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António Barbosa: “Os sonhos e expectativas dos adeptos são os nossos” (Parte I)
O treinador da Associação Académica de Coimbra / OAF (“AAC/OAF”) analisa a primeira fase da época 2025/26 e revela a filosofia de trabalho que levou a Briosa à fase de subida.
“Ó Mister, nós nem sequer podemos brilhar, a bola ou é golo ou nem à baliza vai”. A queixa bem-humorada dos guarda-redes Carlos Alves e Nuno Macedo a António Barbosa resume, melhor do que qualquer estatística, a forma como a Académica construiu a primeira fase da época 2025/2026. Com o melhor ataque da Liga 3 e um apuramento relativamente folgado para a fase de subida, a Briosa procura agora a subida ao segundo escalão do futebol português.
Numa entrevista a Diogo Coroa , o treinador de 43 anos revelou os bastidores desta transformação, desde as adversidades iniciais até aos números impressionantes que colocam a Académica como uma das equipas que podem sonhar com a subida de divisão.
Quinze jogadores para 18 jogos: o início atribulado
Com sete vitórias, sete empates e quatro derrotas em 18 jogos, a Académica terminou a fase regular no terceiro lugar da Série B da Liga 3, ostentando o melhor ataque da competição com 29 golos marcados. Para António Barbosa, foi “uma primeira fase muito, muito boa”, tendo em conta “a forma como tivemos que constituir o plantel, o atraso relativamente às outras equipas no início da época” e “o número de jogadores que conseguimos fixar de um ano para o outro, que era relativamente reduzido”.
O contexto inicial era desafiante. O técnico bracarense sublinha que o plantel fechou “pela primeira vez” apenas “à sétima jornada” e que “a maior parte dos jogos” a equipa teve “15 jogadores de campo disponíveis”. Apesar das dificuldades, o trabalho foi construído “de uma forma muito gradual e a longo prazo”, espelhando “um trabalho muito bem conseguido da parte de todos”, em particular “das pessoas mais importantes no processo desportivo, que são os nossos jogadores”.
ACADÉMICA EM NÚMEROS (1.ª FASE)
- 7 vitórias, 7 empates, 4 derrotas
- 3.º lugar da Série B (apuramento garantido)
- 29 golos marcados (melhor ataque da Série B)
- XG superior em 0,6 ao segundo classificado
- Plantel fechado apenas à 7.ª jornada
- Apenas 15 jogadores de campo disponíveis na maioria dos jogos
A eliminação que virou o jogo
A eliminação da Taça de Portugal às mãos do Marialvas podia ter sido um ponto de rutura. Em vez disso, tornou-se o catalisador da mudança. Questionado sobre o ponto de viragem da equipa, que após essa derrota começou a apresentar um futebol mais consistente, António Barbosa aponta um fator decisivo: “O tempo. Temos tempo para trabalhar, temos tempo para criar sinergias”.
O treinador destaca ainda “grandes capitães e grandes jogadores que perceberam que o que estávamos a fazer estava a ser bem feito”, pessoas com “personalidade” que ajudaram a implementar as ideias no terreno. Com líderes que compraram a ideia e impuseram a sua influência no balneário, a Académica deixou para trás as hesitações e entrou numa espiral de crescimento que culminou no terceiro lugar da Série B.
Os números que fazem inveja: o ataque imparável da Briosa
Os números ofensivos não mentem. António Barbosa revelou que a Académica é “a equipa que tem o maior XG, expected goals, o número de golos, situações criadas, de longe, de longe da Liga 3”, com “mais 0,6 do que o segundo classificado”.
O XG (Expected Goals, ou “golos esperados” em português) é uma métrica estatística avançada que mede a qualidade das oportunidades de golo criadas por uma equipa, atribuindo uma probabilidade de concretização a cada remate com base em fatores como a distância à baliza, o ângulo de finalização e o tipo de jogada. Quanto maior o XG, maior a qualidade e quantidade de ocasiões criadas. No caso da Académica, liderar este indicador com uma margem de 0,6 golos por jogo significa que a Briosa não só marca mais, como cria as melhores oportunidades de toda a competição.
Esta supremacia ofensiva tem uma consequência inesperada: os guarda-redes da Académica raramente são solicitados. António Barbosa ironizou sobre esta curiosa inversão de papéis: “Há quanto tempo não se lembra de ver o nosso guarda-redes a fazer uma grande defesa?” Explicando por miúdos, o treinador recorda que numa conversa recente com os guarda-redes Carlos Alves e Nuno Macedo, estes terão dito: “Ó Mister, nós nem sequer podemos brilhar, a bola ou é golo ou nem à baliza vai”. Um desabafo irónico que espelha a boa forma da Académica nesta primeira fase.
“Ó Mister, nós nem sequer podemos brilhar, a bola ou é golo ou nem à baliza vai”
Carlos Alves e Nuno Macedo, guarda-redes da Académica
Quando os jogadores ditam o modelo
Sobre o onze titular, o técnico é perentório: “Nós temos um onze ideal desde o início. É o onze que vai ganhar”, acrescentando que “todos os jogadores podem” ser titulares, pois “têm qualidade para o fazer, acrescentando características diferentes à nossa forma de jogar”. Esta confiança no grupo tem sido fundamental para a rotatividade e gestão do plantel ao longo da época.
