa relação com eles. Por isso, decidimos manter a ligação. Quando viajas em digressão, crias estas relações na estrada e é bom mantê-las.
RUC: Quem é que conduz a carrinha? Quem é o melhor mecânico e o melhor condutor?
Dougal: Eu conduzo, e o Julian, o engenheiro de som, também conduz. Mas devo admitir que o Julian tem feito a maior parte da condução até agora. E, sinceramente, é justo dizer que nenhum de nós é bom mecânico. Somos músicos. Artistas. Nerds. Não somos do tipo que mexe em carros. Somos claramente músicos.
RUC: Vi que têm tocado em muitos sítios. Em França, por exemplo a Miranda, aleijou a mão dela, não foi? A tocar bateria durante o concerto. O que aconteceu?
Dougal: Sim, ela é uma autêntica máquina! Na verdade, ganhou um novo apelido em Madrid, no outro dia. A multidão gritava: “La máquina! La máquina!” Por isso, agora o novo apelido dela é mesmo esse: “La máquina”. Ela toca bateria com tanta força que no outro dia, cortou um dedo durante o concerto e no final do set havia sangue espalhado por todo o kit. Parecia uma cena de crime. Mas já é habitual, da forma como ela toca. É perigoso.
RUC: Mas continuou a tocar?
Dougal: Claro. Claro que sim. Nada a pára. La máquina! Não pode ser travada.
RUC: Muitos australianos viajam pela Europa com mochila às costas. Estão a fazer o mesmo só que entre guitarras e baterias?
Dougal: Exatamente. Claro que sim. Quer dizer, no final do concerto e da digressão há sempre sangue por todo o lado. E todos nós, a certa altura, fazemos asneiras. Cada um vai tendo o seu momento.
RUC: Conseguem fazer algum turismo durante a digressão? O que gostam mais na Europa?
Dougal: Bem, é isso. Agora mesmo, por exemplo, acabámos o soundcheck e temos cerca de duas horas até subirmos ao palco. É esta a nossa janela de tempo para ver a cidade, talvez dar um mergulho, ou fazer qualquer coisa. Temos de aproveitar estas oportunidades quando aparecem. Hoje chegámos a Coimbra depois de um dia longo na estrada. E obviamente queremos ver o máximo possível. Na Austrália não vemos arquitetura tão antiga, por isso tudo isto é muito entusiasmante para nós. Queremos ver o máximo possível, mas normalmente temos pouco tempo. Normalmente perguntamos a pessoas locais: “Se tivessem 10 minutos para conhecer a vossa cidade, o que veriam?” É assim que tentamos aproveitar.
RUC: O concerto vai ser num local bonito, o Jardim da Sereia, o que prepararam para esta noite? E gostam de tocar ao ar livre, em sítios como este?
Dougal: É incrível. Absolutamente incrível. Quando estávamos a chegar de carro, nem conseguíamos acreditar. Estávamos a olhar à volta e vimos aquele lago atrás do palco, e esta arquitetura fantástica. Este parque e a escadaria atrás do palco são provavelmente mais antigos do que a própria colónia daquilo a que hoje se chama Austrália que só tem algumas centenas de anos. Antes da colonização da Austrália, havia uma cultura rica e belíssima, a mais antiga cultura viva da Terra. Mas muitos dos vestígios dessa cultura foram apagados pela colonização. São raros os locais onde ainda se podem ver traços dessa cultura, pinturas rupestres, por exemplo. Mas, na maioria dos casos, quando olhamos para as cidades australianas, tudo o que vemos tem no máximo 200 anos. Por isso, vir para um lugar como este é algo que nos impressiona profundamente.
RUC: Durante a minha pesquisa, reparei que a vossa banda tem um lado político bastante forte. Por exemplo, no concerto em França, o público cantou convosco uma canção antifascista no final. Acreditas que tudo o que fazemos tem sempre um lado político? Procuras garantir que a tua música tem esse lado também?
Dougal: Claro. Sem dúvida. Para mim, tudo é político. E se estou em cima de um palco, com um microfone na mão, isso é uma ferramenta que posso usar para falar sobre aquilo que considero importante, sobre a minha visão do mundo e o que acredito que o mundo devia ser. Falo de humanidade, de ter fé nas pessoas e esperança num mundo menos opressor e menos violento. Quando vejo, por exemplo, Israel a cometer um genocídio na Palestina, para mim não há nada mais importante a dizer com o microfone na mão do que isso. E esse foco muda à medida que o contexto político também muda. Há sempre algo que, para mim, é mais importante falar do que as minhas músicas ou o tempo que está. Por isso, sempre que tenho oportunidade, uso a minha voz e a minha plataforma como uma ferramenta, um canal para a mudança. Para tentar ser a mudança que quero ver no mundo.
