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Primavera Sound Porto 2026
Um banquete de iguarias ou um all-you-can-eat de coisa nenhuma?
Batem as nove badaladas na Torre dos Clérigos e, caso fosse efetivamente possível ouvi-las no Parque da Cidade, soariam a ralhete pelo meu atraso a caminho do concerto de Big Thief. A justificação é imaculada: tinha acabado de levar uma sova sónica dos Sensible Soccers e, qual cigarro pós-coital, precisara de um momento para degustar, agradecer o privilégio, e perguntar a mim próprio o que fizera para merecer sorte tão grande (saudades de fumar).
O meu alvoroço de transumante é interrompido por um outro indivíduo, em sentido contrário, que me pergunta: “Vais a caminho de Big Thief? Está a ser desolador”.
“Expectável”, pensei eu, habituado à honestidade radical com que Adrianne Lenker partilha a sua vulnerabilidade em canções de maior ou menor envergadura. Mas o tal indivíduo (que percebo entretanto ser jornalista musical) faz questão de clarificar que não só está a ser um concerto aborrecidíssimo, como o Neil Young já fez mais e melhor umas décadas antes.
Prossigo apressado até chegar finalmente ao palco principal do Primavera e, juro!, sou imediatamente interpelado por um amigo que deixa escapar um embargado “Isto está a ser do c#ralh%!”. O sol põe-se em fundo, e nasce a ideia para o início desta crónica.
Dia 1 – Hello Primavera, my old friend
O primeiro dia do Primavera Sound 2026, no Porto, assemelha-se a um reencontro com um velho amigo. A RUC tem acompanhado anualmente o certame, mas eu já não o visitava desde 2021. Reconhecemo-nos sem dificuldade, embora finjamos não reparar no que o tempo fez ao outro. Se por um lado eu estou mais velho e redondo, já o Primavera Sound parece uma corrida de obstáculos até chegar à – espante-se – música.
São barracas atrás de barracas de propaganda, marcas a esforçarem-se demasiado com luzes e cores garridas, numa tentativa espúria de parecer cool e que, em boa verdade, não passa da versão corporativa da personagem de Steve Buscemi a perguntar “How do you do, fellow kids?”.

Steve Buscemi a ser icónico
A sensação é a de que entrei num enorme circo, onde é mais fácil dar de caras com os palhaços das saquetas de nicotina ou das famigeradas casas de apostas, do que encontrar indicação dos caminhos para os palcos e os horários das atuações. Reparo que nenhum dos promotores tem nariz vermelho; se calhar os palhaços somos nós?
Quem luta sempre alcança e conseguimos chegar, por fim, à música. O cardápio deste primeiro dia promete, e começamos com duas gerações diferentes da música portuguesa: as Vaiapraia, um dos segredos mais mal guardados a gravitar entre o pop e a urgência punk, cada vez mais contagiantes, cada vez mais divertidas, e que nos trouxeram Alegria Terminal, o LP acabado de sair do forno e que conta com contributos de Filipe Sambado ou João Branco Kyron (da banda de culto Beautify Junkyards); e PAUS, na sua derradeira digressão, apropriadamente intitulada ENTERRO, que deram tudo o que era exequível dar sob o tórrido sol e os 35 ºC à sombra que se faziam sentir durante o concerto.
Uns palcos mais ao lado encontramos a primeira surpresa, as britânicas The New Eves que, lemos algures, inventaram a etiqueta hagstone-rock para definir a sua música, uma proposta de post-punk esotérico e que se torna bastante óbvia aos primeiros acordes. Há muita distorção nos riffs infecciosos de guitarra, uma percussão tocada de pé e com raiva, e um violoncelo ao centro do palco, arqueado e acompanhado não só pela vocalista, mas também por um coro orgânico que se forma a apelar aos céus. A liturgia é interrompida amiúde para o que mais tarde veio a popularizar-se como hydration breaks, mas ninguém arreda pé.
