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Amarelo Silvestre apresenta “Diário de uma República III – A Casa Morreu” no TAGV

Projeto artístico pensado à escala de uma década cruza teatro e fotografia para retratar Portugal contemporâneo. Diário de uma República, da Amarelo Silvestre já abordou Justiça e Trabalho. A terceira peça “A Casa Morreu” chega ao TAGV, esta sexta-feira, dia 6 de fevereiro, às 21h30.

Desde 2020, a estrutura Amarelo Silvestre desenvolve “Diário de uma República”, um projeto artístico que cruza teatro e fotografia para refletir sobre Portugal ao longo de uma década. O projeto materializa‑se numa série de espetáculos bienais, cada um dedicado a um tema central da vida coletiva. A RUC esteve à conversa com Fernando Giestas, da direção artística do projeto.

Concebido como uma viagem prolongada pelo território e pelas suas tensões sociais, o projeto propõe, a cada dois anos, um novo espetáculo dedicado a um grande tema estrutural da vida coletiva portuguesa.

Depois de “Justiça” (estreado em 2021) e “Trabalho” (2023), o terceiro capítulo, “A Casa Morreu”, estreou em 2025 em Loulé e debruça‑se sobre a problemática da habitação. Segue‑se um quarto momento, atualmente em fase de pesquisa e residências artísticas, dedicado à Democracia, com estreia prevista para 2027.

Um olhar artístico sobre o território

A génese do projeto remonta a 2018, quando a equipa começou a equacionar como poderia pensar o país não a partir de uma abordagem documental ou jornalística, mas mediante um olhar artístico. Para isso, a Amarelo Silvestre convidou os fotógrafos Augusto Brázio e Nelson d’Aires, cuja prática se centra numa relação profunda com o quotidiano e os territórios.

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Em cada edição, a equipa realiza residências artísticas em diferentes pontos do país. Para a “A Casa Morreu” estiveram em locais como Loulé, Almada, Coimbra, Covilhã ou Nelas, recolhendo fotografias e materiais dramatúrgicos diretamente no terreno. Esse material foi depois trabalhado, dando origem a um espetáculo que nasce da fricção entre imagens, textos, testemunhos e linguagem teatral.

Apesar de a fotografia desempenhar um papel central, “Diário de uma República” não se propõe como um projeto documental ou jornalístico no sentido clássico.

Ainda assim, o tempo confere inevitavelmente a estas imagens um valor documental: são registos de um país num determinado momento, que no futuro permitirão reconhecer traços do presente.

A fotografia em palco e a caixa‑arquivo

Parte das fotografias recolhidas integra diretamente os espetáculos, funcionando como material dramatúrgico em cena. Paralelamente, o projeto inclui uma publicação singular, uma caixa arquivadora que reúne imagens e textos de cada edição.

Pensada para acompanhar os dez anos do projeto, esta caixa existe em tiragem muito limitada (100 exemplares) e assume-se mais como objeto artístico e ferramenta de divulgação do que como produto comercial.

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Embora não esteja pensada como exposição acessível ao público durante os espetáculos, a caixa tem sido disponibilizada a teatros e instituições culturais, funcionando como um prolongamento material do projeto.

A Casa Morreu: a crise da habitação em cena

O terceiro espetáculo, A Casa Morreu, parte de uma constatação inquietante: a transformação da casa de espaço de vida em produto de mercado. A dramaturgia aborda múltiplas dimensões da crise habitacional, desde a mercantilização extrema do alojamento até formas de habitação profundamente desumanizadas.

Um dos conceitos que mais marcou o processo de pesquisa foi o da “cama quente”: camas alugadas por horas, usadas sucessivamente por diferentes pessoas, sem condições mínimas de dignidade. Prática existente em cidades como Lisboa e Porto, este fenómeno simboliza, no espetáculo, o ponto em que a ideia de casa enquanto lugar de intimidade e proteção se dissolve quase por completo.

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O espetáculo aborda ainda a proliferação de casas móveis, particularmente visível no Algarve, onde rendas elevadas empurram populações — muitas vezes migrantes — para soluções habitacionais precárias, ainda assim com custos elevados. Noutras zonas, como Almada ou Coimbra, surgem problemáticas associadas às barracas, à pobreza urbana e à segregação social.

A crise da habitação é apresentada como um fenómeno transversal, com variações territoriais, mas com efeitos comuns: casais separados obrigados a coabitar, jovens impedidos de estudar longe da sua terra de origem, populações empurradas para fora dos centros urbanos num efeito dominó difícil de travar.

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Um tema que encontra eco no público

A receção do espetáculo tem revelado um forte reconhecimento por parte do público, ainda que difícil de quantificar para além da experiência em sala. Ainda que a reação em sala seja difícil de medir, a equipa sente que o tema toca diretamente a experiência de quem assiste. A casa surge como o último reduto de segurança individual, e a sua instabilidade gera uma inquietação profunda, partilhada por diferentes gerações.

Mais do que apresentar respostas, “A Casa Morreu” expõe um mal-estar coletivo, convidando à reflexão sobre um problema que afeta não apenas a esfera económica, mas também a vida emocional, familiar e social.

Democracia será o próximo tema

O quarto “Diário de uma República” está ainda numa fase inicial, mas o tema da Democracia impôs-se de forma clara face ao contexto atual. Se em 2020 a democracia não parecia um assunto urgente, hoje a sua fragilidade tornou-se evidente, tanto em Portugal como a nível internacional.

O novo espetáculo irá interrogar as derivas contemporâneas dos regimes democráticos, onde práticas autoritárias coexistem com sistemas formalmente democráticos. A erosão lenta de direitos, a censura subtil, a desconfiança crescente nas instituições e o sentimento de abandono por parte do Estado são algumas das questões que a equipa pretende explorar.

Tal como nas edições anteriores, os mesmos fotógrafos e grande parte da equipa artística mantêm-se no projeto, garantindo uma coerência estética e conceptual.

“Diário de uma República” é pensado como um único percurso de dez anos, e não como uma sucessão de espetáculos independentes: há um fio condutor, uma ambiência comum, um acumular de camadas.

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Um retrato artístico de Portugal contemporâneo

No final, “Diário de uma República” propõe-se como um retrato artístico de Portugal em transformação. Justiça, trabalho, habitação e democracia surgem como temas incontornáveis de uma década marcada por profundas tensões sociais. Quando, em 2040, se olhar para trás, estes espetáculos poderão ser lidos como sinais claros das preocupações de um país em determinado momento da sua história.

Mais do que documentar, o projeto interpela. E fá-lo a partir do palco, da imagem e da escuta atenta dos territórios e das pessoas que os habitam. “A Casa Morreu” chega ao Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), esta sexta-feira, dia 6 de fevereiro, às 21h30.

Fotografia: Nelson d’Aires

Nota: Crónica escrita com ferramentas de transcrição e de IA com revisão pela editora

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