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27.06.2026POR Isabel Simões

Pacheco Pereira: “”A ideia que hoje está mais em risco é a ideia da empatia”

Em entrevista à RUC, no âmbito da Feira do Livro de Coimbra, o historiador José Pacheco Pereira, refletiu sobre o legado do 25 de Abril, o Verão Quente de 1975, o 25 de Novembro e os desafios que atualmente se colocam à democracia portuguesa. Ao longo da conversa, Pacheco Pereira abordou também o crescimento da direita populista, a importância de Melo Antunes na revolução de 1974 e deixou críticas ao rumo atual do PSD.

José Pacheco Pereira começa por enquadrar a Revolução de Abril numa perspetiva histórica mais ampla. Segundo o historiador, Portugal viveu “a mais longa ditadura da Europa”, com 48 anos de duração, o que deixou marcas profundas na sociedade portuguesa.

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Para Pacheco Pereira, décadas de censura, repressão e limitações à liberdade criaram um ambiente que tornou inevitável um período de turbulência após o derrube do regime. O historiador faz ainda uma distinção importante entre liberdade e democracia.

Na sua perspetiva, o 25 de Abril trouxe imediatamente a liberdade, mas a democracia foi sendo construída ao longo de cerca de uma década. Passou pelas eleições para a Assembleia Constituinte, pelo 25 de Novembro, pela alternância democrática e terminou apenas com a eleição de Mário Soares como primeiro Presidente da República civil.

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25 de Abril de 1974 – “De manhã há um golpe de Estado. De tarde há uma revolução”

Questionado sobre o título do livro “Desejo de Revolução”, de Fernando Pereira Marques, considera que existia efetivamente um desejo profundo de mudança entre os portugueses.

Segundo explica, basta observar as fotografias das manifestações populares realizadas em todo o país para perceber que a maioria das pessoas não pertencia a organizações políticas, mas sentia um enorme alívio e felicidade pelo fim da ditadura.

O próprio recorda a experiência vivida no Porto, onde se encontrava na clandestinidade.

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As falsificações atuais de momentos históricos

Pacheco Pereira manifesta preocupação com aquilo que considera ser um crescimento das falsificações históricas sobre a ditadura e o processo revolucionário.

Critica particularmente discursos que procuram estabelecer uma equivalência entre os excessos ocorridos em 1974 e 1975 e os 48 anos do Estado Novo. “A comparação é em si própria já uma enorme falsidade”, mencionou.

Recorda que durante a ditadura milhares de pessoas foram presas, torturadas ou morreram na Guerra Colonial, considerando impossível colocar os dois períodos no mesmo plano.

A descolonização e os retornados

Sobre a descolonização, reconhece que o processo foi traumático para muitos retornados de África, mas considera que Portugal conseguiu integrá-los de forma relativamente bem-sucedida.

Refere inclusivamente estudos académicos que comparam o caso português com os ‘Pieds-Noirs’ franceses após a independência da Argélia.

Na sua opinião, a Guerra Colonial conduziu inevitavelmente Portugal a um beco sem saída. Para Pacheco Pereira, ”nunca haveria um império colonial português”.

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O 25 de Novembro como vitória dos moderados

Considera que um dos equívocos atuais consiste em apresentar o 25 de Novembro como uma vitória da direita. Para o historiador, foi claramente uma vitória dos moderados. Destaca ainda, o papel decisivo do Presidente da República de então, Costa Gomes nos acontecimentos e adianta que na sua leitura, existiram duas derrotas naquele momento histórico.

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A propósito de uma das sessões da Feira do Livro, Pacheco Pereira destaca a importância de Melo Antunes na construção da democracia portuguesa. Sobre Melo Antunes, afirma que se distinguia dos restantes militares pela sua sólida formação política e pela influência que exerceu durante todo o processo revolucionário.

A direita contemporânea

Outro dos temas abordados na conversa com a RUC prende-se com a evolução da direita portuguesa.

Pacheco Pereira considera Jaime Nogueira Pinto uma das figuras intelectualmente mais preparadas para analisar este percurso, convidando-o para vir a Coimbra reconhecendo igualmente a sua influência sobre setores da direita atual.

Ainda assim, diferencia o pensamento de Jaime Nogueira Pinto do discurso dominante do Chega, que considera menos consistente do ponto de vista intelectual.

Um novo ciclo político

Na parte final da conversa, o historiador afirma que o mundo atravessa um período particularmente preocupante.

Na sua perspetiva, a História não evolui sempre em direção ao progresso. “Várias vezes na história da humanidade anda-se para trás”.

Associa este risco ao crescimento das tendências autocráticas, ao papel de Donald Trump na política internacional e ao fortalecimento dos movimentos populistas europeus.

Critica igualmente a crescente hostilidade nas redes sociais, referindo que tem sido um dos principais alvos de ataques.

A empatia em risco

Para Pacheco Pereira, a maior ameaça atual não é apenas política, mas também moral.

Recorrendo a uma expressão de Shakespeare “the milk of human kindness” defende que a empatia é um dos pilares fundamentais da democracia.

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Críticas ao rumo do PSD

Já no final da conversa, Pacheco Pereira analisa a evolução do Partido Social Democrata. O historiador considera que o partido se afastou da identidade política definida por Francisco Sá Carneiro.

Na sua interpretação, Sá Carneiro defendia três princípios fundamentais: o liberalismo político; a doutrina social da Igreja; e um Estado capaz de garantir mobilidade social.

Recorda ainda que Sá Carneiro definiu o PSD como um partido de centro-esquerda e rejeitou qualquer integração numa frente de direita.

“O problema é que hoje as pessoas têm a boca cheia do Sá Carneiro. Não fazem a mínima ideia do que ele fez, do que ele escreveu”, concluiu.

José Pacheco Pereira é curador e moderador do ciclo da Feira do Livro de Coimbra, “O que Aconteceu em 1975 e o que Acontece hoje. Há Relação?”. Ontem, Fernando Pereira Marques falou sobre a Luar. Hoje, sábado, Maria Inácia Rezola falará sobre Melo Antunes e o Conselho da Revolução. Amanhã domingo, dia 28, o ciclo encerra com Jaime Nogueira Pinto. As sessões decorrem às 19 horas, sempre no Auditório Teolinda Gersão, com moderação de José Pacheco Pereira.

Fotografia: Maria Nolasco

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