Mantendo a toada futebolística, surge finalmente o primeiro grande dérbi, ibérico, pois a atuação do espanhol Rusowsky decorreria à mesma hora que a dos portugueses Sensible Soccers. Se, um mês mais tarde, Mikel Merino haveria de desfazer o sonho do Mundial à seleção de Cris & Jorge Mendes, aqui a goleada seria em sentido contrário. Seguimos, por isso, para o palco onde Hugo Gomes, Manuel Justo e companhia viriam a dar um dos melhores concertos do festival.
Os Sensible Soccers são uma banda generosa e sabem que os preliminares são importantes. Começam por embalar-nos com a beleza de, tenho quase a certeza, “Nesse Jardim Onde Só Vai Quem Tu Quiseres” (do disco Manoel, de 2021), para de seguida envolverem-nos com o ritmo lascivo de, tenho quase a certeza também, “Zaire 1974” (presente no EP Fornelo Tapes Vol.1, de 2012). Estas dúvidas surgem no início e vão-se mantendo ao longo das canções, primeiro como interrogação mas rapidamente como deleite, isto porque o prazer é todo nosso: o alinhamento percorre a discografia do grupo, mas há acrescentos próprios de tocar ao vivo, novas camadas que surgem e acrescentam texturas acústicas à percussão electrónica, re-interpretações que ligam o passado ao presente e futuro da banda, nunca de forma saudosista mas honrando um percurso que os levou até ali, em particular aos novos EP e ao novo LP que será lançado ainda este ano com o selo da “8mm Records”.
Os cinco elementos em palco levedam a massa sonora que, em crescendo, vai arrebatando os muitos presentes frente ao palco. Ao meio, podemos ver Hugo Gomes a sorrir e, provavelmente sem intenção, a dirigir aquela orquestra de corpos que dança com a alegria dos felizardos. Terminam em êxtase com “Shampom” e “AFG”, enquanto os últimos acordes ainda ressoam e eu já com saudades de voltar ali.

Sensible Soccers a dar tudo no Primavera Sound Porto 2026. Fotografia de Emanuel Canoilas
Dá-se, por esta altura, o episódio do início desta crónica – e já lá voltaremos. Ao chegar a Big Thief dou de caras com um concerto em andamento, pura Americana Folk onde, como em tudo na vida, há quem goste e quem não a suporte. Àquela hora e naquele contexto, com o céu a entardecer e a colar-se às objetivas dos telemóveis, ávidos de capturar os tons de laranja e a silhueta da Anémona, pareceu-me quase perfeito (e só um pouco aborrecido). O que é certo é que a cada refrão reconhecido, os fiéis entusiasmavam-se e a comunhão era sincera. O concerto teve algumas pausas sem razão aparente, e lembraram-me da vez em que Adrianne Lenker passou 24 minutos a afinar uma guitarra em palco, até desistir e decidir que tocariam então outra música.
Antes do regresso mais aguardado do dia, o dos The xx, houve tempo ainda para um amuse-bouche com os norte-americanos Texas is the Reason, que este ano ocuparam o já tradicional slot de banda relativamente desconhecida e provavelmente one-album-wonder dos anos 90. Com um único álbum editado (Do You Know Who You Are?, de 1996) deram um concerto extraordinário, rock a abrir e tocado como se a vida deles dependesse disso, power chords e melodias 100% USA, um excelente limpa-palato áspero e rugoso depois da placidez de Big Thief. Vieram-me à memória os meus primeiros CD-R carregadinhos de MP3, onde conviviam Filter, Creed, Duster e até Queens of Stone Age. Para uns, foi nostalgia, para outros, talvez a descoberta de uma sonoridade nova e que não é deste tempo. Para mim, foi chegar trinta anos atrasado a um concerto que, em 1996, ainda era demasiado novo para saber que queria ver.
