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05.09.2026POR Lexi Narovatkin

Les Siestes 2026 – Uma curadoria de compromisso

Foi mais um ano que contou com uma edição bem sucedida do festival Les Siestes em Coimbra, incidente em atuações de qualidade, e com a missão de entrega de uma programação alternativa para o público local e nacional, continuando a provar-se enquanto uma das produções mais incisivas da cidade.

A mais recente expressão do evento radicado em Toulouse, na França, voltou a passar pelo centro urbano de Coimbra, e consigo trouxe a habitual e notável programação para o Jardim da Sereia e para o Teatrão, mantendo o equilíbrio consistente das suas últimas edições. 

Uma vez mais, a cidade teve a oportunidade de testemunhar atuações inéditas e de estreia, num festival, que para nós, e como escrevíamos em antevisão, é uma lufada de ar fresco para o circuito português, e cada vez mais necessário à construção de um panorama cultural saudável em Coimbra. 

Dia 1

Com o espaço pronto já pela manhã, os pórticos abriram-se ao público pouco antes das seis da tarde, à semelhança de 2025, e a atmosfera já familiar levava os corpos a apossar-se do jardim. 

Foi Alana Vegana a abrir o evento, com um set de downtempo, tangente à música industrial,  passando por temas como Battle Porn de Leslie Winer ou Sumud de Marco Shuttle, que a DJ criou a ambiência de intróito, para um fim de semana que já lhe é habitual. Sentada, frente-a-frente ao público, marcou o primeiro momento de palco, totalmente indicada para um fim de tarde, e pela sua seleção munida de distorção e trabalho vocal, que por linhas etéreas criava o cenário para o concerto seguinte. 

Acontecia uma breve mudança espacial, com o set-up a subir alguns degraus para a plataforma central do Jardim da Sereia, onde iria ser alocado o concerto de feeo. A vocalista Theordora Laird expôs uma entrega emocional e lírica, utilizando ferramentas minimalistas, que revelaram um magnetismo muito particular, guiando de forma cerebral, através da sua escrita, as mentes e os ouvidos atentamente perdidos ao longo do grande corredor de entrada do jardim municipal, numa sessão de escuta assente na introspeção que passou pelos temas do seu mais recente ‘Goodness’. Alguns momentos de manipulação electrónica, focados em texturas mais hostis, equilibravam a balança emocional, contraposta pelas letras diretamente cruas, mas sempre com uma atenção ao reconforto, muito própria à apresentação de Laird. 

Com o recinto já mais preenchido, era Daisy Ray a tomar conta do palco, e a sua fusão de art-pop, rock e uma estética irreverente, captava a atenção dos ouvintes, que se aproximavam da artista à medida que o concerto progredia, tal era o à vontade da sua performance. 

Em antevisão escrevíamos que podíamos esperar jovialidade, mas testemunhamos bastante profissionalismo ao vermos a artista, depois de um curto circuito que interrompeu o som, a manter o público junto a si, com interações que levavam o coletivo a interagir consigo, até retomar o som. O que se seguiu foi uma continuação de concerto puxado por tons enérgicos e frontais, que deixava uma crowd para ficar. 

Seria a vez do ritmo controlar a plateia, e não seria outro nome, que não o de Gil.Barte, a tomar esse papel. Uma live, de novo junto ao público, trazia a perícia da modulação sintetizada, e com o cair da noite, em tons naturalistas iluminados pelo artificial, o produtor entregava uma mostra que passava do techno hipnótico, pelo dub, ao halftime mutante, e abria a pista de dança sem freios e com o pó da terra a levantar pelo ar noturno. 

Uma estreia em território nacional, digna de muitas salas que por cá funcionam, trazia algo de sombrio ao jardim, mas sem alguma vez quebrar o estado de espírito elevado que aguardava pela continuação do festival. Os kicks carregados de graves, conduzidos pelo trilho do dub, levavam os festivaleiros a congregar no centro do recinto, expectantes pelo próximo ato.

Lizatron e DJ CVLT, fechavam a primeira noite, ambos aficionados pela seleção e pela descoberta, mostravam a Coimbra os cantos mais obscuros do som, e o que faltou na mistura direta, esperada normalmente de um DJ set, foi compensado pela escolha afinada, e ouvir Throbbing Gristle no meio da cidade, por exemplo, foi algo que se traduziu em comentários de admiração e apreço. Este último segmento, desacelerado e para ser ouvido atentamente, só podia caracterizar a cultura de gosto que orbita este festival, e mostrou o quanto os interesses comuns unem os que entusiasmam pelas sonoridades experimentais. 

Dia 2

Depois de uma mostra preparada para a autenticidade, só podíamos esperar pelo segundo dia, que iria começar da mesma maneira: com as pessoas a chegar cuidadosamente, mas já a assumir lugares para os grupos se comporem, e o jardim a preparar-se igualmente para mais um dia de projeção sonora. A natureza envolvente, deixava já um aviso para os residentes não-humanos do local, as árvores prometiam sombras, e as aves procuravam um sítio resguardado do alcance do sistema de som. 

A tarde tinha início com o trio Just Fish, e com a sua entrega psicadélica, com muito corpo proporcionado pelo baixo de José Silva, integrante mais recente da composição do projeto ao vivo, aliado à percussão e às máquinas, de forma leve, levava ao público maioritariamente deitado, uma atmosfera de regeneração da noite anterior. 

Os músicos contavam com um apoio significativo de público portuense, cidade onde o projeto começou, e em Coimbra concederam um véu envolvente de hipnagogia desviada, reminiscente ao experimentalismo instrumental das vertentes mais oddball da música kraut, e prepararam uma pista de lançamento para as horas seguintes de imersão. 

