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27.03.2026POR Maria Nolasco

A complexidade sentimental de James Blake

A liberdade exploratória de James Blake atingiu um novo patamar, deixando para trás as grandes editoras musicais e aventurando-se como artista independente. Na sexta-feira 13 deste mês de março, editou o seu sétimo álbum “Trying Times”. Num dia conotado como sendo azarento, Blake foi a nota mágica do dia.

 

Quis o meu algoritmo de recomendações musicais que só descobrisse o trabalho de James Blake já o seu álbum de estreia “Overgrown” (2013) tivesse uns 3 anos. A faixa de abertura, e que dá título ao álbum, serviu como aviso para o que se iria seguir. Profundidade, sensibilidade e uma escuridão que se iluminava com a exploração eletrónica de James Blake. Durante anos, este foi dos meus álbuns favoritos e que voltava a descobrir sempre a sua potencialidade a cada vez que o ouvia.

 

As primeiras batidas de “Trying Times” surgem e percebemos que vamos começar já com uma faixa dramática e até cinematográfica de Blake. “You’re no good to anyone dead” ecoa no início da música, e marca o tom para este trabalho. É sombrio, sim, mas também apresenta a sua sensibilidade enquanto artista, transformando-se quase num mote de superação pessoal. Percorremos muitos caminhos ao longo deste trabalho, e descobrimos as diferentes facetas de James Blake. 

 

Em jeito de ode aos temas mais antigos do artista britânico, chega “Death of Love”, uma faixa que une o Trap e RnB. Lançado primeiro como single de antecipação deste novo álbum, era um tema que já deixava qualquer um agarrado à data do lançamento do álbum. Sombrio, intenso e introspectivo, Blake usou um sample de “You Want It Darker”, do poderoso Leonard Cohen. É uma reflexão do mundo atual e da sua sociedade, com a morte do amor e a falta de esperança para tempos que se avizinham.

 

Numa ponte sonhadora e que nos restabelece a fé na humanidade, Blake apazigua corações com a melodia de “I Had A Dream She Took My Hand”. Começamos a ouvir a voz de James de forma mais límpida e real, numa preparação para o grande tema do álbum, “Trying Times”. James Blake arriscou aqui e ainda bem que o fez. Confortável com a sua voz, e com os músicos que o acompanhavam, entregou uma balada minimalista. É na simplicidade que este tema se sustenta, com a batida certa da percussão, com o tempo bem definido e que casa perfeitamente com a métrica. Esta sim é uma música de amor, mas que não cai em clichês. É a união de todos os elementos que a compõem, e que nos fica a ecoar na cabeça. Tal como o refrão, “I’m an eyesore/You’re a sight for sore eyes.”.

 

É a partir deste ponto que surgem faixas mais leves, pondo Blake em pausa a sua veia mais sombria. “Doesn’t Just Happen” conta com a participação de Dave, e que canaliza as inseguranças de Blake neste tema. As diferentes camadas e texturas que James Blake usa ao longo deste álbum não passam despercebidas, relembrando-nos que o artista britânico vai para além de músico e compositor – a produção é também uma das suas armas fortes, e que já o fez trabalhar com nomes como Kendrick Lamar, Frank Ocean, Rosalía, Beyoncé, Travis Scott, entre outros.

Num texto que já vai longo, destaco só mais um tema deste álbum, “Rest of Your Life”. As batidas house são acompanhadas por uma linha de piano que não se mantém estática, viajando pela escala de forma que parece descontrolada. É um caos musical bem conseguido, em que a voz de Blake surge como forma de controlar esta desordem.

 

“Trying Times” é uma complexidade de sentimentos retratada nestas 13 faixas. Um trabalho que fala sobre a fragilidade do mundo contemporâneo, a resiliência emocional e uma procura constante por conexão emocional nesta confusão em que vivemos. O trabalho de James Blake sempre me soou muito introspectivo, e este álbum é a continuação desse sentimento, acompanhado por paisagens sonoras etéreas. A beleza deste longa duração é a aliança entre os sons eletrónicos e os mais naturais. Há espaço para tudo, desde sintetizadores até um conjunto de cordas e piano. E o fio condutor é a voz de Blake, que nos guia pela confusão que criou, mas que luta contra ela com uma serenidade melancólica.

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