Era quase meia-noite quando assistimos à grande enchente da noite, com os The xx. Vou ser sincero, e acreditem se quiserem: nunca tinha ouvido. Acerquei-me com a curiosidade de quem talvez tenha passado ao lado de algo extraordinário e com a abertura suficiente para receber algo que não seria a minha praia sonora.
O palco principal do Primavera (que, aqui entre nós, é uma valente merda) revelou-se curto para a quantidade de pessoas que aguardava ansiosamente uma das primeiras actuações da banda em oito anos. A sinopse no site do festival assegura que “os The xx acabaram por definir algo muito mais valioso do que um som ou um género musical: o zeitgeist do seu tempo e do seu lugar”, seja lá o que o ChatGPT queira dizer com isso. Talvez, porém, se perceba onde querem chegar ao ver tanta gente a cantar não só os refrães, mas as músicas inteiras, do princípio ao fim, hipnotizadas pela pop electrónica e pela cacofonia visual de luzes em palco.
Começam a tocar “Angels” (pergunto o nome a tempo), e aos coros do público segue-se o silêncio da imensa multidão quando Romy termina de cantar “Love… love… love.” É impossível não sentir coisas ali, e isso é bonito.
A noite termina com o incendiário concerto dos KNEECAP, do qual registei poucas notas porque, do início ao fim, foi banger atrás de banger e, pura e simplesmente, priorizei curtir. Não é preciso decifrar cada sílaba em irlandês para perceber o que está a acontecer: Mo Chara e Móglaí Bap lançam versos sobre batidas que saltam do hip-hop para o acid house, do drum and bass para o dubstep, enquanto o DJ Próvaí transforma o palco num cruzamento entre uma rave, um comício e um motim.
A defesa da Palestina e a condenação do genocídio em Gaza, o orgulho de uma Belfast operária e a luta pelo direito a falar irlandês não aparecem como sermões entre músicas, antes são o combustível da festa. Os KNEECAP fazem jus ao velho mandamento de que a música ao vivo ainda pode ser a porta de entrada para a elevação da consciência, e transformam política em celebração coletiva sem retirar peso a nenhuma das duas. O concerto é furioso e suado, e só posso recomendar que voltemos a eles quando regressarem a Portugal, em Agosto, para o Paredes de Coura.
Dia 2 – Como o macaco gosta de banana, eu gosto de Gorillaz
“Seguramente que do mesmo modo, depois do primeiro milhão de anos, o ouvido humano deixara de ouvir o gemer da terra girando no seu eixo bolorento.” – esta passagem do chileno Hernán Rivera Letelier, no livro Os Comboios Vão para o Purgatório, explica bem o início do meu segundo dia neste Primavera. É tão permanente e intrusiva a quantidade obscena de porcaria (dos carros às corretoras de seguros) que agora quase lhes sou indiferente, rumo à música que, afinal, existe mesmo neste festival.
Hoje há guitarras para todos os gostos: as mais pastorais e melódicas dos Black Country, New Road; as reminiscentes do indie-rock dos anos 2000, nas mãos do quarteto argentino Bestia Bebé; as que servem de divã ao sprechgesang cockney de Baxter Dury; as que se dissolvem entre drones e shoegaze majestoso quando os Slowdive pisam o palco; ou as de Water From Your Eyes, das quais só poderemos ter pena por provavelmente irem ser tocadas para ninguém (o concerto acontece à mesma hora que o do globetrotter da noite, Gorillaz).