Seguia-se Megabasse, projeto solitário de Pierre Bujeau, que com a sua guitarra de dois braços, e em perpétuo contacto de feedback circular com os seus dois amplificadores, descalço e a sentir as pulsações do solo, deu continuidade a um segmento de escuta horizontal, de costas para o público ao seu nível. De forma linear, e sem apetrechos, foi uma entrega fácil de ouvir, que viajou pelo público de forma confortável, durante duas horas magnéticas, onde os acordes suaves se acumulavam subtilmente. 

O instrumentalismo ia continuar a dominar o alinhamento, com a subida de Otomani Parker Quartet, que transformariam o dia em noite. Os quatro músicos, dos quais era esperada uma atuação com foco em graves e no dub, optaram por uma abordagem mais leve, mas nunca descartando um som hipnótico, emotivo, e com muita incidência de improvisação, e foi com esse talento todo que lançaram o véu sob algum do público atento. O som mais espacial, estava a permitir a alguns setores do recinto de conversar, contudo, as cabeças que estavam voltadas apenas para a escuta, prontamente pediam silêncio. 

Duas horas de vocais etéreos de Bint Mbareh, acompanhados da maquinaria de Andrea Ottomani (Big Hands), que adicionava as sonoridades secas e metálicas do dub, contrapostas à percussão tática de Yusuf Ahmed, estiveram sempre envoltas com o saxofone sibilante de Buster Woodruff-Bryant, e os quatro músicos criaram uma ambiência impressionante de sonho diurno, acelerando os tempos mais para o final do concerto, entrando num segmento similar ao free-jazz, relembrando a gama eclética que a programação do festival oferece. 

Este momento de maior calma não iria durar para sempre, pois dentro de instantes iria começar o concerto de Malesa, com um uso pesado de máquina de fumo e luzes verdes, cativando a crowd para junto da plataforma, quase como uma chamada cerimonial, a pedir congregação de fiéis alienados. O magnetismo soturno, estava a cargo de Eloi Petillon (Trois-Quarts Taxi System), responsável pela guitarra eléctrica e manipulação electrónica, e de Paola Avilés, que conduzia o ritual pela voz, por vezes gritada, e outras, limpa e xamânica, acompanhada pela harpa que tocava com precisão delicada e ainda uma segunda metade do equipamento sintetizado. 

A primeira parte do concerto caiu sob temas do seu primeiro disco, ‘Sal y Sangre’, e a cara metade pelo seu mais recente ‘Ciudad sin Paredes’, apresentado de forma tímida por Paola, mas executado da forma mais crua e bruta. Uma mistura de downtempo, trip-hop, de linhas de guitarra associadas ao stoner-doom, e de kicks fortes e sincopados, levaram a um momento muito efusivo no público, e este penúltimo concerto no jardim, encaminhava os passos de dança para a atuação seguinte. 

Um anúncio era emitido no PA, a avisar os festivaleiros do próximo DJ, e dos horários de after, bem como dos transportes para o mesmo, disponibilizados pela Fundação Bissaya Barreto.

O slot de encerramento ficava nas mãos de DJ Narciso, que durante duas horas colocou uma pista em dança, com a sua seleção simples e direta de Afrobeat, ideal para deixar vontades a postos para continuar em movimento para o Teatrão. O seu som, em repetição, seria talvez aquele que foi o momento de mais fácil compreensão para um público alargado, já que o 4/4 estável não tem como enganar. 

After

O segmento de after, já conhecido do ano passado, tinha lugar na Oficina Municipal do Teatro, e contava com um alinhamento tripartido até às seis da manhã. 

Big Hands, aquecido depois do concerto com a sua banda, Ottomani Parker, dava início à festa, com uma seleção meticulosa de leftfield percussivo, tão típico do catálogo da sua editora, Baroque Sunburst. As suas escolhas expansivas, soaram da melhor forma para começar este after, nem muito rápidas, nem lentas o suficiente para qualquer outro horário, e uma mostra de electrónica mais off, foi o que definiu esta entrada pela noite dentro. 

Seria a vez de Rita Maomenos de mostrar uma fórmula que deixa a tremer sistemas de som, focada na bass music festiva, acoplada ao breakbeat, mas sempre lúcida e misturada com perícia. Temas clássicos, como Changes de Mala, combatiam pelo PA, com lançamentos mais recentes de editoras na frente da música grave, como por exemplo a Nerve Collect. Foi preciso um breve acerto de equalização ao sistema de som, mas nada que a equipa técnica não conseguisse prontamente resolver, dando continuidade fluída para o final da noite. 

A fechar tínhamos Xez, que trocou o posto de assistente de técnica de som, para o de trás da cabine, e fechou o alinhamento com uma fusão de dub, grime, jungle, e até algum electro, não deixando para trás um tema seu, para finalizar em downtempo. Tema este que esperamos ouvir um dia, talvez editado algures, para continuar a seguir o talento do jovem produtor e entusiasta pelo design sonoro. Um nome local a Coimbra, deu-nos mais um bocado do seu apreço pela cultura, mostrando que o que se faz por cá, é também motivo de admiração. 

Foi assim que finalizou mais uma edição de Les Siestes em Coimbra, e provou uma vez mais, a manutenção de uma produção feita com gosto, e com a preocupação de dar um lugar especial para a música experimental. Uma edição gratuita, saudável para a cidade, e em último caso, um trabalho que veio para ficar, do qual só podemos continuar à espera de evolução para o ano que vem. 

A fotografia utilizada na capa desta peça, foi captada pela lente de Zhang Qinzhe.

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