Uma das imagens de marca desta Académica é a construção de jogo que envolve Leandro Silva e António Montez, dois dos poucos jogadores que permaneceram do plantel anterior. A decisão de posicionar Leandro numa função de número 6, mais recuado e organizador, não nasceu de um plano pré-concebido, mas da observação atenta do treinador.
“Surge muito daquilo que é o nosso trabalho diário”, explica António Barbosa, que admite gastar “muita energia a observar os nossos jogadores, em treino e em jogo”. Para o técnico, o modelo de jogo “é algo que serve os jogadores e que vai de encontro às características dos jogadores e algo que evolui”. Se um jogador traz “algo de novo à equipa, em que a equipa seja eficaz, nós vamos buscar, vamos apropriar e vamos trabalhá-lo”. Para António Barbosa. “É mais importante que os jogadores reconheçam as relações” entre si do que “conheçam ou reconheçam as ideias do treinador”, remata António Barbosa. “Quem joga é o jogador, não é o treinador.”
“Quem joga é o jogador, não é o treinador”
António Barbosa sobre a sua filosofia de jogo
O ‘PhD’ ao serviço do futebol: quando a ciência entra em campo
Natural de Braga, António Barbosa alia a experiência no banco à formação académica sólida: é doutorado em Ciência do Desporto, com especialização em observação e análise de métodos de jogo ofensivos. Quando questionado sobre a influência do doutoramento – carinhosamente apelidado de “PhD” pelos elementos da RUC – no seu trabalho diário, o treinador admite que o diferencia “nesse sentido da observação” e ajuda-o “muito mais naquilo que é a identificação dos padrões” de jogo.
Contudo, António Barbosa faz questão de sublinhar que o fundamental são “as relações” humanas, sendo “pessoas empáticas” e procurando “tirar o melhor das pessoas que estão ao nosso lado”. O equilíbrio entre o conhecimento científico e a capacidade de liderança tem sido uma das marcas distintivas do seu trabalho na Académica.
A formação académica não serve apenas para impressionar em conferências ou entrevistas. Serve para identificar padrões que outros não veem, para ajustar em tempo real aquilo que não está a funcionar, para transformar dados em decisões táticas concretas. Mas, como o próprio admite, de nada vale a ciência sem a capacidade de liderar pessoas, de criar empatia, de construir relações de confiança dentro do balneário.
Sete empates e a busca pela eficácia nos momentos-chave
Os sete empates registados na primeira fase são um ponto a melhorar. O treinador assume que a equipa tem trabalhado “de forma recorrente algum trabalho no domínio da concentração dos primeiros minutos, dos últimos minutos”, sublinhando que “havia muitos jogadores na fase inicial de época com pouco tempo de jogo contínuo”.
Muitos desses empates foram fruto de desconcentrações em momentos cruciais – golos sofridos nos primeiros ou últimos minutos, pontos perdidos quando a vitória parecia garantida. António Barbosa identifica a falta de ritmo competitivo como uma das causas: jogadores que vinham de épocas com pouco tempo de jogo, que precisavam de readquirir a intensidade e a concentração necessárias para competir ao mais alto nível durante 90 minutos.
Agora, com maior regularidade competitiva e um plantel mais consolidado, os jogadores têm “mais confiança, mais estabilidade” para “expressar o seu jogo e a sua qualidade”, o que deverá traduzir-se em menos pontos perdidos nos momentos-chave das partidas. A evolução é notória: a equipa que começou a época com dificuldades para fechar jogos transformou-se numa máquina ofensiva que sufoca os adversários.
Reforços a caminho, mas a formação mantém-se prioritária
Com o apuramento garantido, a Académica prepara-se para enfrentar Vitória de Guimarães B, Belenenses, Mafra, União de Santarém, Amarante, Trofense e Varzim na fase de subida à Liga 2. António Barbosa anuncia que “o plantel vai aumentar, porque o tipo de competição vai mudar”, sendo “menos paragens, mais contínua, mais competitiva”.
Mas, mesmo com a chegada de reforços, o treinador garante que se manterá “na mesma espaço para os jovens da formação”, reforçando o compromisso da Académica com o desenvolvimento de talento próprio. A aposta nos jovens não é apenas uma questão de filosofia ou de marketing – é uma necessidade estratégica para um clube que pretende voltar ao futebol profissional de forma sustentável.
A segunda fase será mais exigente, mais competitiva, mais implacável. Os adversários são mais fortes, as margens de erro menores. Mas António Barbosa acredita que a base está criada, que os alicerces estão sólidos, que a equipa tem qualidade para competir de igual para igual com qualquer adversário da fase de subida.
O capítulo final está por escrever
A Briosa entra na segunda fase da temporada com argumentos sólidos: o melhor ataque da Série B, um modelo de jogo consolidado e uma equipa que cresceu jogo após jogo. Os sete empates da primeira fase, “muitos deles nos primeiros ou últimos minutos”, reconhece António Barbosa, são agora o foco de trabalho. Com maior regularidade competitiva, o treinador acredita que os jogadores têm “mais confiança, mais estabilidade” para “expressar o seu jogo e a sua qualidade”.
Vitória de Guimarães B, Belenenses, Mafra, União de Santarém, Amarante, Trofense e Varzim são os adversários que se colocam entre a Académica e o regresso ao futebol profissional. Será o “PhD” capaz de devolver a Briosa ao futebol profissional? Nós não sabemos, mas estamos ansiosos para descobrir! Não perca todos os jogos da Académica em 107.9FM e em www.ruc.pt.
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