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BONS SONS 2026: cinco dias a viver a aldeia
No ano em que se celebram os 20 anos desde a primeira edição do Bons Sons, o festival regressou, após um ano de pausa, à aldeia de Cem Soldos, com uma programação recheada de música nacional, resistência e de valorização dos anos que passaram, mas também dos que estão para vir. A equipa de repórteres da RUC, Clara Cardoso, Inês Santos e Maria Gaspar, abraçaram estes 4 dias de festival.
Festa de receção – Quarta-feira, 5 de agosto
Na quarta-feira, dia 5 de agosto, o Bons Sons começou a ganhar cor com a chegada dos festivaleiros à aldeia de Cem Soldos. O campismo abriu portas e, com ele, chegaram também os primeiros sinais do que seriam os próximos quatro dias de festival.
A dar início à pré-abertura desta edição, os 800 Gondomar foram os primeiros a ocupar o palco do campismo, levando consigo a intensidade e irreverência que os caracterizam. Antes do concerto, a RUC teve ainda a oportunidade de conversar com a banda, que nos anunciou, em primeira mão, o lançamento do seu próximo disco, “Auto-Stress”, para o final deste ano.
Pode ouvir a entrevista na íntegra abaixo:
Logo a seguir, Ana Markl subiu ao palco para um DJ set recheado de música nacional, prolongando a noite pelo campismo de Cem Soldos. A seleção musical manteve os festivaleiros junto ao palco e fechou a primeira noite de programação, ainda antes do arranque oficial do Bons Sons.
1º dia – Quinta-feira, 6 de agosto
Para abrir oficialmente a edição de 2026 do festival, subiu ao Palco Música Portuguesa A Gostar Dela Própria (MPAGDP) o trio feminino Serigosa que, apesar do calor que se fazia sentir, levou a aldeia de Cem Soldos numa viagem pelas raízes da Península Ibérica. Entre diferentes línguas e dialetos, as três artistas cruzaram cantos tradicionais com sonoridades contemporâneas, acompanhadas pelo acordeão, violoncelo, guitarra e percussões.
De seguida, foi no Palco Giacometti que atuaram os Líquen, banda natural de Coimbra, com quem a Rádio Universidade de Coimbra teve o prazer de conversar e de descansar no café junto ao Palco, após a sua atuação.
Naturais de Coimbra, Líquen (parte do imaginário utópico de Constança Ochoa) iluminou o primeiro dia do Festival com melodias hipnóticas que combinam os sintetizadores com nuances do jazz e do pop.
Neste transbordar de ondas quentes de mais um dia de agosto, a musicalidade dos instrumentistas com a voz doce e suave de Constança deu de beber a este público sedento de uma pausa. Com a adição da gaita de foles ao quarteto as vibrações musicais aumentaram o querer de mais uma música no final da performance.
Pode ouvir a entrevista na íntegra abaixo:
Foi também no primeiro dia de festival que a novidade desta edição, o Palco Rosa Ramalho, de localização secreta, abriu portas. Para descobrir onde se encontrava, todos os que tinham conseguido adquirir pulseira, já que a lotação era limitada, reuniram-se no Largo MPAGDP e, em conjunto, partiram à descoberta do novo espaço. Já no destino, por dentro dos campos de Cem Soldos, fomos recebidos com limonada, antes de chegarmos ao palco rodeado de natureza.
O primeiro a ocupá-lo foi ACID ACID, o projeto de Tiago Castro, composto por guitarra e vários sintetizadores, numa combinação de camadas e texturas que tão bem se adaptou ao ambiente criado.
Já a chegar ao final da calorosa tarde do primeiro dia, Miss Universo, projeto que junta Afonso Branco e André Ivo, subiu ao Palco Lopes-Graça para um concerto de plateia cheia e com um momento particularmente especial.
Perto do final, Afonso Branco sentou-se, sozinho em palco, com uma guitarra e uma estante onde repousavam as folhas que ia lendo, numa imagem que inevitavelmente remetia para o histórico “FMI”, de José Mário Branco, o seu avô.
A simplicidade do cenário, com as casas de Cem Soldos no plano de fundo, contrastava com o peso das palavras, deixando o público num silêncio atento.