Começamos por Baxter Dury, o prolífico projeto de… Baxter Dury. Lusco-fusco ainda bastante luminoso, e uma performance em palco impressionante de um homem de peito à mostra (literal e figurativamente) e cujas manchas de suor em torno das axilas são exibidas como medalhas de guerra. O nono álbum de estúdio, Allbarone, parece finalmente ter colocado este britânico onde merece, diante do maior número possível de pessoas. Um disco que é um autêntico tour-de-force, feito de melodias intensas e diretas, que transforma a fauna de Shoreditch numa metáfora perfeita deste inferno moderno em que vivemos. A grande diferença para trabalhos anteriores é que se nota que Baxter Dury está mais vulnerável, menos grotesco, e embora rosne as palavras como se estivesse arreliado, ao mesmo tempo salta palco fora, feliz, e agradece-nos de braços abertos com um “I love you!” tão sincero quanto inesperado. Destaque ainda para Caitlin Laing-McEvoy nas teclas e na voz (a fazer lembrar, a espaços, o timbre de Lætitia Sadier).
Seguimos para Panda Bear e um concerto que é mais uma demonstração (injusta) que podes ter vinte anos de trabalhos e colaborações, até lançar EP gravados com uma banda mexicana de Mariachis, que as pessoas vão estar sempre a comparar-te à tua obra seminal – neste caso os Animal Collective. Noah Lennox parece, de resto, empenhado em escapar não apenas a essa sombra, mas também à própria máquina de promoção contemporânea: o seu novo disco em colaboração com Sonic Boom não está nem estará em streaming ou vídeos, apostando antes na rádio, nos concertos, nos cartazes colados com gosma nojenta, e nos encontro no mundo real (“IRL, not URL”). Em palco, porém, não há manifesto nem fuga espectacular ao expectável: há um bom concerto, sólido e competente, que dá sem surpreender.

Panda Bear a tocar La Maior no Primavera Sound Porto 2026. Fotografia de Emanuel Canoilas
Pode parecer que este dia passou a correr – e é verdade. Piquei um pouco de Gisela João, ainda fui a Slowdive confirmar em que ano estávamos, sentei-me na relva com a Mari Froes e ainda fui sacudido pelo caos punk e saxofonado de Viagra Boys. Mas não fiquei tempo suficiente em lado nenhum, e dei por mim a navegar na ansiedade do que estaria por vir: os Gorillaz ainda não tinham subido ao palco, mas já tinham roubado a atenção.
Sinceramente, acho que não fui só eu. O dia estava esgotado, e não havia snob da música que fosse capaz de afirmar que estava ali apenas para os sets da Príncipe Discos e que talvez, se sobrasse tempo, fosse espreitar o maior concerto da noite; nem muggle que não empregasse as palavras “génio” ou “incrível” para descrever o vocalista dos Gorillaz, (enquanto tentava, naturalmente, engatar a pessoa do lado). Já Marx escrevera: “Um espectro ronda o Parque da Cidade – o espectro de Damon Albarn”.
E, camaradas, quando o concerto começou, foi todo o comício a que tínhamos direito. A enchente devota, reunida nesta Internacional imaginária, recebeu em espanto a melodia dos sitares que iniciam “The Mountain”, ponto de partida para a viagem espiritual que nos esperava. Dezenas de milhar de pessoas dançavam, cantavam, e até deixavam escorrer algumas lágrimas, em sintonia perfeita com a solenidade do tema de abertura, acentuada quando o falecido Dennis Hopper surgiu nos écrans gigantes.
Ao contrário de outras ocasiões, senti que Damon Albarn assumiu o púlpito como um Mestre de Cerimónias e menos como a estrela mais brilhante do conjunto, partilhando o protagonismo com os impressionantes músicos que acompanham esta digressão. Sinais de maturidade, ou talvez a inevitabilidade própria de quem reuniu uma tempestade perfeita de contributos, num dos melhores discos do ano.
