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30.07.2026POR Gonçalo Pina

Últimas notas sobre aquele dia em meados de maio

Passaram 75 dias desde que vivemos tudo juntos. Hoje pode começar tudo outra vez.

Desengane-se quem acredita que direi algo de novo. A história daquele dia em meados de maio já foi contada e recontada, sabemo-la de cor, de onde se almoçou, das filas intermináveis, da bancada repleta, das lágrimas nos olhos, do papel higiénico, da Balada, do Leandro, do Baixinho, do Marcos Paulo, do PhD, da Ana Abrunhosa (?), da invasão de campo, dos boxers do Carlos, da paragem na Mancha, do “dia mais feliz da minha vida” na Câmara, da emissão na RUC, do MBWay do Montez, da “gaita”, da festa nos Jardins, dos finos mal tirados, do braço-de-ferro do Edson e da paragem final no NB. Portanto, sobre esse dia em meados de maio, abster-me-ei de tentar dizer coisas novas.

O difícil é dizer quando é que aquele dia em meados de maio começa. É uma discussão recorrente quando falamos de guerras, o início é sempre no momento que é mais conveniente a quem conta a história, isto porque, feliz ou infelizmente, o tempo não tem um início e um fim conhecido, simplesmente está lá e nós vivemos nele desde que existimos até que deixamos de existir.

Dependendo da pessoa com quem falamos, poderão dizer-nos que aquele dia em meados de maio começou uma semana antes, em Mafra, quando se tornou inevitável que aquele dia em meados de maio se transformasse no que foi. Poderão dizer-nos que aquele dia em meados de maio começou numa viagem à Póvoa de Varzim, quando a crença tomou até os mais céticos que sofrem de academismo-primário. Poderão dizer-nos que aquele dia em meados de maio começou numa sexta-feira depois do trabalho, numa receção a adversários galegos perfumada pela magia de Conocteur, ou que começou numa ida a Massamá que acabou em desilusão, ou que começou numa manhã de 2022, que apesar de soalheira ficou na memória como sombria e em que conhecemos uma americana a quem nunca mais pusemos a vista em cima, ou que começou em 2016, ou em 2012, ou em 1969, ou em 1939, ou em 1887. Os inícios e os fins têm esta particularidade de nunca serem definitivos.

Aquele dia em meados de maio não foi mais do que isso, um dia em meados de maio. Pode ser entendido como um fim, se assim o quisermos, mas isso encerra-nos mais longe daquilo que possa vir a ser um novo dia em meados de maio, aconteça ele este ano, no próximo ou no a seguir. Que o entendamos como um início que recomeça hoje, na Praça do Comércio, em que podemos ser tantos quanto os 26 mil que já mostraram que têm fome de fazer parte de uma história bonita.

Hoje podemos começar tudo de novo. Encontramo-nos no próximo dia em meados de maio.

 

(Fotografia: João Oliveira)

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