RUC: Vais falar disso esta noite também? E além disso, o que mais prepararam para o concerto?
Dougal: Acho que para nós é sempre uma surpresa, sabes? Não planeamos propriamente a atuação, simplesmente adoramos atuar. É a única coisa que nos sai completamente natural. Por isso, tenho a certeza de que também haverá surpresas para nós próprios. Normalmente não planeio o que vou dizer em palco. São apenas coisas que andamos a discutir na carrinha, coisas em que pensamos muito. Então, quando subo ao palco e falo, é natural. Não está ensaiado. Falo do que sinto que é importante naquele dia.
RUC: Disseste uma vez: “Se eu tiver demasiado tempo para pensar no mundo, entro em espiral descendente.” Outros artistas também dizem coisas parecidas, por exemplo, a Kate Clover disse-me na entrevista dela: “Não penses demasiado.” Achas que isso é um bom conselho para artistas e para a vida em geral?
Dougal: Sim. O contexto dessa frase tem mais a ver com ter um escape para esses pensamentos, em vez de os interiorizar. Porque se eu os guardo cá dentro…por exemplo, o que está a acontecer na Palestina, as atrocidades cometidas contra o povo palestiniano, se eu não tiver forma de falar sobre isso, ou de escrever uma canção, ou de fazer arte, ou atirar tinta contra uma parede, ou o que for… Se não tiver esse escape, então sim, entro em espiral descendente. Isso transforma-se em depressão, ansiedade, essas coisas. Mas se encontrar uma forma de canalizar isso, se usar a minha voz, se exteriorizar essas emoções, então isso dá-me sentido, dá-me um propósito. Faz-me sentir que tenho um lugar no mundo. E isso combate essas sensações de ansiedade, depressão ou apatia. Acho que o problema hoje é que muita gente sente apatia, sente que não pode fazer a diferença, por isso nem tenta. Dizem: “Porque é que haveria de apanhar este lixo do chão se há lixo por todo o lado?” E para mim é: “Eu apanho o lixo que está à minha frente.” Porque se toda a gente fizesse isso, não viveríamos num planeta de lixo, que, basicamente, é onde vivemos agora. Existe até uma ilha de lixo no Pacífico, no meio do oceano, porque cada pessoa que passou por um papel no chão achou que não valia a pena apanhá-lo porque há tanto lixo que não faria diferença. Por isso, sim, como já disse antes, mesmo que soe a cliché, eu tento ser a mudança que quero ver no mundo. São essas pequenas coisas. E para mim, é isso que me dá sentido. É isso que me dá um lugar no mundo.
RUC: Gostei muito do que disseste. Em todas as entrevistas há sempre uma frase que guardo para mim e acho que das tuas respostas esta vai ser a que vou lembrar para sempre. Li que usas um método chamado composição reacionária. O que é isso exatamente?
Dougal: Sim! Posso explicar. É basicamente uma filosofia que diz: “Não penses, faz.” Porque se pensares demasiado, acabas por não fazer nada. É essa ideia de: faz, faz, faz. Cria a coisa. Não penses demasiado sobre o que ela é, simplesmente faz. Para nós, como banda, isso significa que lançamos muita coisa. Temos muitos lançamentos, muita música. E pode ser que nem tudo seja bom mas prefiro que esteja no mundo do que ficar parado num disco rígido. É uma filosofia: não fiques preso no pensamento, deixa ir. Reage. Deixa o teu primeiro instinto guiar-te.
RUC: Última pergunta: sei que também fazes a parte visual, os vídeos e a arte da banda. Achas que trabalhar noutras formas de arte te ajuda a fazer melhor música?
Dougal: Sim, claro. Sem dúvida. Para mim, tudo faz parte da prática artística. É isso que está por trás do nome da banda, Unusual Practice. Ter esse escape criativo constante. Faço isso porque gosto, gosto de fazer arte, gosto de fazer os videoclipes. Claro que podia pedir a outra pessoa para os fazer. Se calhar até ficavam melhores, se fosse alguém especializado, tipo em animação ou algo assim. Mas nesse caso eu perdia a oportunidade de os fazer. Para mim, o prazer está em experimentar, em fazer eu próprio. Gosto de todo o processo.
RUC: Muito obrigado, Dougal. Foi ótimo ter-te aqui. E um ótimo concerto para logo.
Dougal: Obrigado eu. Agradeço muito. E continuem a fazer barulho por aí. Continuem a fazer barulho!