Já com a brisa noturna a pairar pelo ar, as Mães Solteiras ocuparam o Palco António Variações para fazer barulho, como tanto gostam. Em conversa com a RUC, explicaram a origem deste projeto que tanto se tem destacado na música nacional, que é precisamente essa vontade de fazer barulho e de abordar temas tão presentes na sociedade portuguesa atual.
Num concerto recheado de temas do seu primeiro e, até agora, único álbum “Vamos ser breves”, lançado em janeiro deste ano, as Mães Solteiras mostraram que não serão assim tão breves, com o anúncio de um próximo disco com lançamento previsto para o início do mês de outubro.

Pode ouvir, na íntegra, a entrevista à banda Mães Solteiras, abaixo:
Mergulhados na noite do primeiro dia, deu-se um voltar atrás no tempo com os Quinta do Bill.
A banda de folk rock dos anos 80, natural de Tomar, voltou aos palcos para acalentar os corações dos seus fãs. Foi na primeira noite do Bons Sons 2026 que subiram ao palco com um reviver dos seus clássicos como “Filhos da Nação”, “Se te Amo”, “Voa (Voa)”, mas também com um equilíbrio entre momentos mais intimistas e momentos de maior intensidade. Este repertório tão presente na memória portuguesa tocado a partir dos mais variados instrumentos – flauta de bisel, violino, entre outros – despoletou, no Bons Sons, o calor tão necessário nesta noite fria de verão.
O público acompanhou várias das faixas cantadas, a uma só voz e com aplausos, num concerto especial que manteve sempre a união dos festivaleiros com os cabeça de cartaz que continuam a unir gerações com a sua música.
A fechar a primeira noite do Bons Sons, Pedro da Linha tomou conta do Palco Aguardela, trazendo consigo uma mistura de ritmos urbanos, africanos e latinos que rapidamente pôs o público a dançar até às últimas horas da madrugada.
2º dia – sexta-feira, 07 de agosto
O segundo dia acordou com a atuação de um projeto que nos é muito próximo, os Sons do Lagar com Coro da Cura. Por detrás do calor abrasador de sexta-feira, os Sons do Lagar, residentes em Coimbra, fundiram o cancioneiro tradicional português com as vozes melódicas das mulheres que integram o Coro da Cura, um projeto também ele sediado perto de Coimbra, em Serpins (Lousã). Aqui interligou-se, através da voz e dos instrumentos tradicionais, a valorização da música tradicional portuguesa, num palco que abraça esse mesmo propósito (Palco MPAGDP).
Uma atuação que fez movimentar o corpo, com as danças tradicionais e etnográficas e que curou os corações dos festivaleiros com o encerramento acapella da música de intervenção “Que bonito que seria”. Neste abraço cantado celebrou-se a paz e a liberdade, numa altura em que é cada vez mais necessário ser empático e unido com o outro.
Os Sons do Lagar – projeto que junta Carolina Rocha, Rui Gaio e Zé Miguel – conversaram com a Rádio Universidade de Coimbra de forma a darem a conhecer um pouco mais sobre este projeto e sobre a sinergia que estabeleceram com o Coro da Cura.
Pode ouvir a conversa na íntegra abaixo:
Para além da música, uma das atividades inseridas na programação do festival era a exibição do filme “Paraíso” de Daniel Mota, no Auditório Agostinho da Silva. Uma viagem emocionante pelo mundo da música eletrónica no panorama português num ambiente onde a música portuguesa fala mais alto.
Depois de terem passado pela edição deste ano do Palco RUC, os Them Flying Monkeys levaram a sua música a Cem Soldos, para um dos concertos mais intensos do segundo dia. A banda apresentou temas do seu último álbum, “Best Behaviour”, os dois singles mais recentes e ainda uma versão de “A Morte Saiu à Rua”, de Zeca Afonso. A energia do concerto rapidamente se refletiu na plateia, com vários mosh pits, várias pessoas a fazer crowd surfing e ainda, com o vocalista a descer do palco para interagir diretamente com o público.
Durante a tarde, tivemos também a oportunidade de conversar com a banda, que nos falou dos planos para o futuro, incluindo uma próxima residência artística, e partilhou ainda a sua perspectiva sobre o atual estado da cultura em Portugal.
