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10.09.2026POR Maria Nolasco

Um encontro de família ou a dança dos pés de chumbo? – 2º dia Meo Kalorama 2026

O último fim de semana de Agosto trouxe, para a sua 5ª edição, o Meo Kalorama. A RUC esteve presente no segundo dia do festival, no Parque da Bela Vista, para uma noite dedicada ao hip-hop e soul com Ms. Lauryn Hill como cabeça de cartaz.

São poucas as coisas que me fazem ir para uma grande cidade em pleno Agosto, mas a curiosidade pelo Meo Kalorama falou mais alto e levou-me até Lisboa no passado dia 29, com a promessa de bons concertos e um festival para explorar. 

Sem grandes pronunciamentos da parte da organização, este também foi um dia marcado por alguns cancelamentos, divulgados durante a semana que antecedeu o festival. Unknown Mortal Orchestra foram substituídos por Dry Cleaning, que subiram a palco num horário quase que inglório – 16h00 e pouco. Horas também partilhadas por outros artistas, desta vez nacionais, e que acabam quase sempre por ficar com as aberturas de palcos nestas horas em que os recintos se encontram quase que vazios. Raquel Martins abriu o palco principal às 15h00, enquanto Femme Falafel pisou o secundário pelas 15h25. Sam the Kid com Orquestra e Orelha Negra foram outro projecto que surgiu como substituição, tendo sido chamados ao palco secundário após o cancelamento de Black Star.

Amaro, Dino & Criolo
© Gonçalo Silva

A conversa com Sam the Kid não me permitiu ver Criolo, Amaro e Dino – tendo apenas servido como música de fundo enquanto esperava pelo artista português. Sorte a minha que consegui ver este concerto em outro festival português este ano, e deixo aqui a sugestão a todos os leitores para acompanharem este projeto de celebração de ritmos e culturas afro-atlânticas.

 

A caminho do palco principal, contava encontrar uma plateia efusiva e a levantar o pó do Parque da Bela Vista durante o concerto de Vince Staples. Mas o que encontrei foi o contrário. Numa luta contra a inibição do público, o artista norte-americano de tudo fazia para arrancar alguma emoção de quem ali estava. Tirando alguns grupos na zona da frente, o público permanecia de braços cruzados a assistir ao concerto – o que não me pareceu um bom presságio para os actos que se iriam seguir nessa noite. Vince Staples move-se entre o hip-hop e o rock, num estilo muito próprio e quase que denunciado pelas guitarras e amplificadores em palco. Este é o espelho do seu novo álbum “Cry Baby”, editado este ano, e que dá um novo rumo ao trabalho de Staples. Já não é o hip-hop da west coast que domina o álbum, mas sim este híbrido criado com o rock que o artista consegue atingir de forma fluida, transpondo-o de forma distinta para a performance ao vivo.

Vince Staples
©Guilherme Cabral

A transição dos sons crus, e às vezes duros, do hip-hop para a sensibilidade do neo-soul, foi feita por Ravyn Lenae. Mais uma artista norte-americana a subir ao palco principal do Meo Kalorama, esta que foi a sua estreia em Portugal. Lenae chegou com a certeza de que iria mostrar ao público presente que era mais do que a artista da música badalada nas redes sociais “Love Me Not”, tendo deixado para último este tema. Com uma segurança em si e no seu talento, Ravyn Lenae protagonizou um concerto de 1 hora repleto de sonoridades RnB e Soul. Sabia bem movimentar-se em palco e explorar o espaço à sua volta, que se traduzia numa grande presença em palco. E, tal como Vince Staples, tentava puxar pela energia de quem ali se encontrava, mas os pés de chumbo presos ao chão voltaram a ganhar.

Ravyn Lenae
©João Silva

No palco secundário, Sam the Kid mobilizou multidões e encheu o espaço envolvente. Várias gerações uniram-se ali para escutar uma retrospectiva da discografia do artista. Sam the Kid fez-se acompanhar de uma orquestra, dirigida por Pedro Monteiro, e dos seus companheiros de longa data Orelha Negra. Já desde 2019 que leva a palco este projecto, mas sempre de forma diferente, como partilhou em entrevista. Contudo, não pode deixar de tocar alguns temas clássicos da sua discografia, como “Poetas de Karaoke”, “Sendo Assim”, “16/12/95” e “Gaia/Chelas” – que trouxe Mundo Segundo até ao palco. Apesar de não sentir muito fortemente a presença da Orquestra em palco – não sei se por problemas de acústica se por outras razões, foi bonito ver Sam the Kid actuar em casa, e para um público que finalmente respondia à energia pedida em palco.

Sam the Kid
©Guilherme Cabral

O passo foi apressado até ao palco principal para o concerto mais aguardado da noite, Ms Lauryn Hill. Contrariamente ao que se esperava, a artista norte-americana não fez o público esperar muito pela sua entrada, arrancando com o tema dos Fugees “Vocab”. A premissa deste concerto era não só a celebração da carreira desta figura incontornável do hip-hop norte-americano dos anos 90, mas também pelos 30 anos de “The Score” – o segundo último álbum editado pelos Fugees. A acompanhar Ms Lauryn Hill estava o seu parceiro dos Fugees, Wyclef Jean, bem como dois dos seus filhos, Zion e YG Marley. Um concerto que rapidamente se tornou numa reunião familiar e uma ode ao reggae (e atrevo-me a dizer à memória do avô de Zion e YG, Bob Marley).

Ms Lauryn Hill
©Duarte

O início do concerto foi tudo o que a plateia esperava, com a voz de Lauryn Hill a acompanhar a guitarra de Wyclef Jean em vários temas de Fugees, como “How Many Mics” e “The Score”. E finalmente vi um público sem medo de dançar e cantar bem alto – afinal era só preciso chegar a cabeça de cartaz para se mexerem. Ms Lauryn Hill teve o seu momento em palco mostrando que, mesmo com ligeiras alterações vocais aos temas do álbum “The Miseducation of Lauryn Hill”, a sua voz continua inconfundível. Ao cantar “Zion”, era fácil adivinhar o que se seguia. Era o momento do seu filho Zion entrar em palco e mostrar que o talento musical corre nas veias desta família. Por entre temas próprios e “Three Little Birds” (Bob Marley & The Wailers), o reggae encontrou o espaço que procurava em palco e ali se estabeleceu. Entrando com um certo nível de arrogância, YG Marley também fez questão de, não só mostrar o seu trabalho, mas também de evocar temas do avô. O segmento de reggae e o cântico a Bob Marley parecia infinito, não se  vendo a hora de Lauryn Hill regressar.

Ms Lauryn Hill & Wyclef Jean
©Gonçalo Silva

Wyclef Jean, outro dos convidados deste concerto, protagonizou o encadeamento mais estranho de músicas. Partiu de Bob Marley, para Santana, J Balvin e ainda Shakira. Certamente que foi algo inesquecível, não esperando ouvir versões instrumentais destes temas num concerto que procurava celebrar o legado de Ms Lauryn Hill e os 30 anos do segundo álbum dos The Fugees. Estes pequenos detours quebraram o ritmo do concerto, que foi resgatado nos últimos momentos com o regresso de Ms Lauryn Hill a palco, onde a euforia tomava conta do público e éramos relembrados do ponto de partida deste concerto. 

Este não era um concerto a solo de Ms Lauryn Hill, nunca o foi.  

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