O alinhamento transbordou os limites do último trabalho dos Gorillaz, e houve espaço para algumas surpresas mais ou menos bem escondidas: tivemos Joe Talbot em palco, emprestando a sua fúria em lume brando ao reggae de combustão lenta que é “The God of Lying”; a sul-africana Moonchild Sanelly apareceu para cantar “With Love To An Ex”, faixa bónus que ganhou vida nos concertos ao vivo; Yasiin Bey surge em “Stylo” (um dos melhores malhões do disco Plastic Beach, de 2010), por cima de um electro-funk de baixo pulsante e sintetizadores insistentes, reaparecendo em “Damascus”, onde o seu rap se cruza com a voz e o dabke sírio de Omar Souleyman (que, infelizmente, só esteve presente em espírito e nos altifalantes). A festa torna-se rija, e Damon Albarn lança o desafio: “Mostrem o vosso apreço por uma banda que só aparece uma vez na vida!”. O povo responde com gritos e saltos, a moção é aprovada por aclamação.
A noite termina com a esquizofrenia deliciosa dos japoneses Melt-Banana e com o festão protagonizado por Joey Valence & Brae, que surpreendeu e muito quem (como eu) desconhecia a dupla. Parecia uma rave liderada pelos Beastie Boys da era moderna, com beats sucessivos a extravasar o hiphop, booty bass languidamente a conviver com o maximalismo eletrónico à la Skrillex, tudo sem pausas nem contemplações. Um autêntico “vale-tudo” na arena musical e KO sucessivos (estou agora a sorrir enquanto me lembro de perguntarem “Who the fuck here had a brat summer?!” antes de lançarem o tema inspirado na música da Charlie XCX).
Dia 3 – Velhos são os trapos
Chegamos ao terceiro e último dia do festival (vamos ignorar que há um quarto porque, sinceramente, ninguém quer saber) e aguarda-nos um sprint final com muitas etapas por escolher. Velhas raposas e novas promessas coexistem nos vários palcos, contrariando definitivamente a eventual ideia de uma monocultura musical nos terrenos férteis do Primavera.
Ouvi um pouco dos britânicos Yard Act, da brasileira Duquesa e dos norte-americanos The Sophs mas, sinceramente, não prestei atenção suficiente para partilhar convosco o que foi a experiência de ver e ouvir este trio. O cansaço acumulado, de braço dado com o insólito calor (que foi a primeira grande novidade da edição deste ano), leva a que apenas um grande estrondo consiga captar a minha atenção.
Foi precisamente o que aconteceu no espectáculo de Mike D, um dos míticos fundadores dos míticos Beastie Boys. Confesso que já fui para este concerto com vontade de gostar, até porque fiquei chocado com a aparente “tristeza” generalizada provocada pela ausência de última hora de Dijon.
Amizades: Baby pode ter sido um dos melhores discos do ano passado, a música é inventiva e leva o R&B para zonas excitantes; é certo também que Dijon entra em 2026 na mó de cima, nomeado para os Grammy e ao lado do Leonardo DiCaprio no grande écran. Mas Mike D não é propriamente um prémio de consolação: estamos a falar de um dos fundadores de um dos melhores e mais influentes conjuntos dos últimos quarenta anos, que criaram o primeiro álbum de rap a chegar ao primeiro lugar da tabela norte-americana; criaram hinos intemporais com uma criatividade e uma liberdade que atravessam águas tão turbulentas como o punk, o hip-hop, o funk ou a eletrónica; ganharam três Grammy e estão eternizados no Rock&Roll Hall of Fame.
Além disso, Mike D não estava propriamente no sofá, nem veio ao Primavera para administrar o património dos Beastie Boys. Tem novo trabalho, Thank You, o seu primeiro álbum a solo, com lançamento marcado para Agosto deste ano. Mais do que a tal “tristeza” generalizada, talvez se justificasse uma “alegria” coletiva pela presença de última hora de Mike D.
Ufa. Terminado o desabafo, resta dizer que quinze anos depois do último discos dos Beastie Boys, foi mesmo bom ver este sexagenário liderar os 5D (a formação que inclui os filhos Skyler e David Diamond), todos vestidos de vermelho-alaranjado e a fazer música como gente grande. Abriram com “Hello Brooklyn” e fecharam com “So What’cha Want”, mas não tivemos ali um mero exercício de taxidermia nostálgica: entre o baixo pesadíssimo de “What We Got”, as experiências do novo álbum e uma inesperada versão de “Mind Your Own Business” (dos Delta 5), Mike D presenteou-nos com uma celebração da liberdade sem cercas que teve franca ressonância no público que assistia. No final despediu-se imerso em aplausos, e deixou plantada a curiosidade sobre o que virá dali no futuro.