Pode ouvir a entrevista, na íntegra, aos Them Flying Monkeys abaixo:
Foi numa das casas despidas da aldeia que a exposição “Casa sem teto” se estabeleceu. Arquivos dos 20 anos de Bons Sons encontravam-se suspensos no que restou daquele lugar repleto de memórias e de vida. Materiais de merchandise e fotografias de edições anteriores possibilitaram aos visitantes, habituais e novos, de remexer neste baú de memórias do Festival que habita Cem Soldos. Um voltar atrás no tempo onde era possível visitar esta simples casa desconstruída cujas memórias e pessoas que outrora pisaram este Festival residem em cada parede e partícula de poeira.

Quase a terminar o segundo dia, foi a vez do projeto Fidju Kitxora, nascido entre Lisboa e Cabo Verde, de abanar o corpo do público do Bons Sons. Uma atuação performática onde a eletrónica se mistura com as sonoridades do semba, funaná, kuduro e os afro-beats, sobretudo de Cabo Verde, numa fusão pulsante.
Neste momento, a madrugada já reinava no Palco António Variações onde a multidão serpenteava cada membro ao som dos ritmos de afro-house mixados por André “Xina” Coelho, o elemento de rosto escondido, e a energia dos restantes instrumentistas que rasgavam os acordes da guitarra, os pratos e tarolas da bateria e raspavam sons metálicos no ferro (instrumento de percussão com 90cm de comprimento).
Posicionámo-nos na fila da frente para sentir cada vibração das faixas tocadas e para sentir o calor e energia que provinham do Palco, repleto de movimento, alegria e festa.
Pode ouvir, abaixo, a entrevista a André “Xina” Coelho, elemento principal do projeto Fidju Kitxora, momentos antes deste pisar o Palco do Bons Sons e nos presentear com um final de noite de cortar a respiração.
Para terminar a programação do segundo dia da edição de 2026 do Bons Sons, Pedro Paulos apresentou Brandos Costumes, no Palco Aguardela. Numa viagem pelo lado mais desconhecido da música portuguesa, manteve a pista acordada até quase de manhã, fechando em grande mais um dia de festival.
3º dia – sábado, 08 de agosto
Acordar mais um dia com o calor na tenda, os insetos a cantar, enquanto o corpo se prepara para mais um dia de Bons Sons.
Ao entrarmos no recinto e no centro da aldeia, somos acolhidos por quem lá reside nos cafés, restaurantes, barracas e mercados. São estas pessoas que movimentam o festival e que asseguram o bem-estar de quem lá passa. Desde as receitas de caracóis e moelas, que nos transportam para memórias de infância até ao primeiro gole da bebida tradicional da zona de Tomar, o Mouchão.
Porém, caminhamos para perto do fim com as temperaturas a rebentarem a escala e a música a ecoar em cada ruela da aldeia de Cem Soldos. Por entre a multidão, chegaram-nos voluntários a socorrer os festivaleiros com esguichos de água para se refrescarem durante os concertos.
Este terceiro dia abre com as atuações de um trio que cruza a música com a palavra dita, Suma, no Palco MPAGDP, seguida, uns passos mais à frente, no Palco Giacometti, da voz contemplativa de Lisa Sereno e do CRUA, um grupo musical composto por seis mulheres que reinterpretam o reportório tradicional ibérico, através do adufe e da voz, estas que pisaram o Palco Amália.
Pode ouvir a conversa com Lisa Sereno, na íntegra, abaixo:
Num formato mais intimista, caminhamos durante cerca de 15 minutos, por umas ruas fora do recinto para assistir à atuação de Calcutá (projeto sónico de Teresa Castro), no Palco Rosa Ramalho. Este palco inaugurou esta edição, em homenagem à escultora Rosa Ramalho e localiza-se num espaço que fora gentilmente cedido pelo proprietário para este feito.
Neste ambiente calmo e onde a natureza fala mais alto que a voz humana fugimos da azáfama do recinto e transportamo-nos para um concerto muito sensível, onde um leque de instrumentos e a voz suave de Teresa Castro abraçaram o violoncelo de Maria Amado e a percussão, a cargo de Luís Barros.
Uma paisagem sonora que interliga sonoridades contemporâneas de folk, drone, ambient e música experimental com influências no espectro ancestral, através dos instrumentos usados na Música Clássica Indiana ou no canto polifónico. Neste concerto apresentou o seu primeiro álbum “Soon After Dawn”, lançado este ano pela Ovo Estrelado Records.
