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O que fica quando tudo passa devagar em Ar.rasto

“Ar.rasto” de Xana Sousa inaugura sábado, dia 24 de janeiro, às 15 horas, na Casa das Artes Bissaya Barreto, na Castro Matoso. Vai estar patente até 28 de Março. Pode ser visitada de Terça a sábado das15H00 — 19H00 e tem entrada Livre

Antes da exposição, antes das obras, antes até da palavra Ar.rasto, houve um pedido simples: “Podes falar um bocadinho para eu ver aqui os níveis?”. E talvez seja aí que tudo começa. Ajustar níveis. Aproximar o microfone. Chegar mais perto. Afinar a escuta.

Na rádio, como na arte, nada acontece sem esse primeiro gesto humilde: parar para ouvir.

Na Casa das Artes da Fundação Bissaya Barreto, uma casa que já foi corpo — consultório, laboratório, lugar de passagem de vidas — inaugura-se uma exposição que pede exatamente o contrário da pressa. Ar.rasto, de Xana Sousa, não se impõe. Não grita. Não compete. Fica. Como ficam os restos depois da cheia, como ficam os objetos que já não servem mas ainda dizem.

Xana fala do arrastar como quem fala da vida: acumulamos pedaços. Pessoas deixam marcas, os lugares ficam em nós, os objetos guardam memórias que não pediram para guardar. Nada passa incólume. Tudo deixa rasto. E talvez a beleza esteja aí — não no que é intacto, mas no que sobrevive transformado.

A curadoria de Laura González Palácios acompanha esse gesto com uma ética clara: silêncio visual num mundo saturado, sobriedade como forma de resistência. Na sua galeria-casa, em Barcelona, e agora nesta casa em Coimbra, interessa-lhe uma arte que sabe estar. Que não é só obra, mas processo. Não é só resultado, mas cuidado.

E cuidado é uma palavra que atravessa toda esta exposição sem nunca ser dita em voz alta.

Está nos herbários feitos desde a infância, plantas secas com paciência para durar décadas. Está nos papéis da Burda, revistas das mães e das avós, onde o tempo tinha outra textura — tempo para cortar, coser, errar, refazer. Está na técnica do plissado, herdada da avó modista, agora deslocada para o papel, transformando moldes em desenho tridimensional. Está na cera das abelhas, recolhida sem roubo, em diálogo com quem cuida.

Nada aqui é extraído à força.

A exposição pede ao corpo que se mova com atenção. Laura fala da circulação, do percurso, do equilíbrio entre peças. Não é uma acumulação caótica: é uma depuração lenta. Uma pequena retrospectiva que não fecha ciclos, mas mostra coerência. Uma vida inteira a escutar materiais até eles se tornarem outra coisa.

Talvez por isso faça tanto sentido o diálogo com o Jardim Botânico. As plantas medicinais, o arquivo do antigo médico, a ideia de caminhar antes ou depois de ver. A Casa das Artes não é um cubo branco: é um organismo com memória. E Ar.rasto entra ali como quem não quer apagar nada, só conversar.

Quando a conversa chega à beleza, ninguém foge da pergunta difícil. É importante? É perigosa? Laura defende-a, com reservas. Xana responde com a experiência. Fala da perda, da dor, do aborto. E diz, com uma serenidade desarmante, que mesmo no pior cenário se pode aprender a ver beleza — não como ornamento, mas como sentido. Como sobrevivência. Como transformação.

Nada é romantizado. Tudo é vivido.

No final, há futuro — mas um futuro em pausa. Uma maternidade que se aproxima. Um tempo de recolha. A certeza de que criar também é saber parar. De que nem tudo precisa de ser mostrado agora. Algumas coisas precisam apenas de tempo para assentar.

Talvez seja isso que esta exposição oferece: não respostas, mas um ritmo. Um convite raro para desacelerar, olhar com atenção e aceitar que somos feitos dos restos, dos gestos repetidos, das histórias que os objetos continuam a contar quando finalmente aprendemos a escutá-los.

E tudo começou, afinal, com um ajuste de níveis, como na rádio. A exposição “Ar.rasto” de Xana Sousa inaugura sábado, dia 24, às 15 horas na Casa das Artes Bissaya Barreto na Castro Matoso. Vai estar patente até 28 de Março. A inauguração conta ainda com uma caminhada no Jardim Botânico.

Nota; Crónica construída com auxílio de IA através de ferramenta de transcrição da conversa e edição posterior

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