Mike D e os Bandemónio no Primavera Sound Porto 2026. Fotografia de Emanuel Canoilas
Eram agora 21 horas e, ao olhar para as minhas notas, sorri perante a perspetiva abonada de quatro projetos altamente excitantes, todos liderados por mulheres, prestes a começar. Infelizmente, constatei que se sobrepunham e tive que fazer uma das coisas que menos gosto na vida: escolhas.
O primeiro dilema opõe a diva JADE (e a vontade fortíssima de ir dançar “Angel Of My Dreams”), à inacreditável Sudan Archives. Puxei a alavanca e sacrifiquei a primeira, deixando o elétrico seguir rumo à segunda. Não tive remorsos: Sudan Archives é uma força da natureza que, sozinha em palco, dominou todo um auditório como se ela fosse muitas pessoas ao mesmo tempo. A música desta norte-americana nasce de muito estudo e pesquisa, e parte de uma missão que a própria referiu como partilhar a “Blackness of the violin”. Inspirada por diferentes tradições e formas de tocar o instrumento, absorveu-as, cruzou-as e reinventou-as até criar um estilo muito próprio de R&B e eletrónica, no qual o violino deixa de ser o objeto “solene” a que o cânone ocidental o condenou, para se tornar o epicentro de uma festa pegada.
(Além disso, como ter pena de faltar a JADE se a minha amiga Rita passou as horas seguintes a cantar-me, em loop e com inabalável convicção, apenas “Angel of my dreaaaams”, como se o resto da letra nem existisse?)
Posto isto, nova encruzilhada: o afrofuturismo de Amaarae, ou reencontrar o pop preguiçoso e sensual das Smerz? Acabei por tentar dividir-me pelas duas (sem sucesso), e tentei colmatar a falha mais tarde, já em casa, ao ouvir BLACK STAR e Big City Life, os trabalhos mais recentes destas artistas que mereciam mais tempo e destaque no Primavera Sound deste ano.
Chegámos finalmente aos Artistas maiores da noite, com A maiúsculo e uma pertinência musical e social que são um privilégio cada vez mais raro de experienciar em bandas nos dias que correm. Refiro-me, naturalmente, aos Massive Attack, cujo concerto começa antes dos próprios se deixarem ver: rostos da plateia são apanhados pelas câmaras, ampliados nos ecrãs e classificados por uma imitação dos sistemas de vigilância da Palantir, transformando cada um de nós em amostra estatística, consumidores e, obviamente, alvos. Só cerca de dez minutos mais tarde, quando Robert Del Naja e Daddy G emergem do negrume, percebemos que os músicos não se esconderam por timidez – naquele espectáculo, o verdadeiro cabeça de cartaz é a máquina e os vilões que nos observam.
A música continua incrível, e haverá gente com capacidade de análise e referências bem melhores que as minhas para descrever com dignidade o que ali ouvimos. Sou simples: vibrei com a enviesada nostalgia logo à primeira percussão de “Unfinished Sympathy”, subi aos céus com a maravilhosa Elizabeth Fraser a cantar “Teardrop”, fui devolvido à terra pela força telúrica de Horace Andy em “Girl I Love You” e “Angel”. Repete-se esta ideia na minha cabeça, durante o concerto, e agora enquanto escrevo estas palavras: que privilégio!