Numa viagem etérea por dentro deste álbum com 8 faixas, emergiu o cantar de um pássaro para se juntar a este momento tão idílico. Neste mergulho profundo trazido por Calcutá, a contemplação reinou para que os ouvidos escutassem, somente, cada nota, cada acorde e cada batuque onde a harmonia entre o caos e a ordem reside.
A passo apressado regressamos à aldeia para o indie pop-rock dos Marquise, que atuaram no Palco Giacometti.
Com o habitual moche, a banda sediada no Porto fez abanar a multidão com as músicas mais conhecidas “Meninas Bonitas” e “Acordei Mal”, mas também com o seu primeiro álbum “Ela caiu”, lançado em 2025. Pinceladas do pop dos anos 80 aliam-se ao rasgar do rock dos anos 90 com a voz aveludada da vocalista.
Em entrevista falaram-nos sobre o seu percurso, como surgiu a identidade dos Marquise enquanto banda e a antevisão desta primeira vez a atuar no solo do Festival Bons Sons.
Pode ouvir, abaixo, a conversa com o Marquise na íntegra:
A noite avizinhava-se, mas o sol ainda pincelava o céu azul com a atuação de Jorge Cruz, fundador do grupo Diabo na Cruz que regressou, após 13 anos, aos discos em nome próprio com “Transumante”.
No Palco Zeca Afonso cada melodia ganhou espaço para respirar de forma a que a multidão acompanhasse esta viagem melódica. Como cabeça de cartaz do terceiro dia, que esgotou, Jorge Cruz deslumbrou os seus ouvintes com uma atuação sem excessos.
Seguiu-se Luta Livre no Palco Lopes-Graça que trouxe, mais uma vez, o confronto e a irreverência da música portuguesa de intervenção. Luís Varatojo, músico e fundador de nomes como Peste & Sida e A Naifa, descobriu neste formato a solo uma nova forma de cantar e vocalizar aquilo que é preciso ser dito.
De volta ao relvado artificial do Palco Zeca Afonso, sentámo-nos à espera da atuação que cruzou os Lavoisier com o Coro Polifónico da Pedreira. A expressividade e os maneirismos de Patrícia Relvas, uma das integrantes do duo Lavoisier juntamente com Roberto Afonso, fixou o olhar de quem assistia.
Numa primeira parte o duo, expandido com mais três músicos, atuou apenas com a voz de Patrícia e de Roberto, numa performance que fez entrelaçar a música tradicional portuguesa com sonoridades místicas. Já na segunda parte do concerto, entraram as vozes do Coro Polifónico da Pedreira, que se aliaram ao quinteto para “declamar” as músicas do mais recente álbum “era com h”, cujas faixas foram compostas por dez nomes da poesia contemporânea.
Ao fechar a atuação o cancioneiro tradicional e canto da romaria portuguesa, “Sr. do Almurtão” (entrada no álbum “Projecto 675”) foi trazido ao de cima com a força do Coro e do Quinteto. Um abraço cantado onde a resistência e a sensibilidade voltaram a emergir, com ainda mais força.
O seguinte verso, “minha boca se vai rindo e os meus olhos vão chorando”, da faixa “Sr. do Almurtão”, foi repetido várias vezes aquando do final do concerto, com todo o público unido a bailar em uníssono e a cantar a uma só voz. Aqui se viu, a união que a música traz.
Já a lua se mantinha bem presente no céu estrelado de Cem Soldos quando teve início o concerto da banda proveniente do underground lisboeta, que pisou o Palco António Variações, os Mordo Mia.
Com sonoridades que cruzam o rock experimental com outros géneros como o noise, o punk, o no-wave, o soul e o jazz a banda trouxe ao Bons Sons a irreverência e a singularidade que tanto a caracteriza.
A sinergia entre as músicas que constituem o seu mais recente lançamento “Chumbo Côncavo”, a variedade de instrumentos usados pela banda – desde guitarras a violino – e a performance quase teatral, mantiveram emersos os seus ouvintes neste mergulho experimental de faixas com vontade própria que aceleravam e/ou acalmavam os corpos do público.

Pode ouvir, abaixo, a conversa com o Mordo Mia na íntegra:
Seguiu-se no Palco Lopes-Graça a atuação ritmada dos Cacique’97. Um coletivo que reclama o afrobeat e a resistência na sua musicalidade.
