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Teatro, Comunidade e Futuro – Uma Conversa sobre o Projeto do Teatrão em Almalaguês
A nova criação do Teatrão estreia esta sexta-feira, dia 25 de julho. “Almalaguês” fará mais duas sessões amanhã, sábado, dia 26 e domingo, dia 27 de julho. Os espetáculos têm entrada livre com início às 19h30 na rua Principal de Almalaguês.
Num diálogo sincero e profundo, o ator João Santos e a coreógrafa Aldara Bizarro partilham a experiência de criação de um espetáculo comunitário na freguesia de Almalaguês, revelando os desafios, a metodologia e a importância da descentralização cultural em Portugal. O projeto, conduzido pelo Teatrão, é mais do que uma produção artística: é um encontro entre pessoas, patrimónios e possibilidades de futuro.
Uma Ligação que Nasce do Território
João Santos explica que o espetáculo surge de uma relação já longa com Almalaguês, onde desde 2017 o Teatrão colabora com o Centro Paroquial de Bem-Estar Social. A criação atual insere-se numa continuidade de projetos que incluem seminários sobre descentralização cultural, visitas ao território e o envolvimento ativo da comunidade local.
“Este espetáculo decorre de uma relação que tem vindo a ser construída com o território. Desde o início sentimos que havia ali uma comunidade orgulhosa da sua identidade e património”, diz João.
A iniciativa contou também com a participação da coreógrafa Aldara Bizarro, convidada como artista associada no quadriénio, e cuja presença em Almalaguês foi essencial para definir o rumo criativo do projeto.
Do Passado ao Futuro: Um Exercício de Imaginação Coletiva
Embora muitos projetos comunitários se ancorem na memória, neste caso o foco evoluiu para o futuro. Aldara Bizarro, durante os ensaios e convívios com os participantes, percebeu que havia uma forte ligação ao passado – à herança cultural, à tecelagem, à música tradicional – mas pouca reflexão sobre o que poderia vir a seguir.
“Todos falavam do que os pais ou avós faziam, e eu perguntava: e tu? O que tu queres fazer? Como é que será o futuro desta terra?”, partilha Aldara Bizarro.
Este desvio da nostalgia para a projeção de um futuro possível foi uma das linhas condutoras do espetáculo. Não se tratava de negar a tradição, mas de imaginar coletivamente a continuação viva e transformadora do território.
Uma Comunidade em Cena
A peça é interpretada por habitantes da freguesia, de diferentes idades e histórias de vida, o que confere ao espetáculo uma autenticidade irreproduzível.
“Não são atores. São os próprios habitantes a acolher o público e a apresentar a sua terra. Isso não se pode falsificar”, sublinha João.
A participação ativa da comunidade vai além da performance. Muitos dos envolvidos já estavam ligados a associações locais, como ranchos, grupos de tecelagem ou museus informais, e trouxeram consigo esse saber e experiência para o processo criativo.
Muito Mais que um Espetáculo: A Programação Paralela
A produção não se esgota na peça. Uma programação paralela complementa e aprofunda o projeto, incluindo visitas guiadas à bioreserva da Senhora da Alegria (entretanto cancelados devido à previsão de tempo muito quente), debates sobre descentralização artística e conversas com artistas que vivem fora dos grandes centros urbanos.
“Queremos criar espaços de diálogo entre público e criadores. A cultura não se pode limitar ao palco. É preciso conversar”, afirma João.
Essas atividades servem para reforçar o enraizamento do projeto na vida local, promovendo novas formas de pensar o papel da cultura nos territórios fora dos circuitos habituais.
Descentralização Cultural: Um Caminho Necessário
Durante o debate promovido pelo projeto, emergiu a questão da descentralização cultural e os seus riscos, nomeadamente o de uma possível “colonização” artística de territórios rurais. A coreógrafa reflete sobre o tema com sensibilidade:
“Há quem vá viver para fora das cidades por razões muito legítimas: qualidade de vida, desejo de estar mais perto das pessoas. Mas é importante que essa presença não seja oportunista, que se estabeleça um verdadeiro diálogo com os locais.”
A artista destaca que a descentralização não deve ser vista como caridade ou imposição, mas como uma troca genuína.
“É preciso dar importância à descentralização, não como aproveitamento, mas como resposta a um desejo de habitar e co-criar noutros lugares.”
A Caminho de Uma Nova Ética Artística
No encerramento da conversa, João ressalta o compromisso do Teatrão com projetos que deixam lastro, que constroem relações duradouras com os territórios e as pessoas.
“Não faz sentido irmos a um sítio, explorarmos os recursos e depois desaparecermos. Queremos criar algo que tenha continuidade, se assim fizer sentido para todos os envolvidos.”
Almalaguês, com o seu tecido social ativo e a sua herança cultural, tornou-se palco e protagonista de uma experiência que combina arte, memória e futuro. Pode ouvir as entrevistas na íntegra no próximo sábado, dia 26 de julho, no programa Perfil.
Nota:Texto escrito a partir da transcrição da entrevista usando ferramentas de IA. Com revisão posterior da editora.
Fotografia: Teatrão@Paulo Abrantes
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