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A camada espiritual e pessoal da criação sonora – Semibreve dia 3
No terceiro dia de Semibreve fomos convidados a escutar e refletir sobre as composições sonoras que preenchiam os espaços da cidade de Braga. Regressamos a um dos sítios mais intrigantes que alberga o festival, fomos encadeados por espetáculos visuais e dançamos até não conseguirmos mais. A equipa da RUC conta agora como foi o terceiro dia de Semibreve.
Ainda com o corpo a recuperar da segunda noite de Semibreve, sentamo-nos na Casa Rolão para uma sessão de deep listening com a artista norte-americana Lyra Pramuk – nome que iria encerrar a noite na blackbox do gnration. Num workshop, masterclass ou até mesmo palestra – não conseguimos decidir a melhor definição – que quase pareceu espiritual para Lyra, fomos convidados a escutar, sentir e refletir sobre um conjunto de músicas escolhidas pelos participantes. Como que pessoas à volta da fogueira, o grupo ia comentando e mandando para o fogo as suas interpretações, umas mais objetivas, outras mais sonhadoras. Foi um momento muito confortável, com uma dinâmica bastante melosa e que nos fez pensar e escutar os temas muito para além da vertente sonora.

Workshop Lyra Pramuk
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
A composição funciona como uma busca pessoal, vagueando por caminhos imaginários que não sabiam ser possíveis de existir. E a performance é a exteriorização dessa procura interna, partilhada com uma audiência atenta e imersa. E atrevo-me a afirmar que a apresentação de Ava Rasti cai nesta descrição. Num dos espaços mais bonitos e intrigantes que acolhe concertos do Semibreve – a Capela da Imaculada Conceição – escutamos o trabalho da artista iraniana, “The River”, que se fez acompanhar por um quarteto de cordas, com Filipa Abreu e Vânia Oliveira no violino, e Tiago Mendes e Catarina Coelho no violoncelo. Divagando entre uma sensação de tranquilidade e o peso da sonoridade, Rasti contou-nos a história do rio Piave – rio localizado no norte da Itália e palco de duas batalhas na Guerra Napoleónica e na Primeira Guerra Mundial. Sentimos a luta interna da artista, enquanto explora os fios musicais de um local que tanta paz lhe trouxe, mas manchado pela violência passada. Um trabalho que quase soa a um caminho circular com o início e o fim a misturarem-se, conseguimos perder a noção do tempo e imaginar as margens deste rio cheio de mágoa.

Ava Rasti
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
O primeiro concerto de sábado na mítica sala de espetáculos do Theatro Circo, trouxe uma colaboração peculiar: Lucy Railton, acompanhada por Charlie Hope e pelos visuais de Rebecca Salvadori, vieram apresentar “Not a Word From Me”. A performance destacou-se pela sua estrutura fragmentada, composta por diferentes momentos performativos em que Lucy Railton se movia pelo palco, interagindo com objetos e instrumentos dispersos, criando pequenas narrativas imersivas em torno de cada elemento sonoro. O espetáculo de luz de Charlie Hope e as projeções cinematográficas de Rebecca Salvadori completaram a atmosfera, dando forma a um universo sensorial coeso. Salvadori regressou assim ao Semibreve e ao Theatro Circo, depois da sua colaboração no ano anterior com Saint Abdullah e Eomac.

Lucy Railton, Charlie Hope e Rebecca Salvadori
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Logo de seguida, Emptyset surpreendeu o público do Theatro Circo. No palco, James Ginzburg e Paul Purgas apresentaram “Dissever”, o seu mais recente trabalho. Uma performance que iluminou um cenário de ruptura e tensão. Através da exploração intensa da distorção sonora, Emptyset conduziu o público por uma viagem sonora transcendente, acompanhada pelo espetáculo de luz criado por Marcel Weber/MFO. A sua intervenção visual impôs um ambiente imersivo e monumental na sala: para quem se encontrava na plateia, as projeções erguiam-se como um céu, para quem assistia dos camarotes, formavam um chão luminoso. Uma performance belíssima e verdadeiramente à altura do Theatro Circo, onde a fusão entre som e luz atingiu um equilíbrio de natureza quase metafísica.

emptyset
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
A última noite no gnration abriu com Nazar, artista que nos mostra as suas raízes angolanas nos trabalhos. Chegou até à blackbox para apresentar o seu último trabalho, “Dimilitarize”. Entramos na mente de Nazar e escutamos as suas mágoas e batalhas internas, numa intensidade sonora que chega mesmo a ser crua e obscura. O uso do capuz em palco e de uma parka completamente fechada, transmitia a sensação de que Nazar estava a entrar um caminhos pessoais e desconfortáveis de enfrentar mas, que mesmo assim, nos queria cantar a partilhar. Contudo, a plateia que estava diante do artista não se deixou libertar e sentir as composições de Nazar através de movimentos soltos do corpo. Uma música carregada de sentimento e partilha que não foi recebida por uma pista de dança, como esta apresentação pedia.

Nazar ©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
O segundo nome a preencher a blackbox foi nada mais nada menos do que um dos maiores nomes desta edição do Semibreve, e diria até da música eletrónica: µ-Ziq & ID:Mora, uma colaboração que surgiu no âmbito da celebração dos 30 anos da editora Planet Mu. Planet Mu foi criada por Mike Paradinas (µ-Ziq), uma editora que inicialmente funcionava para lançamento dos trabalhos do mesmo, e que com o tempo foi recebendo dos mais variados artistas de música eletrónica (Venetian Snares, Luke Vibert e Jega, por exemplo). Dos maiores pioneiros do movimento IDM (Intelligent Dance Music), tem um lugar muito precioso na história da música eletrónica, tanto que o álbum “Grunch”, trabalho que µ-Ziq apresentou ao vivo nesta celebração, tem o selo número 465 desta editora. Já ID :Mora é um artista visual cujo trabalho explora de forma hipnótica a relação entre forma e luz, manipulando surrealmente formas fluidas e animações 3D para construir narrativas de carácter absurdista.
A colisão entre estes artistas foi uma das performances mais impressionantes e divertidas desta edição do Semibreve, onde o público abanou o corpo ao som do mais rico e puro IDM, drum n bass, jungle e breakcore, e deslumbrou-se com um espetáculo visual animado e mais que impressionante: uma performance de deixar qualquer um de boca aberta.
Fica apenas a lamentar que uma das performances principais do cartaz deste ano tenha acontecido com uma frontline praticamente vazia, enquanto o público que a poderia ter preenchido aguardava incansavelmente numa fila interminável para tentar entrar na blackbox do gnration.

µ-Ziq & ID:Mora
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Quase que em formato de círculo, terminamos a terceira noite de semibreve com quem o começamos – Lyra Pramuk, aqui em estilo de b2b e acompanhada por Krzysztof Bagiński. Confundidos pela mudança para o horário de inverno nesta noite, não foi isso que parou o público de dançar. Não conseguimos definir este DJ Set, foi uma amálgama de surpresas e influências – até tivemos direito a “Ray of Light” da Madonna. Mas conseguimos dizer que foi presenciar a união de dois artistas na partilha dos decks, com o objectivo de fechar esta noite de forma leve e divertida.

Lyra Pramuk b2b Krzysztof Bagiński
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
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