Sucedeu-se um voltar às origens com os conimbricenses, Victor Torpedo & The Pop Kids. Em conversa com os integrantes do projeto, Victor Torpedo contrasta a sua carreira antes e depois da união com os The Pop Kids.
Um concerto de alta rotação onde os riffs de guitarra e a espontaneidade das melodias encheram o recinto do Bons Sons com as nuances do rock, que Victor Torpedo conhece tão bem.
A fechar o penúltimo dia de Bons Sons, não podia faltar a seleção musical de excelência da DJ Catarina Silva. Uma caminhada desde os primórdios do electro até às variantes do techno e do club music que fez mover os corpos dos madrugadores no Palco Aguardela.
4º dia – domingo, 9 de agosto
Último dia, o cansaço acumulado já pesa no corpo, nas pálpebras e na cabeça, mas o entusiasmo por ouvir mais um cocktail de artistas supera tudo.
Foram várias as caminhadas pela feira, durante as balizas horárias entre concertos. Aqui artesãos dos mais diversos ofícios tiveram palco para apresentarem as suas peças nas ruas e darem a conhecer o seu trabalho criativo. Desde peças feitas à mão de cerâmica (Limbo), acessórios e objetos originais pintados/ bordados à mão (Hard Core Fofo), incensos caseiros, e até rolos de fotografia especializados (Circanalogique).
Eram três da tarde e o sol batia diretamente em Cem Soldos, fazendo-se sentir o calor intenso. Ainda assim, ninguém parecia disposto a perder o concerto dos Cortada, no Palco Giacometti, procurando a sombra do toldo e recorrendo aos sprays de água para se refrescar e aos que estavam à sua volta, sem deixar de dançar ao som da banda lisboeta.
Os Cortada levaram ao palco o seu noise-punk, com o seu mais recente disco, “Gānbēi ( 干杯 )”, marcado pelas guitarras, pelas linhas de baixo aceleradas e pelos vocais gritados.
Neste último dia de Bons Sons, o Festival continuou a trazer a musicalidade dos mais diversos pontos geográficos de Portugal. Foi a vez de Romeu Bairos, que trouxe a Cem Soldos o sotaque das Furnas, São Miguel. As suas raízes, a história da sua terra-mãe, o humor, o sotaque e a linha entre o tradicional e o contemporâneo, tiveram uma presença vincada nesta atuação.
A meio da tarde, o centro de Cem Soldos, a começar na igreja (Palco Amália), até ao relvado do Palco Lopes-Graça, foi o espaço que abraçou a arruada com as Pauliteiras de Miranda do Douro. Num primeiro momento era difícil de visualizar a atuação, uma vez que os festivaleiros circundavam as Pauliteiras. No entanto, a beleza da arruada é esta dança de corpos, não só dos artistas, mas também do público, onde uma espécie de “jogo das cadeiras” era feito para todos terem oportunidade de ver de perto essa luta dançada.
Pingas de suor escorriam dos músicos e das dançarinas, que marcavam nos seus passos coreografados e na coordenação dos membros superiores e inferiores, o ritmo e a identidade de Miranda do Douro. Dentro da performance e da parte técnica, os figurinos não eram um mero adorno, também bebiam da cultura mirandense e adicionavam movimento e cor a esta troca de passos tão bonita e sensível.
Aqui a tradição deu as mãos à passagem de geração em geração, com este grupo de jovens mulheres que perpetuam um costume que outrora era exclusiva aos homens.
No fim, o público juntou-se às Pauliteiras para ter a oportunidade única de experimentar esta arte que combina a gaita de foles e o batucar do tambor com a dança e/ou movimento dos paulitos e do salto dançado.
A Rádio Universidade de Coimbra esteve à conversa, após a atuação, com algumas das Pauliteiras de Miranda do Douro e com um dos músicos (instrumentista da gaita de foles) para conhecer melhor esta forma de arte tão portuguesa e tão bonita.
Pode ouvir a conversa na íntegra abaixo:
Em mais uma das nossas caminhadas pelo recinto do Bons Sons, deparámo-nos com o Palco Garagem, este que tem como objetivo promover música e artistas emergentes, com a variante de que quem pisava o palco eram pessoas do público que se voluntariavam. Carlos Silva é o coordenador e técnico deste palco que visa “dar um empurrão” àqueles que queiram experimentar, publicamente, um instrumento que saibam tocar, mostrar algo que tenham criado ou até se divertirem um bocado.