Mas não é só música o que está a acontecer, ali, àquela hora, naquele lugar. Falei de dilemas morais, mas aqui não há dúvidas nem absortos cinzentismos morais. Nos ecrãs sucedem-se guerras, campos de extracção de minerais no Congo, os números crescem sem parar e podem ser o número de vítimas em Gaza, despesas militares ou, em boa verdade, o que quisermos, de tão dessensibilizados nos tornámos enquanto sociedade cada vez mais informada, cada vez mais burra. “A repressão da cultura e a repressão de ativistas caminham lado a lado”, dizem a certa altura. Os Massive Attack não se limitam a tomar posição, ocupam-na (poucas semanas antes, Robert Del Naja fora detido durante uma manifestação de apoio à Palestina), e gritam-nos que “o rei vai nu”. E nós? Que fazer?

Elizabeth Fraser para sempre. Fotografia de Emanuel Canoilas
Este concertaço teria fechado com chave de ouro a edição deste ano, mas houve ainda tempo para rever Joe Talbot e os IDLES (conterrâneos de Bristol dos Massive Attack), assistir a uma performance meio atabalhoada de MXGPU num palco suspenso por uma grua, e dançar, dançar muito com os Model/Actriz que nos deram uma excelente entrevista e que podem ouvir aqui:
Já em jeito de rescaldo e a caminho de casa, comecei a organizar as ideias sobre o Primavera Sound Porto, com o intuito de as transformar nestas palavras que lêem agora. Dei por mim a recordar o episódio do primeiro dia. Como explicar duas apreciações tão diametralmente opostas sobre o mesmo espectáculo? O que me levaria a concordar ou discordar de uma em detrimento da outra? E eu? Gostei do Festival? Não gostei? Porquê? E, no fundo, isso interessa?
Há uma ideia persistente de que o cronista deve ser um crítico, e um crítico deverá opinar sobre o que é bom ou mau. Quase como o casamento mal amado e poliamoroso entre um cientista, um juiz e um técnico, uma entidade que se coloca acima do comum dos mortais por poder fazer do seu tempo um espaço privilegiado de procura, investigação e reflexão sobre algo tão universal como a música. Assim, enquanto eu estaria a divertir-me perante as diatribes de uns “Big Thief” da vida, ele carregaria o galante fardo de me avisar que aquilo já fora feito, que as progressões não são assim tão engenhosas, e que o concerto talvez não valesse a pena.
Mas será essa tecnocracia que define o que é bom ou mau? Lembro-me de alguns concertos tocados por virtuosos imaculados, a tocar tudo no lugar certo sem acertarem em nada dentro de mim, e pensei também nas descrições de energia e felicidade de quando os The Clash tocaram os primeiros concertos com não mais que três acordes no repertório.
Pessoalmente, afasto-me desta visão, e sou militantemente contra tanto a demonização como a divinização do crítico. A boa crítica oferece uma espécie de “subjetividade informada”, não a fantasia de uma objectividade olímpica, mas uma experiência pessoal sustentada por conhecimento, contexto e capacidade de comunicação. Numa homenagem publicada pela The Wire, Richard Cook (um dos meus jornalistas musicais preferidos e que, infelizmente, já faleceu) é recordado como alguém que via o seu trabalho como a dádiva de uma “chave para a música”, e não como uma celebração dos próprios gostos.
Isto para dizer o quê? Que depois de ouvir dizer que este foi o “pior festival dos últimos tempos” ou, simultaneamente e em sentido contrário, que o alinhamento foi um “desejado regresso” ao que de melhor o Primavera Sound nos habituou, esta foi a minha experiência durante os três dias e uma tentativa de pintar o que senti, com nitidez suficiente para vos transportar, por instantes, para junto de mim.
Não escondo que sinto saudades de nomes tão icónicos como “All Tomorrow’s Parties” para identificar um palco, nem que me faz confusão a tentação de transformar o Primavera Sound Porto numa espécie NOS Alive com menos recursos. Mas diverti-me, descobri música nova, reencontrei música antiga, e, honestamente, fiquei com vontade de regressar. Se isto faz deste Primavera Sound um bom ou mau festival? Vocês decidem!
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