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A bolha digital do Semibreve – dia 4
O último dia de Semibreve foi a confirmação dos terrenos que andámos a testar nos dias anteriores: a criação sonora e visual andam sempre de mãos dadas neste festival, e são constantemente levadas aos limites da exploração. Com três concertos no bolso, a equipa da RUC resume as horas finais de mais uma edição de Semibreve.
Recebidos por um dia que amanheceu soalheiro, o corpo ia acordando para o último dia de Semibreve. Antes do Theatro Circo nos acolher uma última vez, fomos até ao Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho. Envoltos na escuridão da sala, com janelas que pareciam que não deixavam entrar os raios de luz, uma mesa no centro esperava Yara Asmar – a multi-instrumentalista libanesa.
Acompanhada por um acordeão e um metalofone, fez-nos sair da bolha do digital e voltar a sons mais analógicos, numa construção sonora que se traduziu na apresentação de “Stuttering Music”. Asmar explora os instrumentos de uma forma muito pessoal, à qual adiciona os sons metálicos e eletrónicos, culminando num trabalho sólido e sonhador. Entre as oscilações vibrantes das composições criadas por Yara, fomos transportados para o seu imaginário, abraçados por uma camada muito nostálgica do seu som. Agora, e com a devida distância do concerto para reflexão, consigo compreender que não fomos a um lugar específico durante esta apresentação. A paisagem sonora construída por Yara é transversal à plateia que a escutava, apoiada pelo sentimento quase arrebatador de saudade. Mesmo quando eram extraídos os sons mais baixos do metalofone, sentíamos cada nota de forma profunda. Yara Asmar tornou-se numa das surpresas desta edição de Semibreve, abrindo o último dia de festival de forma exímia.

Yara Asmar
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
No Theatro Circo já as pessoas começavam a encher a sala, toda a gente queria um bom lugar para uma das atuações mais esperadas deste ano: Actress & Suzanne Ciani a apresentarem “Concrète Waves”. Um projecto que mostra um encontro surpreendente e inédito entre estes dois nomes essenciais da música eletrónica. Suzanne Ciani é uma artista com um percurso artístico já de muitos anos, influenciado e continuando a inspirar várias gerações de artistas do ramo da eletrónica. Apesar da passagem do tempo, o seu som permanece mais do que relevante, e esta colaboração com Actress – um nome atual e de grande peso na cena contemporânea da música eletrónica – veio comprovar isso mesmo. Os dois gigantes sentados frente a frente, Suzanne Ciani rodeada pelo seu turbilhão de sintetizadores e Actress em frente ao seu portátil, criaram, quase de forma teatral, uma narrativa sonora eletrónica profundamente imersiva. O cenário era simples, mas carregava uma narrativa interessante: a diferença entre os dispositivos de produção musical já sugeria uma história. O som parecia quase uma conversa musical, criando uma paisagem sonora que levava o público numa espécie de viagem de carro, com os sons a circularem à volta das cabeças da plateia. Foi uma experiência única, só prejudicada de vez em quando pelo sistema de som que quase se engasgava com uma trilha sonora tão rica e intensa que parecia impossível de controlar.

Actress & Suzanne Ciani
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Grand River, projeto de Aimée Portioli, encerrou a edição deste ano do Semibreve com um concerto que cai nos moldes já conhecidos do festival – exploração sonora com uma forte componente visual. “Turning the wind” foi o trabalho apresentado neste fim de tarde, que trouxe o elemento vento até ao palco do Theatro Circo. Num crescendo constante de intensidade, povoado por diversas texturas, Grand River preencheu a sala com sons analógicos e digitais. Às texturas sonoras e quase arrebatadoras, a saturação das luzes ia oscilando entre laranja e vermelho, com uma intensidade que quase não deixava olhar para o palco. Um concerto que fechou a programação do festival de uma maneira quase que familiar para as dezenas de pessoas que rumam a Braga no último fim de semana de outubro.

Grand River
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Esta edição do Semibreve deu de tudo um pouco e fez justiça ao seu conceito: música experimental onde o público realmente consegue presenciar todos os espectros da música electrónica experimental. Em quatro dias questionamos a noção de tempo, ficando suspensos nas criações visuais e sonoras dos artistas que povoaram a programação do Semibreve.
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