Os mais corajosos podiam apresentar os seus projetos originais ou a sua veia artística para a música, num espaço cedido gentilmente pelo proprietário para este momento tão comunitário. Estas jam sessions decorrem pela tarde já há várias edições do Bons Sons, antes num local diferente.
A Rádio Universidade de Coimbra esteve à conversa com Pedro Ribeiro, voluntário e um dos orientadores deste Palco, para nos falar mais sobre esta iniciativa.
No decorrer da tarde o alinhamento contou com La Família Gitana, a suavidade de Máximo, a beleza dos Cremalheira do Apocalipse e os clássicos de Rita Redshoes.
No último dia, estivemos também à conversa com Sérgio Alves, programador do Bons Sons, que nos fez o balanço desta edição de 2026, falou dos desenvolvimentos ao longo destas duas décadas e esclareceu questões como o motivo do festival se ter tornado bienal, a relação com a comunidade de Cem Soldos e ainda outros aspetos que pode ouvir na entrevista completa, disponível abaixo.
Foi, também, durante a tarde de domingo que a RUC se cruzou com alguns dos festivaleiros que passeavam pelo recinto do Bons Sons para lhes pedir um pequeno balanço do que teria sido esta edição de 2026. Entre depoimentos mais sérios e alguns, entre amigos, mais descontraídos, cruzamos algumas das opiniões dos quatro dias que tinham passado.
Pode ouvir, na íntegra, as entrevistas a alguns festivaleiros, abaixo:
Já a noite ia longa quando Seara (projeto que junta Amélia Muge, Rão Kyao, Júlio Pereira, Manuel de Oliveira, Daniel Pereira Cristo, Mário Gonçalves e Miguel Veras) subiram ao Palco Lopes-Graça para uma interpretação suave. De novo o tradicional e o medieval fundem-se nestas melodias humanas e repletas de sentimento que denotam em cada verso e nota musical a intervenção e o apoio tão necessário no cenário de guerra que assola o mundo nos dias de hoje, e não só.
Seara são o símbolo da terra fértil onde a música tradicional portuguesa brota num cruzamento entre o passado e a inovação semeado atrás da lírica das canções e dos belos instrumentos que praticam.
A atuação de Seara terminou com uma balada de homenagem às crianças que se encontram em situação de guerra, em todo o mundo, todos os dias. Um abraço de conforto feito para essas crianças que ouvem as suas mães ou avós cantarem canções de embalar, uma vez que é a única coisa que estas têm para adormecer o sofrimento e acalmar os pequeninos corações destes meninos/meninas.
Já com o final da edição de 2026 à vista, os MXGPU tomaram o Palco António Variações, na melhor maneira possível de terminar. Moullinex e GPU Panic trouxeram consigo a eletrónica de Sudden Light, num espetáculo onde a luz, o som e o movimento se encontraram para criar uma experiência difícil de traduzir em palavras.
Com o palco a poucos metros de distância, foi possível viver cada momento de forma particularmente intensa: cada luz, cada batida e cada movimento pareciam acontecer à nossa frente, sem qualquer distância entre quem estava em palco e quem assistia.
Rapidamente a pista transformou-se e o público uniu-se num espaço onde durante aquela hora era difícil pensar em qualquer coisa que não fosse a música.
Para fechar esta edição e em jeito de celebração dos 20 anos de existência deste Festival, onde a comunidade e a resistência falam mais alto, deu-se o Baile Festeiro, um DJ set que juntou elementos da equipa organizadora do Festival Bons Sons no Palco Aguardela.
Para além de um alinhamento exclusivo de música portuguesa com temas que foram desde a inigualável Sara Tavares até aos Buraka Som Sistema, também se deu o corte de um bolo, feito pelos habitantes da aldeia e que marcou esta data tão significativa para todos os envolvidos. Para terminar, já depois das quatro da manhã, ouviu-se “O Barco Vai de Saída”, de Fausto, que levou toda a gente a cantar numa só voz, refletindo o espírito interventivo e de unidade do Festival e de quem o visita.

Um obrigada a todos os que fazem acontecer o Bons Sons, aos organizadores, aos artistas, aos voluntários e sobretudo às pessoas da aldeia que transpiram todos os dias para que este belo festival se mantenha de pé.
Na próxima edição vens “viver a aldeia”?
Fotografias de Fausto da Silva e Nuno Ávila.
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