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“Embarcação do Inferno” celebra 10 anos em cena, 250 representações e 26165 espetadores
O espetáculo apresentou-se ontem no Teatro da Cerca de São Bernardo em sessões para escolas e público em geral. A coprodução entre a Escola da Noite e o Centro Dramático de Évora surgiu para assinalar 500 anos da estreia da obra vicentina e tem sido retomada ao longo da última década, ora em Coimbra ora em Évora e outras localidades.
Após o espetáculo da obra de Gil Vicente, realizado ontem, dia 6 de fevereiro, durante a manhã, decorreu uma conversa entre os atores do espetáculo e alunos do Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, num encontro que destacou a importância do teatro como ferramenta educativa e cultural.
A apresentação para o público em geral, às 19 horas, marcou o momento simbólico da 250.ª sessão do espetáculo, um número pouco comum no panorama teatral português.
Um trabalho continuado
Durante a conversa, os atores explicaram que este é um espetáculo que regressa regularmente aos palcos, ao contrário do que acontece com a maioria das produções teatrais. Essa continuidade permite um aprofundamento do trabalho artístico e uma relação mais sólida com o texto e com as personagens.
Segundo os intérpretes, o teatro de Gil Vicente coloca desafios constantes aos atores, exigindo atenção ao gesto, à voz e à ação em cena. Apesar de se tratar de um texto com mais de cinco séculos, a obra continua a revelar atualidade, sobretudo através da crítica social e moral que atravessa as diferentes personagens. José Russo ator, encenador e diretor do CENDREV – Centro Dramático de Évora explica que o teatro de Gil Vicente é um teatro de atores.
A reação do público escolar
Os alunos do Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel participaram ativamente na conversa, colocando questões sobre o processo de ensaio, a construção das personagens e o funcionamento das companhias de teatro. Alguns referiram que o espetáculo contribuiu para uma melhor compreensão do texto, que faz parte do programa curricular do 9.º ano.
Entre os aspetos mais destacados pelos estudantes estiveram as críticas à sociedade da época, nomeadamente à hipocrisia religiosa, à injustiça social e à exclusão de determinados grupos. Personagens como o Frade, o Parvo Joane e o Judeu foram apontadas como exemplos centrais dessas críticas, que continuam a ser compreensíveis para o público atual. Salvador, Dinis, Joana e Diogo falam-nos das personagens preferidas.
Teatro e serviço público
Os atores abordaram também o papel das companhias de teatro enquanto estruturas de serviço público na área da cultura. Explicaram que o trabalho desenvolvido é financiado através de concursos públicos, apoio das autarquias e fundos provenientes dos impostos, permitindo a apresentação regular de espetáculos, a circulação pelo país e a ligação às escolas. José Russo entende que as companhias de teatro também prestam serviço público de cultura.
Neste contexto, as sessões destinadas ao público escolar assumem particular relevância, uma vez que aproximam os alunos do teatro profissional e complementam o trabalho desenvolvido em sala de aula.
A perspetiva da escola
A professora Alexandra Gaspar, do Agrupamento de Escolas Rainha Santa Isabel, explicou que a ida ao teatro faz parte do Plano Anual de Atividades da escola e está articulada com as aprendizagens essenciais. Segundo a docente, a adesão dos alunos é elevada, mesmo tratando-se de uma escola inserida num Território Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP). A professora de ensino especial explica a motivação dos alunos.
A professora sublinhou ainda a importância de sensibilizar os jovens para a cultura e referiu que a escola mantém um clube de teatro, tendo já trabalhado o “Auto da Barca do Inferno” em contexto escolar, um dos textos que deu origem à peça “Embarcação do Inferno”. O contacto direto com o espetáculo profissional é visto como uma mais-valia no processo de aprendizagem.
Um encontro entre palco e plateia
No final a RUC esteve à conversa com alguns alunos, que partilharam as suas impressões sobre a peça e falaram das suas ambições futuras, maioritariamente fora da área artística. Ainda assim, o contacto com o teatro foi apontado como uma experiência enriquecedora, que contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico e para o alargamento dos horizontes culturais.
O encontro reforçou a importância da ligação entre teatro, escola e comunidade, mostrando que obras clássicas como o Auto da Barca do Inferno continuam a ser um ponto de partida relevante para a reflexão sobre a sociedade contemporânea.
“Embarcação do Inferno” contou com as interpretações de Ana Meira, Igor Lebreaud, Jorge Baião, José Russo, Maria Marrafa, Miguel Magalhães, Ricardo Kalash e Rosário Gonzaga. Antes também fizeram parte do elenco Maria João Robalo, Rui Nuno e Sofia Lobo, substituídos/as por razões de saúde.
O cenário tem a assinatura de João Mendes Ribeiro e Luísa Bebiano. Figurinos e bonecos são de Ana Rosa Assunção. O desenho de luz é de António Rebocho e a música original de Luís Pedro Madeira. A peça, foi apresentada em 15 localidades portuguesas e representou Portugal no Festival Internacional de Teatro Clássico de Almagro, em Espanha.
Nota: Crónica escrita com ferramentas de transcrição e de IA com revisão pela editora
Fotografia: Paulo Nuno Silva
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